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Rio Branco - Acre, domingo, 22 de junho de 2003

João Donato

Gênio musical promete rapsódia para
homenagear a terra acreana

Tião Maia

O músico João Donato se apresenta hoje, na concha acústica “Jorge Nazaré”, no Parque da Maternidade, em Rio Branco. Provavelmente, não será apenas mais um show na vida de um artista que desde os anos 50 freqüenta os mais importantes palcos do mundo e que ao longo de uma história de parcerias fantásticas esteve lado a lado com os principais nomes da musica internacional.

De volta ao Acre 20 depois de ter estado aqui com o projeto Pixiguinha, este acreano que viveu parte de sua infância admirando o aparentemente preguiçoso rio Acre volta ao Estado com uma missão a mais do que cantar e esgrimar seus instrumentos. O homem que queria seguir os passos do pai, também João Donato, que foi o primeiro acreano a obter um brevê de piloto, foi reprovado na aviação por ser daltônico. Mas se a aviação perdeu um combatente, a música, inclusive em nível internacional, ganhou um criador, um poeta do som, um mestre do arranjo. De volta a terra em que nasceu, o próprio se define como um homem que vem encontrar-se com seu povo, mergulhar em suas raízes, revisitar seu interior. Esse encontro pode gerar uma música, uma rapsódia acreana, segundo o próprio João Donato revelou logo após se apresentar em Cruzeiro do Sul, no Teatro dos Náuas, ao lado do filho Joãozinho Donato, de 18 anos, quando falou ao Página 20. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que significa para você cantar no Acre depois de 20 anos sem vir aqui? O que passou por sua cabeça naquele instante em que o show começa e você vai cantando e falando de sua música e de suas origens? Que imagens são essas?

Muitas lembranças, muita emoção. Vêm-me à cabeça as lembranças da minha infância. Aqui em Cruzeiro do Sul, fui andar, olhar as esquinas me lembrando do tempo em que vim aqui, com o meu pai, há mais de 50 anos atrás. Então é uma emoção muito grande poder viver todas essas recordações. São emoções que tive não só em Cruzeiro do Sul mas também em Rio Branco, que é o lugar onde eu nasci. Emociona-me ver as mudanças desses lugares.

Em Rio Branco, que foi a cidade acreana com a qual você teve mais contato, quais foram às mudanças que mais o impressionaram?

Mudanças, como, por exemplo, do lugar, da casa onde eu nasci, que virou um cinema e agora me contaram que é uma igreja de crente. Diante da sede da Prefeitura, que era a cadeia, me pus a lembrar do incidente com a Rosalina, que foi assassinada por um maluco que era apaixonado por ela...

Você conhece essa história?

Eu ouvi os gritos dela [Rosalina da Silveira Brito, professora, foi assassinada em Rio Branco, na década de 40, numa tragédia que envolveu um carcereiro e um presidiário que se apaixonara por ela. O preso enviava cartas que julgava serem recebidas e respondidas pela professora. As respostas, com juras de amor, eram do carcereiro, que interceptava a correspondência e, com brincadeiras de mau gosto, passava-se por Rosalina. Um dia, ao terminar o “namoro”, Rosalina atraiu a fúria do preso. Ao passar pela calçada da sede da cadeia, onde hoje é o prédio da Prefeitura Municipal, na qual o preso trabalhava como jardineiro, recebeu mais de uma dezena de facadas]. Eu era criança mas eu me lembro da gritaria dela nas mãos do assassino. Mas a mudança que eu mais senti foi à falta das catraias que atravessavam a gente de graça, os chamados jabutis. As duas pontes sobre o rio são lindas, mas não me sai da memória aqueles barquinhos indo e vindo, carregados de gente. Enfim, vir ao Acre me faz voltar lembranças que, no meu caso, graças a Deus, são as lembranças mais doces que eu tenho – as lembranças do meu tempo de criança no Acre.

Mas o menino do Acre se tornou um grande artista, até de renome internacional, um cidadão do mundo. Por isso mesmo é interessante voltar e mergulhar em suas origens?

Eu acho fundamental. Tanto é que, a convite do governador Jorge Viana, a gente vai visitar uma aldeia de índios que vivem numa área bastante longe, quase totalmente isolados, já perto da fronteira com o Peru. Tenho que fazer essa viagem.

Você é um homem que se atém muito às lembranças de sua infância, inclusive na inspiração de algumas músicas. A tragédia da Rosalina não o inspirou, não o tocou para criar alguma coisa?

