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Rio Branco - Acre, domingo, 8 de junho de 2003
Pescando indicadores em águas turvas

O Governo da Floresta está empenhado em construir novos indicadores que possam avaliar os resultados de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável e a florestania. A justificativa é que precisa ter em mãos instrumentos capazes de medir os resultados de suas políticas públicas e de ajudar a planejá-las. Por isso realizou em Rio Branco, no começo da semana (terça e quarta), um seminário sobre o tema com a supervisão do Instituto SERE, do Rio de Janeiro, e a participação de especialistas internacionais e regionais. O governador Jorge Viana esteve na abertura do evento, e o vice Binho Marques participou do início ao encerramento.

Convidado a falar sobre florestania, o ex-presidente da Fundação Cultural Elias Mansour, Antônio Alves, o Toinho, apresentou-se como ING (indivíduo não-governamental) e se justificou: “Não é brincadeira não. É preciso que alguém pense à toa”, ao que o vice Binho emendou: “Sem perguntar quanto custa!”.

E assim, nesse tom descontraído, a reduzida platéia convidada para aquela reunião de trabalho teve a impressão de que a discussão começaria e terminaria sem necessidade de queimar muitos neurônios.

Ledo engano. O orador “ing” advertiu que ia complicar ao máximo a exposição “para que as pessoas pesquem em águas turvas”. Na verdade, alternou pensamento complexo da cidade com sentimento simplificado dos povos da floresta, começando por criticar a ideologia urbanizadora “que se entranha de tal forma em nosso pensamento, que a gente nem percebe”. Na seqüência, sugeriu que “é necessário começar a pensar de outra forma, para descobrir valores que não sejam os urbanos”.

Para mostrar como os valores da cidade contraditam com os valores da área rural, Toinho pegou o exemplo das alagações. Uma família do interior acreano que mora há 150 anos na beira do rio quando se muda para a cidade procura manter o estilo de vida anterior. “O que significa para essa família, uma alagação que ocorre de 4 em 4 anos?”- indagou, e ele mesmo respondeu que, provavelmente, nada. Mas os governos tendem a considerar um problema o que para a família pode até ser solução. De fato, morando na beira do rio ela está mais perto da cidade, do transporte, do subemprego e da comida.

A cidadania, segundo o conferencista, faz parte de um padrão civilizatório que em si é problemático porque, nele, o homem quer ser o centro do Universo. Já a florestania “é um conjunto de relações que a gente descobre, percebe, não é um conjunto de conquistas”.

“Enquanto construímos a cidadania, nós destruímos o planeta”, disse espichando a comparação: “Já o sentimento da floresta pode ser expresso naturalmente, porque nós pertencemos à floresta, é uma questão de pertencimento”. Toinho defende que a leitura da natureza é fundamental para você tomar decisões. É preciso saber ler a natureza para entrar em acordo com ela.

O sabido e o jacaré “morto”

É difícil transformar essas coisas – a realidade que se quer valorizada no Acre e na Amazônia – em índices, argumentou Toinho com toda razão. Pois é aqui, como diria meu velho pai Chico Martins que viveu 45 anos num seringal do Iaco, “que a porca torce o rabo, se não for bicó”. Primeiro porque, depois de um século de trapalhadas das elites os seringueiros, ribeirinhos e índios desenvolveram um “desconfiômetro” difícil de desfazer. Quando o bacana da cidade chega para conversar com o “florestano”, como denominou o uruguaio Jorge Gudynas, outro palestrante, nosso herói da floresta coloca a mão no queixo e faz de conta que está concordando com o que ouve. Mal o visitante desaparece na curva do rio ou no acero da mata, porém, ele “disconcorda” de tudo!

Toinho lembrou a historinha do jacaré para ilustrar a sabedoria envergonhada do pessoal da floresta. Um caçador da cidade pegou com muita sorte, pela cabeça, um jacaré que dormia à beira de um lago, e como o bicho não se mexia, discutiu com um seringueiro insistindo que o animal estava morto. O seringueiro, como de costume, não ousou discordar, mesmo assim achou por bem adverti-lo: “Não solte ele não, doutor”!

Para contornar a dificuldade, Toinho recomenda ouvir as mulheres da floresta que representam um matriarcado poderoso. Quando as autoridades reúnem dentro da área com os homens, elas ficam ouvindo para depois que os visitantes saírem, dar o tom da dinâmica real da sociedade florestina. “Elas dão a sutileza na hora de decidir as coisas”, ensina Toinho chamando atenção para o fato de que o Acre todo funciona como um grande seringal.

Ou seja, é preciso pensar nas dimensões da sustentabilidade econômica e social, onde mora a cidadania; mas também nas dimensões política, ambiental e cultural onde mora a florestania, - para encontrar os elementos que podem ser transformados em objeto de planejamento para a Amazônia. Toinho indaga por que na construção de indicadores não se leva em conta a religião, a dependência química e outros fatores presentes na dinâmica da sociedade?

Esse descuido ou seja o que for, é rotina entre os institutos que produzem indicadores sobre o Acre e outras regiões da Amazônia, que só servem para atrapalhar o planejamento, a liberação de verbas e, sobretudo, alimentar a irresponsabilidade social de setores de imprensa que utilizam tais índices para depreciar as políticas novas e bem intencionadas como as que estão em curso no Acre.

A culpa pela produção desses indicadores tradicionais é de muita gente que acha que sabe tudo e se imagina escanchada no centro das coisas. Na verdade, como ensina o indivíduo não-governamental Antônio Alves Leitão Neto, se incluindo, “a gente usa uma régua torta para medir a linha torta que traçamos”.

Velho e sábio amigo

Ele é tão discreto e avesso a badalação que pode ficar zangado por eu publicar essa nota contrariando sua vontade. Mas não há como não fazer um registro da visita do matemático acreano José Henrique, professor aposentado da Universidade do Federal do Amazonas que continua dando aulas nos cursos de mestrado por insistência das instituições que não abrem mão de sua ciência.

Filho mais velho do ex-governador Geraldo Mesquita e irmão do senador Geraldinho, Zé Henrique veio para o aniversário da matriarca dona Ivinha. A família reuniu também as irmãs Ivone, Socorro e Adizia.

Zé Henrique passou a infância na rua Marechal Deodoro, nas proximidades de campo do Rio Branco. Saiu do Acre em 1957 e nos anos sessenta chegou a ser jubilado da Universidade de Brasília devido às suas posições políticas contrárias ao regime militar de 64. Mais tarde, já professor, engrossou a lista dos mestres afastados da função por força do AI-5. Muitos foram para o exílio no exterior, ele preferiu refugiar-se no Amazonas, onde escreveu sua dissertação de mestrado mostrando que a matemática tem tudo a ver com a organização das abelhas.

Na quinta-feira nós nos encontramos no jornal Página 20, onde o vice-governador Binho Marques compareceu para conhecê-lo. Na ocasião, Zé Henrique se dispôs a ajudar, com sua matemática apurada, a destrinçar a questão dos indicadores da florestania. Ele segue o pensamento europeu que começa por levantar os dados de determinada realidade e em cima desses dados constrói os indicadores. A outra corrente, americana, certamente adotada no Brasil, primeiro constrói os dados e depois enfia a “realidade” dentro.

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