© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, quinta-feira, 19 de junho de 2003
Sinal de queda

O movimento de ontem do Banco Central foi apenas um sinal dado à economia e não exatamente uma queda de juros. O meio ponto a menos representa, na prática, a manutenção dos juros reais. Como a inflação tem caído, o que vinha acontecendo era elevação das taxas reais de juros. O sinal serve como uma informação de que a crise aguda foi superada e agora o país começa a voltar à normalidade.

O fato de não usar o viés faz sentido do ponto de vista técnico. Viés de baixa não quer dizer que, na próxima reunião, os juros vão cair, como muita gente imagina. Significa que o Copom está aguardando uma decisão, um número, uma evolução qualquer da conjuntura — no espaço entre uma e outra reunião — que altere o quadro possibilitando o uso do viés, ou seja, uma mudança nas taxas decidida pelo presidente do Banco Central. Mas não há qualquer expectativa em torno de uma mudança no quadro a curto prazo, portanto, um viés não se justificaria.

O que sim poderia ter acontecido é um movimento mais forte de queda nas taxas.

A inflação tem caído bastante em todos os índices, como temos mostrado aqui na coluna. Esses índices estão convergindo para a meta. Os índices gerais, que têm inflação por atacado em sua composição, estão em deflação, como mostrou a segunda prévia do IGP-M, que ficou em 0,66% negativo. O argumentos de economistas que preferiam até que o Banco Central sequer reduzisse os juros é o de que a inflação prevista para o ano ainda está longe da meta de 8,5%. Isso é verdade, a previsão ainda é que a inflação termine o ano em dois dígitos. A questão é que a inflação de 2003 carregará parte do surto inflacionário que inflou os números mensais do começo do ano, ou seja, carregará o peso da crise já vencida. O que precisa ser discutido é o que é mais importante: um número gregoriano ou uma tendência. Porque a previsão para os próximos doze meses está em 7,7%, mostrando que a economia caminha para a meta mesmo que não a atinja em dezembro.

O que o Banco Central argumenta é que, se os juros não estiverem altos neste momento, pode haver incentivo a repasses de aumento de custos para os preços finais e isso fará com que a previsão de inflação de 7,7% jamais se concretize. Este risco é menor do que se imagina, porque a demanda está tão fraca que o consumidor não vai convalidar qualquer aumento de preços. Quem elevar os preços simplesmente não vai vender.

Foi por isso que o ministro Antonio Palocci insistiu ontem, em Assunção, que os empresários precisam olhar para frente, para a inflação prevista para os próximos meses e não para a inflação decorrida. Se assim fizerem, estará quebrado o risco o inércia e, então, os juros podem cair mais.

O Banco Central foi muito econômico na queda dos juros. A diminuição forte da inflação nos últimos meses permitiria uma queda maior, na opinião de alguns economistas.

— Esperava uma queda mais forte agora porque a inflação está em forte trajetória de queda e continuará caindo. Na próxima semana, por exemplo, deve sair o IPCA-15 e estamos esperando 0,42%. Estamos aguardando um IPCA cheio de junho abaixo dos 0,30%. Como além disso o nível de atividade está muito baixo, hoje mesmo saiu o número de queda de 8,5% das vendas do comércio paulista, é o momento certo para queda mais forte — disse Marcelo Sperb, do Nobel Asset Management. Ele acha que os juros devem chegar ao fim do ano em 19%, o que significa novas quedas nos meses seguintes.

— Uma conta simples mostra que os juros reais foram mantidos. No mês passado, para a Selic de 26,5%, o IPCA esperado nos próximos 12 meses era de 8,30%, o que significa que o juro real estava em 16,81%. Agora, com o IPCA esperado em 7,76%, uma Selic de 26% representa um juro real de 16,93%. No fim das contas, a queda foi para manter os juros reais — disse o economista Guilherme Nóbrega, do Banco Fibra.

Odair Abate, do Lloyds TSB, acha que as críticas que estão sendo feitas à decisão do Copom por alguns analistas do mercado são infundadas.

— A alteração de 0,5 ponto percentual tem um caráter apenas potencial; a taxa se manteve alta. A decisão não tem dose de re-estímulo, nem tira a credibilidade do BC. Estávamos há 11 meses sem queda, desde julho de 2002, quando caiu de 18,5% para 18%, por isso que se fala tanto no assunto. Seria purismo demais não alterar a Selic. Agora, se tudo continuar correndo bem, acredito que começaremos a chegar mais perto da taxa real neutra que é entre 9% e 10% — afirmou Odair Abate.

Na próxima quinta-feira, o Conselho Monetário se reúne para decidir a meta de inflação para 2005. Há uma expectativa no mercado de que se faça algum ajuste na meta de 2004. Hoje, ela é de 3,5% e a meta ajustada é de 5,5%. Uma mudança neste número poderia acomodar uma queda maior das taxas de juros, sem pôr em risco a política de combate à inflação, na opinião de Sperb. De qualquer maneira, há uma expectativa porque a meta de 2005 é a primeira que será decidida pelo governo PT.

O PRIMEIRO balanço do ano da siderúrgica Acesita mostrou que as exportações cresceram 205,4% em volume. A receita líquida do período com as vendas externas foi de R$ 208,5 milhões.

OUTRO BOM resultado: o faturamento do Grupo Bradesco de Seguros, nos primeiros quatro meses deste ano, foi de R$ 2,75 bilhões em seguros de vida, automóvel, saúde e DPVAT. O valor representa 24,6% do mercado e é 49,64% maior que o registrado no primeiro quadrimestre de 2002.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão com Débora Thomé
Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Estilo
Especial
Esporte 
Opinião
Política
Via Pública
Principal