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Rio Branco - Acre, terça-feira, 17 de junho de 2003

“O Acre é vitrine porque
conquistou credibilidade”

Altino Machado

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Soares Dulci, esteve ontem na Escola Estadual Armando Nogueira para conduzir o Fórum de Participação Social, destinado a preparar o Plano Brasil de Todos (Plano Plurianual-PPA), que vai definir as prioridades para o país nos próximos quatro anos.

Mineiro, 47, desde 74 ele é professor de portu-guês, fala italiano e francês e estudou grego e latim. Trabalhou com educação de adultos em várias instituições e foi militante do movimento sindical dos professores e trabalhadores na educação, no Rio e em Minas.

Luiz Dulci é considerado um dos ministros mais fortes do Planalto. A escolha dele foi uma decisão pessoal do amigo presidente Lula, que conheceu um ano antes do nascimento do PT, em 1980.

O ministro é um admirador da competência com que o governador Jorge Viana e a equipe transitam nos salões do poder em Brasília.

Ele disse que o governo do Acre, sempre que procura o governo federal, não tem apenas reclamações e apresenta projetos práticos. “Sempre que recebemos o governador ou qualquer um de seus secretários, temos propostas práticas que o governo federal pode analisar e dar respostas imediatas”, afirma.

Luiz Dulci entende que o Acre já é uma vitrine do modo petista de governar.

“O governo não é feito para que o Acre seja vitrine, mas a qualidade do trabalho é tanta que ele acaba se tornando exemplo daquilo que hoje é reconhecido no Brasil”.

Leia a íntegra da entrevista exclusiva que Luiz Dulci concedeu ontem ao Página 20, antes de almoçar com o governador Jorge Viana e um seleto grupo de convidados.

Existe uma enorme expectativa popular de que a confluência petista no poder vai mudar o Acre. Isso é verdade?

Acho que vai melhorar muito porque, a partir de agora, existe mesmo um objetivo comum. A orientação que o presidente deu para o conjunto dos ministros é essa.

Qual é essa orientação?

A orientação é trabalhar junto com os Estados e apoiar, sobretudo, os Estados que têm projetos de desenvolvimento, que têm propostas concretas.

O governo federal enxerga no Acre um Estado com projeto de desenvolvimento?

Isso é reconhecido pela imprensa no país. Não é só uma opinião do governo federal porque o governador do Acre é do mesmo partido do presidente da República. Existe a opinião formada nos observadores e nos estudiosos de que o Acre é um dos estados brasileiros que tem um projeto de desenvolvimento global para o conjunto do Estado, que é de progresso técnico, de crescimento econômico, mas preservando a natureza. O governo do Acre, sempre que procura o governo federal, apresenta projetos práticos. Não tem apenas reclamações. Sempre que recebemos o governador ou qualquer um de seus secretários, temos propostas práticas que o governo federal pode analisar e dar respostas imediatas. Isso facilita muito em nossa relação.

É por isso que o senhor disse que o Acre se firmou como referência para a política de sustentabilidade do governo federal?

Sem dúvida. Todos os projetos que conheço do governo do Acre, em diversas áreas, ele inclui a questão da sustentabilidade ambiental e social. Às vezes o projeto é de crédito para pequenas e médias empresas, mas nele já está incluída a preocupação ambiental. Essa é uma nova orientação do governo Lula. Nós queremos apoiar a pequena e média empresa, contar com crédito mais barato e gerar empregos, mas em todos os projetos precisa ser considerada a dimensão ambiental.

Como o senhor analisa o desenvolvimento das regiões brasileiras como parte de uma estratégia de desenvolvimento do país?

É impossível ter um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional que não parta dos estados e das regiões. O Brasil é muito diversificado, tanto do ponto de geográfico quanto da formação populacional. O clima e a maneira de usar a língua portuguesa também são muito variados. A estrutura produtiva também é muito diferente de um lugar para outro. Então o modelo de desenvolvimento tem que considerar isso. Se a gente aplicar o modelo de desenvolvimento de São Paulo para a Amazônia, a região jamais será sustentável. Agora também não se pode conservar a Amazônia intacta como se fosse um santuário, sem garantir possibilidade de progresso técnico e de desenvolvimento industrial. Mas isso tem que ocorrer dentro de um modelo compatível com as características da Amazônia. A mesma coisa vale para a reforma agrária. A reforma agrária que se faz no Nordeste, por exemplo, não serve para a Amazônia. Até o calendário agrícola na Amazônia é diferente e por isso não se pode ter um calendário único para o país.

De que maneira uma região tão remota como o Acre pode contribuir para a construção desse projeto nacional de desenvolvimento?

