
Maqueson Silva
“O centro do mundo é aqui também”
ALTINO MACHADO
O acreano Maqueson Silva, 45, domina a arte da marchetaria, que consiste em colar pequenos pedaços de madeira até que adquiram forma e significado. A marchetaria vem do francês “marqueter”, que significa embutir.
É a arte de ornamentar superfícies planas de móveis, painéis, objetos, pisos e tetos através da aplicação de diversos materiais. A madeira é a mais utilizada, tendo como principal suporte a própria madeira.
Os primeiros registros conhecidos, incrustações em mármore, foram encontrados em Halicarnasso, no Palácio do Rei Mausole (aproximadamente 350 a. C.). Em várias partes do mundo a marchetaria era e ainda é produzida através dos procedimentos da Tarsia Certosina (incrustações) e da Tarsia Geometrica (revestimentos).
No Extremo Oriente, são conhecidos os efeitos obtidos pelas incrustações de madrepérola na madeira maciça. No Oriente e nos países muçulmanos muitos móveis e pequenos objetos são revestidos com motivos geométricos.
Maqueson Silva, que nasceu em Porto Walter, começou a estudar com os padres alemães da Ordem do Espírito Santo. Eles o levaram para estudar em Santa Catarina, no Instituto Libermann, na cidade de Salete, no Vale do Itajaí.
Passou 18 anos de aprendizado nos colégios dos padres, onde estudou filosofia, marcenaria, psicologia, ciências catequéticas e desenho arquitetônico.
Desistiu de ser ordenado padre e voltou para o Acre, onde encontra o ambiente ideal para desenvolver o estilo. “Eu pinto com as tonalidades da madeira”, afirma. Maqueson tem recusado propostas para criar ou ensinar a técnica em outros países.
“Hoje, com a globalização, não existe um lugar que seja o centro do mundo. O centro do mundo é também aqui”, afirma o artista, que recentemente criou painéis para ornamentar a reforma do Teatro Plácido de Castro e acaba de ser convidado para fazer um painel de 39 metros de comprimento no plenário da Assembléia Legislativa.
Leia os melhores trechos da entrevista a seguir.
A arte da marchetaria mudou a sua vida de menino pobre, nascido em Porto Walter?
Mudou significativamente. Vindo de Porto Walter, reencontrei as minhas origens. Vim da camada mais simples. Sou ribeirinho, meu pai e eu fomos seringueiros. Para poder pagar os meus estudos, tive que serrar madeira com serra manual. Meu pai trabalhava com barcos, fabricava instrumentos musicais. Parece que isso já vem de família. Por um período, quis apenas estudar. Saí para o Sul sem imaginar que poderia fazer esse trabalho com madeiras, porém quando cheguei em Santa Catarina fui estudar também marcenaria, que é uma profissão mais ou menos complexa, e lá, no estilo alemão, era exigido se tornar mestre. Para mim era mais ou menos fácil porque eu já conhecia as madeiras.
Como o senhor iniciou os primeiros trabalhos?
Iniciei sem ter uma referência. Depois os padres me disseram que existia uma técnica e se dispuseram a buscar material para me preparar. Isso de fato me interessou e comecei com coisas muito simples, sem nenhuma pretensão. Ainda lá no Sul vieram as primeiras exposições, mas eu não tinha pretensão. Depois então fiz disso a minha profissão. A partir daí comecei a ver alguns trabalhos que vieram da Europa e eu me convenci de que poderia fazer melhor. Mas havia as minhas limitações.
Quando passou a incorporar realmente a marchetaria?
Isso aconteceu a partir de 1976, quando conheci outra pessoa que estava no Sul, mas que hoje vive aqui em Cruzeiro do Sul. Trata-se do padre Eriberto, que é alguém extraordinário, com doutorado em música, musicólogo de museu na Alemanha. É um grande conhecedor e admirador das artes. Ele viu meus primeiros trabalhos quando eu estava muito entusiasmado, achando que já sabia das coisas. A partir dele, comecei a perceber que não sabia de nada.
Ele se tornou um crítico de sua obra?
Sim. Toda a vida ele foi crítico, mas passava pelo menos meio dia comigo. Quando eu concluía uma obra, era o primeiro a apontar os defeitos. Foi muito ruim. Ele me fazia estudar 12 horas por dia, embora eu já estivesse me formando, faltando apenas um ano para ser ordenado padre. Aceitei porque era uma maneira de aprender. Até que certo dia fiz um trabalho sem nenhuma pretensão e ele olhou e disse: ‘Agora você pode caminhar sozinho’. Continuou fazendo a crítica, mas já de outra maneira. Hoje, executo trabalhos bem complexos. Nunca imaginei que fosse possível fazer flores, folhas. Ver outros trabalhos e ter material didático de fora foi importante para saber a distância que precisava percorrer para superar meus erros.
Como a marchetaria se situa na história ou no mercado das artes?
