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Rio Branco - Acre, domingo, 8 de junho de 2003

Adelina da Silva

Artesã de Sena Madureira exporta para Itália

Andréa Zílio

Ela defende a exploração de recursos naturais para sobrevivência, mas segue uma regra rígida: o respeito ao meio ambiente. Adelina da Silva Nogueira, 40, que veio do seringal de Boa Vista à cidade de Sena Madureira, há oito anos desenvolve um trabalho artesanal que vem ganhando adeptos no Brasil e na Itália.

Para criar as bijuterias, quadros, bolsas e cintos, a artesã optou em viver três meses nas aldeias Kaxinawa, Kolina e Jaminawa, para conhecer as sementes e aprender a tingi-las com resina de madeira. Adelina criou a marca de jóias Iaco, nome do rio em que nasceu, e está exportando seus produtos para a Europa. Ela também realizou um outro desejo, que é o de ajudar ao próximo. Depois de ensinar 16 jovens e 10 mulheres desempregados e abandonados pela família, a artesã criou a Associação de Jóias Iaco e pretende transforma-la em cooperativa, para gerar mais emprego. Adelina contou sua história ao Página20.

Quando começou a trabalhar com artesanato?

Comecei no hospital de Sena Madureira, com 25 anos. Eu fazia as fichas de nascimento, e atendia muitos índios. Conversava muito com eles, porque tinha curiosidade. Aí tirei minhas férias e mais dois meses de licença, então passei 90 dias nas aldeias. Já sabia fazer algumas coisinhas de artesanato. Lá aprendi a tingir e conheci as sementes.

O que a levou a passar férias nas aldeias indígenas?

Eu tenho paixão pela natureza, pela vida na floresta. Gosto muito da mata. A vida dos índios me fascina. Durante esses três meses de férias, vivi a vida deles, que é a que eu queria para mim. Daí eu voltei para a cidade e comecei a fazer colares e dar de presente aos amigos.

Foi a partir daí que criou o projeto social?

Sempre tive vontade de ajudar as pessoas. Trabalhei muito tempo na pastoral carcerária. Quando estava com a técnica e o conhecimento de onde encontrar matéria prima, peguei dez jovens que viviam nas ruas sem ocupação e quinze mulheres que estavam desempregadas, donas de casa com pouca renda e montamos a oficina. Recentemente entrou a nossa mascote para o grupo. Uma moça de 16 anos, que engravidou e o namorado não quis assumir. Por enquanto, nossas máquinas são emprestadas, que o Sebrae cedeu para as oficinas.

As bijuterias estão sendo exportadas para outros Estados?

Trabalhando na pastoral carcerária, fiquei amiga de um casal de italianos, que de três em três meses levam nosso produto para a Itália e vendem, depois me mandam o dinheiro. Também levei as peças que fazemos, para feiras realizadas pelo Sebrae em Goiás e Brasília. Vendi tudo. Vou participar de outra feira no Rio de Janeiro.

A venda aqui no Estado é pequena?

Infelizmente o Acre ainda não valoriza sua riqueza. Nossa meta é vender o produto de nossa matéria-prima. O Acre é um dos lugares mais ricos. Todo mundo está de olho em toda a Amazônia, mas nós mesmos entregamos o que temos. Se você não entrega, garanto que vai ter uma produção grande e vão surgir vários pedidos. Eu já recebi várias ofertas para vender sementes, mas não aceitei. Se quiserem comprar, terão de ser as bijuterias, quadros, bolsas e até roupas. Transformamos o lixo no luxo.

Quais as sementes que você usa?

Caroço açaí, jarina, olho de cabra, murmurum, coco de praia, cibipiruna, mulungu, paxiubão, paxiubinha, jatobá. Também descobrimos outras sementes, como o caroço da graviola, tucumã, e passamos a usá-las. Temos quatro pessoas no grupo que saem comigo todo final de semana para a mata, para colher as sementes. Lavamos, colocamos para secar. Os homens limpam e as mulheres fazem as peças. Nesse trabalho eles se desligam de tudo. Ficam em contato direto com a natureza, aprendem a sobreviver, respeitado-a. Se você respeita a natureza, ela respeita você.

Quanto a Associação fatura por mês?

Há mês em que a gente fatura de R$ 2 a 3,5 mil. Às vezes faturamos R$ 1 mil ou R$ 1,5 mil. Agora, por exemplo, temos um pedido de 500 bolsas para Cuibá. Dá para pagar o pessoal e ainda sobra dinheiro para nossa caixinha. Pretendemos comprar máquinas. Sempre dividimos em partes iguais. O preço de nossas peças varia de R$ 3,00 a R$ 150,00, que é o vestido feito de caroço de açaí.

Você falou que seu trabalho é a realização de um sonho...

Esse era meu maior sonho e realizei. Infelizmente aqui as pessoas não valorizam o suficiente. Os meus desejos eram o de ter um filho, trabalhar com artesanato e ajudar as pessoas. Eu pude engravidar apenas uma vez, hoje meu filho tem dezoito anos. Estou fazendo artesanato junto a pessoas que precisam para se sustentar. Eu amo sair nos rios, entrar na mata, colher as sementes e transformar nessas coisas lindas, que ganham o mundo, sendo usadas por várias pessoas.

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