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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 1 de maio de 2003

Bolsa popular

A Bovespa está tendo um bom ano até agora. Tem alta acumulada de 11,4% em quatro meses. Mas, nos últimos anos, perdeu valor e volume. Em 97, o atual presidente da Bovespa, Raymundo Magliano, foi a Espanha e conferiu que a Bolsa de Madri movimentava US$ 552 milhões por dia, US$ 200 milhões a menos que a Bovespa. Hoje, o Brasil caiu para US$ 185 milhões e a Espanha foi para US$ 2,6 bilhões.

A desvalorização distorce um pouco os números, mas, de fato, nos últimos anos, houve um encolhimento da bolsa brasileira. Magliano luta contra isso com todas as armas. E, por todas as armas, entenda-se: fazer lobby no Congresso contra a CPMF, subir em caminhão de sindicato para falar com trabalhadores, pôr uma unidade móvel da bolsa vendendo ação como se fosse cachorro quente nos clubes, nas ruas, nas praias. E até fazer greve. Ele está convencido de que a bolsa só será forte se houver democratização do capital no sentido mais radical, com segurança, transparência e acesso dos pequenos investidores aos ativos em bolsa.

Seu grande mestre no avanço para a democratização do capital tem sido não um consultor de mercado de capitais, mas Paulinho, da Força Sindical.

— Ele tem me ensinado a falar com os trabalhadores, nos caminhões, nas portas de fábricas; incentivado a formação de clubes de investimento de trabalhadores e me ajudou até a organizar a greve que fizemos em 2001. Eu sou empresário, não sabia fazer greve. Ele que me ensinou — diz Magliano.

A paralisação produziu uma imagem daquelas que valem por mil palavras: os grevistas brandindo os crachás amarelos de operador da bolsa. Era um protesto contra a CPMF, que tornava o custo de negociar no Brasil várias vezes maior que o de uma compra de ações em Nova York. Parte do mercado migrou para lá. Afinal, com as grandes empresas brasileiras lançando ADRs no mercado americano, e lá não tendo que pagar um imposto como a CPMF em cada transação, ficava muito mais lucrativo para o grande investidor operar em Nova York.

A estratégia da Bovespa foi lutar contra a CPMF; uma luta de vida ou morte.

— Fizemos tudo o que se pode imaginar. Quando foi votado na Câmara o projeto para retirar a taxação sobre os investimentos em bolsa, fomos para Brasília e conversamos com cada um dos parlamentares; gabinete por gabinete. Nos dias de votação, nomeamos 33 pessoas para ficar ligando para os mais favoráveis ao projeto. Cada um fez dez ligações e falamos com 330 deputados. Cercamos gente na saída do plenário e ganhamos por 311 votos a favor. Quase morri do coração, porque precisávamos de 308 votos — conta o presidente da Bovespa.

Ele disse que tem se divertido e aprendido nas conversas com trabalhadores e líderes sindicais sobre investimento em bolsa .
— Eles querem participar, mas acham que isso é coisa de grande investidor; têm medo da bolsa, não têm segurança. A gente precisa explicar como funciona, tornar a bolsa acessível, dar segurança ao pequeno investidor pessoa física — explica.

Magliano acha que a popularização pode acontecer aqui como aconteceu nos Estados Unidos e já até conta vitórias: a parcela do investidor pessoa física no volume de negócios já subiu de 8% para 24%; está agora no mesmo nível que o do investidor institucional, ou seja, os fundos de pensão.

Para crescer ainda mais, a Bovespa trouxe da Alemanha a idéia do Novo Mercado. Só que lá era com papéis de empresas pontocom.

— Aqui fizemos diferente. Podem entrar no novo mercado empresas que satisfaçam determinadas exigências de governança. Há vários níveis, mas, no nível de novo mercado, só entram empresas que tenham apenas ações ordinárias.

Um novo momento da arrancada é um projeto desenvolvido a partir de uma conversa quando os representantes da bolsa foram ao gabinete do senador Antonio Carlos Magalhães Júnior. O projeto permite que, se o trabalhador quiser, um percentual das aplicações futuras da sua conta de FGTS seja aplicado em ações. Ao final de dois anos, pode voltar para a aplicação normal da conta do Fundo, ou permanecer nas ações. Uma sugestão do presidente da Abamec, Humberto Casagrande, foi acolhida: a de assegurar ao trabalhador que, se a ação cair, ele tem garantida, no mínimo, a remuneração igual à do FGTS, ou seja, TR mais 3% ao ano. O projeto tramita apesar da pressão da indústria da construção civil, que teme perder recursos para os financiamentos imobiliários. Magliano acha que não há este perigo, afinal, é apenas um percentual pequeno dos novos depósitos em FGTS e só com a aprovação do trabalhador. A princípio, eles calcularam, algo como 1% do FGTS, o que dá cerca de R$ 2 bilhões por ano, quantia que ajudaria na ampliação do mercado.

A bolsa encolheu porque a privatização fez com que muitas empresas que eram grandes no mercado tenham fechado seu capital ao serem compradas por grupos estrangeiros. Encolheu pelo movimento geral de fechamento de mercado de capitais: o Brasil já teve 596 empresas de capital aberto e agora só tem 391. E encolheu também porque a CPMF aumentou o custo das transações no Brasil. Mas Magliano acha que tudo isso pode ser revertido se a bolsa for bem sucedida no processo de popularizar essa forma de investimento.

NA SEGUNDA-FEIRA, o presidente do BNDES, Carlos Lessa, vai se reunir com o ministro da Saúde, Humberto Costa, representantes das indústrias farmacêuticas e pesquisadores. O objetivo é tentar desenvolver um projeto para aumentar a produção nacional do setor farmacêutico. Atualmente, 80% dos produtos de saúde que são consumidos no Brasil são importados, gerando um déficit de US$ 3,5 bilhões no setor.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão com Débora Thomé
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