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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 16 de abril de 2003
Do rio para o Acre

(Palavras para mudar o presente)

Cesar Garcia Lima *

Caro leitor, recebo o convite para escrever nestas páginas pela internet. O texto que escrevo (e que você lê agora) também foi enviado pela rede de computadores. Rio de Janeiro, onde estou, e Rio Branco, onde sou lido, parecem ser locais próximos, graças à tecnologia, ainda que a mais de 5.000 km de distância. O sentido deste intercâmbio é investigar um pouco as diferenças e semelhanças entre esses lugares, unir e distinguir o Rio, atual vitrine da desigualdade brasileira, do Acre, fadado à biopirataria histórica.

Tenho me perguntado como aproveitar este espaço no “Página 20” para produzir artigos diferenciados de outras matérias do noticiário nacional e internacional. Lógico, a guerra no Iraque é o primeiro assunto que me vem à cabeça, mas o conflito parece tão mascarado pelo ponto de vista da coalizão ocidental quanto por notícias provenientes da Ásia. Hesito em fazer disso um grande tema: os grandes temas estão contaminados pelo excesso de versões. Ao recente sinal de derrota do governo de Saddam Hussein, a paz ressurge de maneira artificial, como se iraquianos e a coalizão tivessem participado juntos do massacre deste abril. Espanta-me que não exista um substituto para Gandhi, que lutou pela independência da Índia com seu traje simples e apenas uma meta na cabeça: o pacifismo. Espanta-me que as estratégias do mundo atual tenham sido tão pouco eficientes para deter a fúria de guerra de George W. Bush. Não, não quero falar de guerra, mas falar de paz revela quase sempre o seu oposto.

A idéia dos artigos deixa de ser única: proponho-me a descobrir assuntos que possam, de alguma maneira, integrar Rio de Janeiro e Acre, em crônicas e reportagens. Não se trata de ser otimista diante da quantidade crescente de problemas que toma conta da sociedade brasileira, mas de olhar para o que é possível fazer e está ao alcance do cidadão comum. Cidadãos comuns como você e eu, mas com o privilégio de ler este jornal e capazes de expressar esperança ou indignação.

A proposta é abordar algumas questões úteis para a cidadania ou para a alma. Como o trabalho da jornalista carioca Graça Portela, que largou o dia a dia convencional como repórter e assessora de imprensa para criar um programa de rádio sobre doenças sexualmente transmissíveis, tema da próxima coluna. Outro artigo mostrará como a reciclagem pode abrir oportunidades ligadas ao artesanato e ainda colaborar com a preservação do meio ambiente. Melhor seria que as indústrias não poluíssem e que fôssemos educados o suficiente para reciclarmos nosso próprio lixo, mas, tudo bem, a gente chega lá.

A violência, infelizmente, é um assunto comum entre Rio e Acre. O cerco se fecha por aqui. Parece haver pouco a fazer diante de ônibus queimados, traficantes que atiram sobre pontos turísticos, fecham o comércio. Nesse caso, utilizo o instrumento que está a meu alcance: a palavra. Os casos recentes de violência urbana no Rio alteram completamente a maneira como o habitante da cidade sai de casa, seja durante o dia ou à noite. Uma ex-colega de trabalho, que convive diariamente com a possibilidade de violência, no Rio Comprido, dá um depoimento contundente. Ela observa que “quanto mais você se expõe, menos pensa na violência”, explicando que já não consegue se concentrar no medo, pois o trabalho obriga que passe todos os dias por um território de guerra civil disfarçada. Aí está o ponto: não ter medo, não cultivar a paranóia que atribui aos terroristas do Rio um poder além do previsto por seus negócios escusos. Eles mesmos pedem para ser punidos, porque parecem querer afirmar sua existência quando mandam faxes e promovem a desordem madrugada adentro. A governadora do Rio, aquela com nome de criança, limita-se a declarar pela grande imprensa que “está tomando providências”, manifestando seus sonhos de ser apresentadora de TV. Bem, parece que a governadora e eu não vivemos na mesma cidade. Resta-me, com satisfação, é preciso dizer, fazer parte deste grupo que pensa em resistir no presente reinventando o cotidiano com fraternidade, simplicidade e cidadania.

e-mail: cegali@terra.com.br

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