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Rio Branco - Acre, domingo, 22 de junho de 2003

Na terra do peixe, moradores comem carne

Pescado nobre de Boca do Acre é exportado para Rio Branco, que oferece mercado mais atraente

Tatiana Campos

Pode parecer história de pescador, mas os moradores do município amazonense de Boca do Acre, distante 210 quilômetros da capital acreana, ainda não se conformaram com o fato de ter comprado peixe acreano, de açude, durante a Semana Santa. Tambaquis, filhotes, dourados e outras espécies nobres são consumidas apenas por pessoas de maior poder aquisitivo. É que a grande parte do pescado viaja no mínimo três dias nas geleiras até chegar aos frigoríficos de Rio Branco, onde o produto tem mercado e preço atraentes. Os moradores do local, a maioria de baixa de renda, alimentam-se de carne ou de curimatãs e maparás, pescados no “Lago dos Pobres”.

A história, apesar de estranha, não é difícil de entender. Há uma lei municipal que obriga os pescadores a deixar 20% de todo o pescado no mercado. Cada quilo de peixe, cuja carne é considerada nobre, é tabelado a R$ 2,5. Para o consumidor o preço é R$ 3,5. Os donos dos frigoríficos pagam mais alto, o mesmo peixe custa entre R$ 5 e R$ 6.

“Fora do mercado o preço é mais alto. Aqui dentro ele é estipulado pela prefeitura e há fiscalização. Para nós vem pouco peixe, quase nada, não dá para quem quer e não dura mais de uma hora no tabuleiro. Os pescadores preferem burlar a lei e vender lá fora, poucos cumprem a determinação. Os peixes bons são comprados na beira do rio pelos frigoríficos e levados para Rio Branco. De fevereiro até o início de junho, a gente calcula que foram 60 toneladas”, explica o comerciante João Tavares, que há quinze anos trabalha no mercado municipal.

João conta que a população de baixa renda recorre à carne, que virou um meio de alimentação relativamente barato, comparado ao preço do peixe no local. O quilo do filé, o tipo mais caro, não é vendido por mais de R$ 5. O município tornou-se o maior criador de gado do Amazonas, com cerca de 400 mil cabeças nos pastos.

“Há vinte anos se alguém quisesse comer carne tinha que esperar na fila e não havia espaço nos tabuleiros do mercado nem para uma piaba. Hoje é o contrário”, compara o pescador Idelfonso.

Falta de fiscalização prejudica pescadores profissionais

Jorge Nunes, pescador profissional, reclama a falta de fiscalização do Ibama e alega que a concorrência dos pescadores sem licença atrapalha a pesca e a venda dos que pagam pela carteira de pescador junto ao órgão.

“Os melhores fiscais somos nós, mas, sabemos que quem pesca aqui precisa do dinheiro que ganha com a venda das cambadas. Todos vivemos na mesma situação financeira difícil. Não vamos dizer a um pai de família que não pode pescar. Não tem mais seringa, borracha, castanha para dar lucro. O problema é que quem paga a licença somos nós”, ressalta.

O lago dos pobres

Idelfonso comenta que o peixe da região está escasso e os donos das geleiras vão buscar o pescado em Lábrea, município distante três dias de barco de Boca do Acre. Boa parte dos pescadores limitou-se a pescar apenas no Lago Novo, conhecido por todos como “Pai dos Pobres”.

“Hoje não pesco tanto quanto pescava antes. Amanheço o dia no ‘Pai dos Pobres’ para pescar o peixe do almoço e o que eu vou vender em cambadas (cerca de 10 curimatãs ou piabas amarradas num cordão). Por dia faturo uns 10 reais, é o que sustenta a família”, comenta o pescador.

Assim como Idelfonso muitos pescadores ganham a vida e sustentam suas famílias pescando no Lago Novo, que ganhou o apelido paternal por alimentar a população de baixa renda e servir como fonte de renda. O lago era uma volta que o rio Purus fazia, mas a natureza fechou sua passagem e o local é uma fonte rica de peixes, entre eles pirarucu e boto rosa, um predador não muito querido pelos pescadores por atrapalhar a pesca. Os maiores cardumes são de piaba, curimatã e mapará.

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