A marchetaria sempre acompanhou as artes plásticas e algumas vezes teve mais valor comercial que a pintura em razão do grau de perfeição atingido por alguns artistas. Considero excepcionais os trabalhos de frei Giovani, de Verona, e frei Damiani, de Milão, ambos do século XII. Eles fizeram painéis, mas não são tão grandes quanto os meus, porque eles não dispunham dos recursos de que dispomos hoje.
E o mercado em relação à sua produção?
Ele continua receptivo pelo fato de a madeira cada vez mais estar se tornando escassa e, por outro lado, muito mais valorizada. Hoje nós podemos trabalhar com as raízes ou galhos retorcidos de árvores, que é uma técnica dominada pela Alemanha. Isso é impressionante. Os filamentos das raízes e galhos nos dão uma textura muito especial. De uma mesma madeira se pode tirar uma variedade enorme de tonalidades.
Como seria se o senhor tivesse optado por firmar seu ateliê num grande centro cultural, dentro ou fora do país?
Tenho propostas nesse sentido, mas sou muito mais produtivo na minha terra. Entidades e empresas já me sugeriram mudar daqui. A proposta mais recente partiu do embaixador do Canadá quando esteve aqui em Cruzeiro do Sul. Ele sugeriu um salário do governo canadense para ensinar a técnica no país dele. O Canadá tem marchetaria, mas não com o nível com que eu trabalho aqui. Pelo fato de não ter uma referência, acabei criando um estilo. Por exemplo: o beija-flor que faço tem as asinhas, o olho, tudo recortado e montado. É como se fosse uma pintura. Eu pinto com as tonalidades da madeira. Criar plasticidade, impressão de volume, uma flor, uma pétala aberta, com relevo tridimensional, sombreamento, tudo isso faz parte do meu estilo. Fui buscando isso até para me aproximar das pinturas, o que foi mais ou menos o que aconteceu com os artistas na época de Luiz XIV e Luiz XV, na França, onde a marchetaria atingiu o seu apogeu. Os artistas eram contratados pelo imperador e tinham ser tão bons trabalhando com a madeira quanto aqueles que trabalhavam com a pintura. Esse foi um grande passo dado pela marchetaria.
Por que o senhor radicaliza em fazer do Acre o seu ateliê?
Primeiro porque amo a minha terra. Outro detalhe é que aqui é a Amazônia. Hoje, com a globalização, não existe um lugar que seja o centro do mundo. O centro do mundo é também aqui. Além disso, estou revivendo aquilo que já vivi em comunhão com o meio ambiente como habitante. Quando viajo pelos rios, quando converso com os seringueiros, estou me reciclando, me abastecendo de motivos para trabalhar. Isso é o que me prende aqui, mas também existe a grande variedade de madeira que existe nesta região. Não existe outro lugar parecido, com tantas diversidade: cipós, paxiúbas, palmeiras variadas. Aqui é o mundo das idéias. O novo está aqui.
O senhor parece ter resolvido a equação, embora muita gente no Acre ainda não saiba se está no começo ou no fim do mundo.
Digo que a gente está no começo. O novo ainda está aqui porque ainda falta acontecer as coisas. Depois daqui não tem mais nada. A tecnologia pode até estar lá fora e quando for necessário nós iremos buscá-la. Essa valorização dada depois que o governador Jorge Viana assumiu, o amor pelo Acre, tem me comovido. Eu estava decidido a ir embora do Acre. Quando surgiu o governador Jorge Viana e percebemos que havia alguém que gostava do Acre, avaliei que valia a pena investir aqui. A auto-estima das pessoas melhorou em todos os recantos. Antes, quando ia a São Paulo comprar algum material, as pessoas reagiam negativamente quando eu dizia que morava no Acre. Hoje é diferente. Quando digo que sou do Acre, as pessoas dizem: ‘Ah! Lá onde tem aquele governador. Dá um abração nele e diga que sou um fã dele’. Isso não tem preço. Ele está mudando o rumo do Acre.
Qual sua estratégia para, daqui do extremo oeste, conquistar as galerias de arte do país?
Para isso tenho que ter uma produção com qualidade. É praticamente impossível assegurar uma produção sozinho. Tenho hoje oito funcionários registrados e cinco estagiários. Estou tentando encontrar pessoas que possam me auxiliar. A marchetaria exige uma escala de criação, produção e aperfeiçoamento. Tenho que elaborar os desenhos, escolher as madeiras, dizer como tem que ser o corte para que meus auxiliares possam executar.
O senhor foi convidado para fazer um painel no plenário da Assembléia Legislativa do Acre. Como serão essa obras?
Irei retratar seis estações da Revolução do Acre. O painel terá 39 metros de comprimento. Até o fim do verão creio que estará montado. Deverá ser o maior painel em marchetaria do mundo. Até agora sei que iniciarei com a Insurreição Acreana, liderada por José de Carvalho, e concluímos com a última batalha do Vale do Juruá, ocorrida lá em Thaumaturgo. A conquista do Vale do Juruá é um fato marcante de nossa história. Estive recentemente nas trincheiras em Thaumaturgo. Espero que o prefeito da cidade preserve aquelas trincheiras, pois aquilo ainda será ponto turístico.