Ao contrário do que muitos governos consideravam, o presidente Lula entende que a Amazônia não é um problema, mas um trunfo para o país. O desenvolvimento do Brasil no século XXI passa muito pela a Amazônia, mas para isso o país inteiro tem que investir na Amazônia, em parceria com os governos e suas populações. Só com os capitais disponíveis na Amazônia o ritmo de crescimento da região não será suficiente para recuperar as perdas de décadas passadas. Então o governo federal tem que somar esforços e investir aqui até mesmo para que o Brasil possa afirmar a sua soberania sobre essa região. Do ponto de vista jurídico, a soberania do Brasil em relação à Amazônia é tranqüilo, mas quanto mais desenvolvida do ponto de vista social e econômico, maior será a soberania do país sobre a Amazônia.

O senhor é um militante antigo do PT. O que o governo deve fazer para atrair capital e a participação do movimento social?

A participação social é chave no novo modelo de desenvolvimento que nós queremos para o país. Para o Brasil superar a estagnação econômica e os desafios sociais é preciso somar forças. Tem que somar com todos os partidos que queiram que o país volte a crescer e se desenvolva. Da mesma forma em termos econômicos. Não pode ser apenas os trabalhadores ou os assalariados, que são a base clássica do PT. Nós queremos somar também com os empresários produtivos, a pequena, a média empresa brasileira, com aqueles que querem priorizar a produção e não a especulação. Os desafios são grandes. A crise social do Brasil é profunda. Temos que somar forças. Não queremos trabalhar com idéia de que o PT ganhou as eleições e vai fazer as mudanças sozinho. Queremos fazer a maior aliança possível, dando uma base de sustentação para as mudanças.

De sua parte, como o governo federal pode contribuir?

O governo federal pode contribuir muito com a Amazônia, de modo geral, especialmente com o Acre. Os estados da Amazônia e o Acre, em particular, também podem contribuir com o esforço nacional.

O senhor não acha que está sendo criado aqui um excesso de expectativa? Mesmo com a presença de Lula na presidência e de acreanos no primeiro escalão, certos problemas não poderão ser resolvidos.

O que eu percebi nas entidades, na sociedade, nas lideranças empresariais e sindicais, é muito senso do concreto. Há muita percepção de todos de que o Brasil e o Acre não vão resolver de um dia para o outro, de forma milagrosa, os seus problemas. Mas existe a percepção de que é possível identificar prioridades e, por etapas, ir resolvendo os problemas fundamentais. Nesse sentido, o Acre pode esperar muito da atuação do governo federal porque, ao contrário de outros estados do país, o estado tem uma base. É muito organizado do ponto de vista administrativo, tem uma máquina administrativa moderna, não tem determinados problemas de infra-estrutura que outros estados da região tem.

O Acre vai ser tratado como a vitrine do PT no Brasil?

Ele em certo sentido já é. Se não fosse assim, o governador Jorge Viana não teria sido reeleito com 75% dos votos enfrentando uma oligarquia poderosa. O governo não é feito para que o Acre seja vitrine, mas a qualidade do trabalho é tanta que ele acaba se tornando exemplo daquilo que hoje é reconhecido no Brasil. As prefeituras e estados administrados pelo PT são bons, honestos, usam bem o dinheiro público, dialogam com a comunidade. Mas o nosso objetivo não é ter vitrine, não. Mas queremos mostrar que um estado brasileiro carente de recursos, havendo projeto político, havendo vontade, com a sociedade sendo chamada a participar, não havendo corrupção e desperdício, é um estado viável. O Acre demonstrou nos últimos quatro anos que é um estado viável. Isso faz com que o governador Jorge Viana chegue em qualquer órgão de imprensa, em qualquer banco privado ou público, em qualquer agência internacional de cooperação e encontre apoio. Ele tem muita credibilidade e isso é vital. O exemplo da Pirelli é típico: decorre da qualidade do trabalho realizado em quatro anos. O Acre conquistou credibilidade.

Por anda passa o senhor costuma se reunir com petistas. O que o senhor vai dizer hoje [ontem] aos petistas do Acre?

Fui vice-presidente nacional do partido, secretário-geral. Em todos os estados que vou procuro dialogar com os petistas. Primeiro quero ouvir as questões que o PT tem a colocar para nós. Também vou dar explicações sobre a estratégia do governo federal, nosso projeto de quatro anos, a análise que temos desse momento da vida brasileira, o êxito que obtivemos na recuperação da credibilidade econômica, a nova agenda que passa pela retomada do crescimento sustentado, como gerar emprego, distribuir renda e fazer a inclusão social. Mas vou falar com os companheiros principalmente sobre o papel criativo que o PT do Acre pode ter no processo do PT nacional.

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