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Rio Branco - Acre, terça-feira, 17 de junho de 2003

Naluh Gouveia

“Vou ter problemas com minha categoria, mas o Estado não pode conceder reajuste”

Leonildo Rosas

É impossível falar no movimento sindical acreano - em particular dos professores - sem citar a deputada estadual Naluh Gouveia (PT). Ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Acre (Sinteac), ela está no segundo mandato de deputada sempre encarnando de forma radical as reivindicações da categoria.

Professora e formada em Letras pela Universidade Federal do Acre, Naluh Gouveia dessa vez não está 100% ao lado da sua categoria. Na assembléia-geral de hoje, que deliberará pela paralisação ou não dos servidores em Educação, ela não fará coro àqueles que pedem um reajuste de 24,02%. “Não tem jeito. O Estado não tem dinheiro para bancar o aumento”, analisa.

Mesmo tendo uma posição que fere frontalmente a categoria de onde tira a maioria dos seus votos, Naluh declarou que vai estar hoje na assembléia dos servidores e registrará sua posição de forma aberta. “Serei vaiada e incompreendida. Mas falarei.”

Foi assim, de forma aberta e franca, que a deputada concedeu essa entrevista ao Página 20. Leia os principais trechos.

Deputada, a senhora é favorável ao reajuste pretendido pelo servidores em Educação?

Favorável eu sou. Mas temos que compreender que o governo do Estado não tem dinheiro para aumentar salários.

Como a senhora tem tanta certeza disso?

Fui autora da lei que aumentou os repasses do Estado para a educação de 25% para 30%. Acompanho o orçamento de perto. Sei que 48% do orçamento estadual é comprometido com o pagamento de pessoal.

Quanto ganha um professor com nível superior hoje?

Sem modéstia nenhuma, digo que temos um piso de R$ 1,2 mil graças à minha luta na Assembléia Legislativa. Essa conquista faço questão de contabilizar no meu currículo. Antes do Plano de Cargos, Carreira e Salários, a folha da Educação era de 6 milhões de reais. Hoje, é de 12 milhões.

Por que a senhora acredita que teve tanta importância na briga pelo piso?

Porque sempre achei que era injusto as outras categorias terem um piso de 1.200 reais, enquanto o nosso era de 800. Felizmente, com o apoio dos companheiros e do Sinteac, conseguimos a isonomia.

O piso é de R$ 1,2 mil, mas com quanto um professor se aposenta?

Essa é uma questão que podemos brigar. As outras categorias chegam à última letra recebendo 3.100 reais. Nós chegamos ao fim da carreira recebendo apenas 2.200. Essa distorção tem que ser corrigida.

A senhora não tem medo de ser tachada de pelega e serviçal do governo pelos seus companheiros de Educação?

Sei que terei problemas com a categoria. Sei também que serei vaiada por alguns, criticada e mal compreendida por outros. Mas não posso ser irresponsável de brigar por um reajuste que o Estado não pode bancar.

Mesmo tendo certeza de que será vaiada, a senhora participará da assembléia-geral da categoria hoje para deliberar sobre a greve?

Não só participarei, como exporei de forma clara tudo o que penso. Não posso temer a reação dos companheiros. Eu não sou deputada, estou deputada. Quando acabar meu mandato, voltarei para a sala de aula de cabeça erguida.

A senhora está parecendo o secretário de Finanças e Gestão Pública...

Não é isso. O problema é que tenho conhecimento de causa. Acompanho os números orçamentários do Estado desde que fui presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação.

Pela maneira como a senhora fala, parece que os servidores estão ganhando muito bem...

Não se trata disso. Todos os servidores passam por dificuldades. Defendo que os governos do Estado e federal criem um política de gatilho para proteger os salá-rios do achatamento. Não podemos continuar aceitando que não haja mecanismos para recompor as perdas.

O governo, ainda que indiretamente, acusa o Banco do Brasil de ser o culpado por os servidores não terem dinheiro. O que a senhora acha disso?

Há muito tempo venho batendo nessa tecla. Acredito que o ex-superintendente Paulo Frazão foi embora do Acre em razão de inúmeras cobranças que eu, o Jair Santos, que é meu marido, e o então presidente do Sinteac Cláudio Ezequiel fazíamos.

Então a senhora concorda com a posição do governo?

Concordo em parte. Era para isso ter sido feito há mais tempo. Critico o fato de ele ter se posicionado somente agora, quando os servidores decidiram entrar em greve. Por ganharem muito dinheiro, os dirigentes do Banco do Brasil são tão fidalgos que se recusam a receber contas de luz e água. O que é um absurdo.

De que maneira, então, os trabalhadores em Educação podem obter ganhos?

Por meio da qualificação profissional. Eu mesma entrei em contato com o professor Álvaro Sobralino, da Universidade Federal do Acre, para elaborarmos um projeto que possibilite a construção de um centro de educação continuada.

Como funcionaria esse centro?

Ele formaria os professores continuamente, oferecendo cursos de pós-graduação e outros que contribuam para a especialização.

E quem daria esses cursos?

Temos vários mestres e doutores na Universidade Federal do Acre. O governo poderia fazer convênio com a instituição nos moldes do que foi feito para formar 4.700 professores em nível superior.

Mas a senhora está preocupada apenas com quem tem nível superior...

Não. Defendo que os mais de mil professores da zona rural tenham acesso ao ensino superior por meio de cursos modulares, haja vista que eles não têm condições de estudar de forma regular. Também defendo a qualificação do pessoal administrativo, como merendeiras e serventes, porque elas também são, de forma indireta, educadoras. Por último, é preciso oferecer cursos de gestão aos diretores, pois eles trabalham com dinheiro na escola e não receberão orientação de como gerenciar esse dinheiro.

Deputada, em agosto haverá a eleição para a diretoria do Sinteac. A senhora acha que isso está por trás das reivindicações que estão sendo feitas?

Espero que não. Não podemos deixar que as eleições atrapalhem os avanços da nossa categoria. Agora, é inegável que sempre aparece alguém querendo se projetar. Temos que ficar espertos contra esse tipo de gente.

A senhora não desconfia que a equipe de governo está maquiando os números?

Não. Eu confio nas contas apresentadas. Confio na honestidade dos companheiros e sei que não há maquiagem nem desvio de recursos.

Entrevista Página 20
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