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Rio Branco - Acre, terça-feira, 17 de junho de 2003

Arroz e feijão no McDonald’s

Manuel Castro Lahóz *

A cada dia mais e mais livros, revistas, programas de TV mostram a importância de se estudar, se especializar sempre, mesmo depois de formado e já trabalhando, pois o mercado de trabalho exige cada vez maior flexibilidade e adaptação daquele que deseja trabalhar. Novas profissões surgem gerando poucos empregos, e não tão velhas profissões desaparecem acarretando muitos desempregos. Esta realidade veio para ficar, não pode ser mudada, e se constitui em um problema social gravíssimo. Contudo suas raízes não estão no avanço tecnológico, e sim na política sócio-econômica, pois é mais do que evidente que essa onda de mudanças afetou cada pessoa de uma forma diferente.

A pessoa com maior escolaridade dispõe de maiores conhecimentos, está mais preparada para exercer a cidadania e geralmente tem maiores rendimentos e menor risco de desemprego, maior facilidade para se reempregar, ou se virar por conta própria.

Foi muito rápido o avanço tecnológico, mas demorou (e persiste) muito tempo o descaso para com os seres humanos aos quais a oportunidade de estudar lhes foi negada. Continuam sendo tratados como números, estatísticas, coisas, e não como seres humanos. Falta solidariedade, humanidade, religiosidade, ética, e, sobretudo uso adequado da inteligência por aqueles que estão no poder. A meta não tem sido aumentar o número de pessoas escolarizadas, mas sim diminuir o número de hanalphabetuz.

Esse trabalho começa com a dolorosa obrigação de mostrar às pessoas desempregadas e a outras tantas ameaçadas de desemprego que suas profissões já não existem mais, ou, que vão existir por pouco tempo. Importante fazer isso de forma adequada a que as pessoas não se identifiquem com a profissão; a profissão é uma das suas capacidades, mas não a sua identidade. Elas poderão desenvolver outras atividades de trabalho.

É hora de ser criativo, pensar diferente, de “se” criar para o futuro aproveitando tudo que o passado nos deu de “presente”. Existem muitos erros para serem corrigidos, muita política para ser mudada, muita gente inocente que sempre esteve na indiferença do mundo para ser lembrada.

Hoje entendo quando Churchil disse algo como: “se cada um fizer apenas a sua parte não será suficiente”.

Um senhor que viveu a vida toda como “trabalhador rural”, “comendo” de marmita comida aquecida pelo sol, e nunca ganhou o suficiente para ter qualidade de vida, ao “ser aposentado” por já não “render” mais naquele trabalho se deparou com o desespero e a necessidade. Sua dignidade fez com que começasse a trabalhar como jardineiro na cidade, e por ser de confiança, trabalhar bem, ser limpo e educado, logo conseguiu uma clientela de primeira. Trabalha de segunda a sexta feira, às vezes de sábado, almoça nas casas onde trabalha, comida quente, e recebe entre outras “coisas”, quase três vezes mais do que sua aposentadoria.

“Por que antes eu nunca pensei nesse serviço?”, costuma se perguntar. Um dia me disse que já havia pensado em “ser” jardineiro, pois adora plantas, mas tinha vergonha desse trabalho.

Para terminar, se os responsáveis pelo Mc Donald’s tivessem feito uma pesquisa no Brasil talvez tivessem lançado arroz, feijão e ovo frito na forma de “fast-food”, e não pão com gergelim, hambúrguer, pepino e cat-chup.

Que tipo de pesquisa os nossos governantes fazem quando escolhem o conteúdo escolar e quando pensam nessa população “desplugada” informaticamente e esquecida socialmente?

* Médico psicoterapeuta

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