
Obra dividida
Em matéria de simbologia, a solenidade de entrega das propostas de reformas tributária e previdenciária ao Congresso atendeu ao objetivo principal: compartilhando a iniciativa com os governadores e a sociedade civil, o presidente Lula desafia o Legislativo a atender a uma demanda originária não apenas do Poder Executivo. Resumiu o ato numa frase, dizendo aos deputados e aos senadores que são eles agora “os donos do jogo”.
Perdeu-se a oportunidade de uma foto que guardaria a estratégia numa imagem, caso tivessem programado a subida dos 27 governadores à Mesa onde encarapitaram-se, além de convidados, os papagaios de pirata de sempre. Lula supriu esta deficiência do cerimonial citando genericamente os membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e o nome de cada um dos governadores. Diz-se em setores da oposição que o governo planejou a transferência do ônus das reformas a estes parceiros, principalmente aos governadores, que teriam caído numa esparrela.
Se não buscasse apoios consistentes, Lula seria acusado de fingir empenho pelas reformas. Depois, tanto os governadores quanto os senhores do conselho participaram livre e interessadamente das discussões que resultaram no pacto transposto para os textos das emendas. Verdade que os governadores sentiam a falta de dispositivos acertados, como a compensação com as perdas da Lei Kandir, reclamada por Aécio Neves. No Congresso haverá tempo e espaço para correções, mesmo que tudo ocorra no ritmo prometido pelos presidentes da Câmara, João Paulo, e do Senado, José Sarney.
No discurso de Lula, soaram fora do lugar dois anúncios que devem ter sido prometidos aos governadores nordestinos, o compromisso com a transposição das águas do Rio São Francisco e a conclusão da ferrovia Transnordestina. Se fez tais compromissos convencido da necessidade e da viabilidade das obras — e ele mesmo recordou já ter se recusado a discutir o primeiro projeto — poderia o presidente ter deixado para anunciá-los em outra hora. No contexto de ontem, alimentou, ali mesmo no plenário, a interpretação de que resgatava a fatura de uma barganha em torno das reformas. Fazer concessões, desde que o objeto guarde relação com o interesse público, é virtude do governante que persegue o êxito, ainda que habitando o terreno vizinho ao da barganha.
Falando ao Congresso pela segunda vez desde a posse, ainda que ontem não se tratasse de uma sessão oficial, Lula fez indiretamente uma autocrítica que agradou. Muitos de nós, compartilhou, já criticamos esta Casa, “mas sem ela não existiria a democracia”. Após ter sido deputado constituinte, fez a declaração inesquecida sobre os “300 picaretas”. Picaretas existirão sempre, em toda parte, e nunca será possível contá-los com exatidão. No caso do Congresso e das instituições democráticas, mais importante é que funcionem livremente, tanto para votar reformas como para reduzir a taxa de picaretagem.
Duas bicudas na cabine
Na viagem do Rio para Brasília, Lula trazia a governadora Rosinha como convidada mas tinha também a bordo a ministra Benedita da Silva. Ficou entre as duas conversando algum tempo e depois foi juntar-se ao empresário Eduardo Eugenio e aos ministros Dulci e Furlan, dizendo-lhes:
— Estou empenhado em fazer estas duas fumarem o cachimbo da paz.
Se não chegaram a tanto, pelo menos conversaram sem elevar a voz ou sacar outras armas.
Na caminhada
Roberto Requião, governador do Paraná, encontrando o ministro do Trabalho, Jaques Wagner, na comitiva das reformas que foi com Lula ao Congresso:
— O que é isso, estão reabilitando a delinqüência?
O ministro foi socorrido por outro interlocutor mas Requião explicou do que reclamava. Da nomeação do petebista Geraldo Seratiuk para o cargo de delegado regional do Trabalho. Deve ser muito bom este cargo, tantas são as brigas que provocam nos estados.
Apoio inesperado
Circulou ontem no Itamaraty, que festejou a seu modo, entrevista do primeiro-ministro da Austrália, John Howard, capturada na internet pelo ministro e porta-voz Ricardo Neiva Tavares. Howard defende a entrada de mais cinco países no Conselho de Segurança da ONU: Japão, Índia, Indonésia, Alemanha e Brasil. Este foi um apoio inesperado, vindo de longe — física e politicamente — embora ele tenha crescido entre países aqui da região.
AURELIANO CHAVES fez um de seus últimos discursos políticos há um ano, ao lado de Itamar Franco, numa solenidade em Conceição de Mato Dentro, terra de José Aparecido. Como o então governador, declarou seu apoio a Lula após lançar duras críticas ao desmonte do Estado e à servidão ao mercado. Mereceu ontem um comovido minuto de silêncio no ato de entrega das reformas ao Congresso. Aparecido, depois de visitá-lo no hospital, previu há alguns dias: “Aureliano está morrendo de tristeza pela perda de dona Vivi”. Falava o tempo todo na companheira de 48 de vida, morta há pouco mais de um mês.
DO GOVERNADOR Lúcio Alcântara (PSDB-CE) ao deputado Paulo Delgado: “Você agora perdeu o charme, o PT é quase todo moderado".
Tereza Cruvinel