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Rio Branco - Acre, sábado, 21 de junho de 2003
“É coisa nossa!”

José Cláudio Mota Porfiro *

É preciso a crítica apurada. Nestes confins do Acre, o poder público falha clamorosamente, peca desmesuradamente. Porém, segundo observo, as pessoas têm mais culpa por preferirem viver em meio à sujeira e à desorganização... Mas tudo isso é coisa muito nossa... Ou de alguns dos nossos...

Próximo às seis da manhã, de terça a sexta, inicio caminhada célere que me leva à Academia Forma Física, de musculação, em frente ao Colégio Dom Pedro II. De casa, no Residencial Petrópolis, são trinta e cinco minutos de um percurso cheio de surpresas e coisas muito próprias dessa gente do meu Acre.

Subo correndo a ladeira do Posto Santo Antônio e, lá em cima, já em frente ao Conjunto Tangará, começa o drama de um logradouro público cuja maioria dos moradores joga tudo o que pode no meio da rua, nas pouquíssimas calçadas, nas bocas dos bueiros sempre sem tampa, nos terrenos vazios, sem a mínima desfaçatez. São sacolas plásticas, frascos usados, restos de alimento, entulhos de construção, animais mortos, dentre outros.

E tem mais... Há aqueles que deixam suas águas usadas e doentias jorrarem pelas vias íngremes e irem direto para a rua Isaura Parente ou avenida Nações Unidas, onde rebentam o asfalto, como está acontecendo novamente em frente à cervejaria do José Pessoa.

E isto não ocorre somente no Tangará. Mais à frente, a bagunça é talvez ainda maior, o lixo se avoluma e só melhora ali pelas proximidades do Detran, onde existe uma senhora a ganhar o pão vendendo uns bribotes em cuja composição química entra poeira em alta porcentagem.

Mas, além da sujeira e dos péssimos hábitos, a minha viagem matinal registra ainda outros fatos pitorescos, como o grande número de bicicletas que circula já àquela hora com operários da construção civil em busca dos seus pontos de trabalho. Há uma senhora que às seis e dez já é esperada por dezenas de pessoas, para quem vende leite “in natura”, em frente à loja Espaço Fino. Há sempre meia dúzia de bêbados escorados na tela da quadra de esportes e mais meia dúzia num boteco sujo vizinho à Emater. Os do boteco, à minha passagem, dizem “bom dia!” É que eles ainda estão sóbrios demais e mal começaram a faina diária em busca de cirrose. Os da quadra, mais jovens, beberam a noite toda e já não conseguem dizer coisa com coisa. Por aquelas bandas, àquelas horas, há sempre algumas transeuntes, damas da noite, que já buscam o refestelo dos seus lares, ainda muito pintadas, roupas extravagantes e cheirando a “contourè”.

Sigo adiante, a passos largos. Alcanço duas moçoilas com uniforme do Colégio Meta. Um pouco adiante, desejo bom dia ao companheiro Gutembergue de Melo Moura que, diligentemente, já espera o ônibus da Embrapa que o levará ao serviço.

Em frente ao 7o BEC, há a guarda composta por uns rapazes de dezoito ou vinte anos, no portão. Porém, mais curioso ainda, é que há dias em que dois deles ficam quase no meio da rua, quase a me impedir a passagem, portando cada um a sua “metranca” lustrosa. Dá medo! E eu não vejo enquanto necessário este cuidado todo... Enfim, são coisas que nem eu mesmo aprendi na caserna.

Do estabelecimento do Pedro Radiadores jorra diuturnamente uma água venenosa que passa em frente à FIRB e deságua em mais um bueiro entupido.

Quem teria coragem de olhar por tudo isso? Qual é o setor da prefeitura municipal responsável pela fiscalização desses ilícitos. Quem tem menos preguiça? Nem os aturdidos da PMRB sabem...

E lá vai este observador atônito e boquiaberto ante tanta coisa tão esdrúxula e tão comum a este meu “tão Acre”, como diria o cronista morto há tanto.

* claudiogibiri@hotmail.com

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