
Beneficiamento de frutas de forma sustentável
Cooperativa no município de Boca do Acre investe em tecnologia para exportar sem destruir a floresta
Tatiana Campos
A iniciativa da Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus – Pauini – Amazonas – Brasil (Cooperar), no município de Boca do Acre, pode ser considerada uma experiência sustentável de desenvolvimento econômico. A Cooperar trabalha com beneficiamento de óleos e desidratação de frutas e verduras, compradas dos ribeirinhos. Tem 21 associados e está investindo em tecnologia para trabalhar com os produtos da floresta, sem destruí-la e pretende exportar toda a produção.
A cooperativa foi uma alternativa encontrada para gerar renda aos membros da comunidade daimista Céu do Mapiá, mas está aberta a qualquer pessoa que deseje associar-se.
O diretor Jaime Rogério Passos Sas, 46, conta que começou do zero, sem ter os conhecimentos necessários e hoje se orgulha do trabalho realizado em equipe.
“Fiz uma pesquisa sobre o assunto. Fui no IDAN, (Instituto de desenvolvimento da Amazônia). Eles ficaram bastante interessados e uma pessoa especializada me deu todas as instruções do que eu precisava para começar”, comenta.
ÔRGANICOS -A Cooperar trabalha com o beneficiamento de todas as frutas, verduras e legumes da região. Compra a produção dos ribeirinhos e incentiva o extrativismo e o plantio. Banana, mamão, abacaxi, graviola, cupuaçu, graviola, couve, pepino, gerimum, tudo é desidratado nos fornos adquiridos com as economias dos cooperados. O processo de desidratação é lento e pode levar até quatro dias, o que explica em parte o preço alto dos produtos.
Mas, segundo Jaime, os produtos desidratados têm suas vantagens. “São fáceis de transportar, não estragam, são saudáveis, não tem conservantes ou aditivos químicos e são 100% naturais”, observa.
Para implementar a cooperativa, Jaime buscou ajuda e tecnologia de fora, na Universidade Federal de Viçosa. “Eles estão nos dando apoio técnico e devemos fazer um acordo para que os alunos venham treinar na nossa fábrica”, ressalta.
Cooperar compra produtos dos ribeirinhos
A meta é exportar, mas, por enquanto os cooperados estão estocando a produção, resolvendo os problemas burocráticos e procurando fontes de empréstimos. “Nós vimos que o produto tem uma boa aceitação no mercado e queremos investir no negócio. As vezes chegava um ribeirinho com a canoa lotada de frutas e voltava com o carregamento. Nós estamos absorvendo boa parte de toda a produção. É uma forma de incentivo ao trabalho deles e de mostrar que podemos usar a floresta de forma inteligente, sem tirar as populações que vivem nela e sem destruí-la”, enfatiza.
Jaime comenta que mandou amostras dos óleos para a Natura, na tentativa de conseguir um contrato com a fábrica. “Perdemos as safras de andiroba, castanha, cacau por falta de capital de giro, precisamos achar os compradores para poder dar continuidade ao negócio”, explica.
Geração de renda à população da floresta
Outra vantagem da cooperativa para a região
é a geração de empregos. “A nossa área é
carente de mão de obra. Todos os dias chegam várias pessoas
procurando emprego. Montar um negócio como esse é uma ótima
saída, gera empregos para quem não tem e renda para quem produz.
Compramos toda a produção de frutas e verduras dos ribeirinhos.
Estamos movimentando a economia local de forma sustentável e viável”,
acrescenta Jaime Passos.
Ele explica que a Cooperar ainda está em fase experimental, e toda
a produção está sendo estocada até que a cooperativa
seja totalmente legalizada.
Para o diretor da cooperativa, o negócio está beneficiando diretamente
as comunidades florestais. “Nós incentivamos os ribeirinhos a
continuar plantando, a colher andiroba, a plantar o gergelim na praia, a colher
castanha. Também queremos trabalhar com extrativistas, não maltratamos
a natureza, só colhemos sementes que caem. Temos o cuidado de deixar
uma parte do que colhemos para os animais se alimentarem”, diz.
A preocupação com manejo e sustentabilidade está presente na Cooperar, como ressalta Jaime: “Essa é uma iniciativa para gerar renda na floresta, sem causar prejuízos ou danos e acredito que pode ser um exemplo. A pessoa que mora na floresta não precisa abandonar sua casa e vir morar na cidade. Ela pode sobreviver colhendo castanha, tirando andiroba, plantando banana na costa da praia”.