
A festa do buñe
João Sales Tene Kaxinawá
O homem faz roçado grande para plantar a banana. Planta dois mil filhos de banana. Quando as bananas botam cachos, o homem combina com a mulher para fazer a festa. Quando a banana “está de vez”, o homem vai avisar os outros homens do outro lado da aldeia e as mulheres também para que venham ajudar a tirar a banana. No dia de domingo, eles vêm todos para a aldeia e o homem já está esperando. No outro dia eles, vão colher as bananas e passam o dia todinho tirando, carregando e cantando. Então, o chefe convida os outros homens para irem caçar na cabeceira do rio Jordão. Gastam seis dias de subida, três dias de caçada e dois dias de baixada. Quando eles chegam em casa, no outro dia, começa a festa. Seis horas da manhã o chefe manda a rapaziada derrubar a banana do pendurado. As mulhereradas ajuntando, os outros velhos cantando. Depois que terminam de derrubar a banana, vão arrancar o amendoim. A moçada debulha amendoim e as velhas cozinham as bananas para fazer caiçuma misturada com amendoim. Depois de aprontarem todas as comidas, começam a cantar e a dançar. Comem carne de macaco e carne de veado, bebem caiçuma de banana, fazem isso a noite toda. Até antes que o dia amanheça, o pessoal já comeu a comida todinha e bebeu caiçuma também todinha. Então, o chefe da outra aldeia marca o dia para irem ajudar a turma dele preparar outra festa do mariri da banana.
(Estórias de hoje e Antigamente, 1984)
A história do cipó
Osair Sales Siã Kaxinawá
O cipó é a ciência da religião da natureza do mundo. Porque, no mundo, existem todas as coisa para a gente ver. Quando nós queremos tomar cipó, não é de brincadeira. Nós tomamos cipó para ver coisas sérias. Quando, nós indíos queremos preparar cipó, vamos no mato procurar cipó e folha. A folha a gente chama kawa e o cipó a gente chama nixi pae. Quando achamos o cipó, a gente corta cada pedacinho com quatro palmos. Depois que acabamos de cortar, trazemos o cipó junto com a folha. Ao chegar em casa, a gente deixa pra preparar no outro dia, porque já é tarde e não dá tempo de preparar. No outro dia, bem de manhãzinha, a gente já vai preparar: bate o cipó com pedaço de pau. Quando termina de bater, bota na panela com as folhas. Então, bota a panela no fogo para ferver o dia inteiro. Quem prepara, fica cuidando bem pertinho do fogo e, assim, não derrama, porque se derramar, a pressão vai embora todinha. É por isso que a gente fica cuidando. Às quatro horas, a gente tira do fogo para esfriar. Às sete horas da noite, nós tomamos com nossos companheiros. Quem gosta de tomar. Tomamos e ficamos deitados na rede, até a pressão chegar no corpo da gente, então, nós cantamos. Cada um toma o tanto que quer. Vai a noite inteira mirando, na pressão do cipó. O cipó ensina muitas coisas para a gente. Depois nós fazemos dieta: não comemos jabuti, nem macaco, nem comemos conservas, nem carne de boi, porque a gente fica doido. Nós não podemos nem namorar. É assim que a gente faz dieta para tomar cipó.
(Estórias de Hoje e Antigamente, 1984)
Textos e ilustrações extraídos do livro Índios no Acre Organização e História publicação da Comissão Pró-Indio e OPIAC