Não, a tragédia não me inspira. Acho que nem a mim nem a ninguém. Eu preciso de uma motivação mais doce, mais feliz para fazer alguma coisa. Eu só faço música quando eu me lembro de uma coisa boa, como é o caso da canoa que ia descendo o rio Acre com um cara assobiando [assovia algumas notas de uma canção triste, lenta...]. Quando lembro disso vou ficando mais macio, mais amoroso, mais nostálgico, sentimental – e tudo por causa dessa musiquinha do cara da canoa.

O cara da canoa não vai vir um dia cobrar direito autoral? Há quantos anos faz isso?

Eu adaptei essa musica mas na verdade ela é de autoria do Acre, de alguém do Acre que passou numa canoa há 50 anos...

Qual é mesmo a música?

“Lugar Comum”, cuja letra é do Gilberto Gil. Eu não botava letra nas minhas músicas, mas um dia, falando para o Gil desse negócio da canoa, ele ficou tão emocionado que disse: vou fazer uma letra para ti. E eu fiquei lá, com ele escrevendo. Ele diz por aí que eu dormir no sofá enquanto ele escrevia...

Tavez tenha sido aquela música da canoa que o tenha feito descobrir-se musico? Você queria ser piloto, como seu pai, não era?

É possível que sim. Essa foi a grande contribuição do Acre à minha música. Eu queria ser aviador, mas tinha uma tendência para tocar sanfona, acordeom...

É, dizem que você passava o dia todinho com uma sanfona pendurada no pescoço, tocando para cima para baixo. Quantos anos você tinha?

Eu fui embora daqui com 11 anos. Ganhei a sanfona de Natal. Então eu acho que tinha uns oito anos, por aí. Mas tudo foi por causa da musiquinha do cara da canoa, porque ela nunca mais saiu do meu ouvido, permanece até hoje e vai permanecer até sempre porque serve de base e modelo. As outras músicas que eu faço são derivadas daquela da canoa, da simplicidade do homem do Acre.

Agora, como foi que um cidadão do Acre, que saiu daqui sem conhecer muita coisa e vai para o Rio, que era a Capital da República com aquela efeversência toda, e consegue se estabelecer com um dos grandes músicos do país? Foi genialidade, foi sorte?

Eu tinha essa tendência musical desde pequeno. Com ajuda daquela sanfoninha que meus pais me deram quando eu tinha cinco anos, de Papai Noel, que eu aprendi tocar com o mestre Antônio, que era do Rio Grande do Norte, e o sargento Berlamino, que era da banda da Polícia Militar quando o Acre era Território. Esse pessoal me ajudou a seguir o caminho da música para a qual eu já demonstrava tendência. Como meu pai foi o primeiro piloto do Acre, meu sonho também era ser piloto. Meu pai foi transferido para o Rio de Janeiro e, chegando lá, fui para a escola porque o sonho do meu pai era nos dar uma educação de qualidade...

Você tem quantos irmãos?

Tenho um irmão e uma irmã. Meu irmão é três anos mais novo do que eu e minha irmã três anos mais velha. Mas, enfim, fui tocando nas festinhas do colégio. Uma vez por semana, havia uma apresentação dos alunos do colégio. Cada um fazia o que sabia fazer. Então, eu tocava. Vez por outra chegava por lá um artista conhecido da época para abrilhantar a apresentação dos alunos. Um dia, houve a visita dos “Namorados da Lua”, que tinha Lúcio Alves como líder. Eu já estava por aí com 15, 16 anos. Comecei ir ao camarim, ir a seus ensaios, acompanhá-los de perto. Fiquei amigo deles e eu sentia que queria me meter naquele meio. O fato é que, quando fui fazer o teste para piloto, já com 18 anos, fui reprovado no exame de vista por daltonismo, por fazer confusão com as cores. Para quem quer ser piloto, isso dá confusão. Então, eu decidi: vou ser outra coisa. O que eu sabia é que não seria médico, advogado, engenheiro e coisa para a qual eu não tinha a menor disposição.

E como se deu isso de gravar? Na época, era muito difícil conseguir a gravação de um disco?

A música virou minha atividade principal. Quando percebi que eu não ia ter diploma de nada, resolvi então estudar mais a música. Então passei a me dedicar mais e a conhecer e me envolver com mais pessoas do meio artístico da época, como Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dolores Duran, Emilinha Borba, enfim, a turma do rádio. Um dia fui convidado para substituir o irmão do Luiz Gonzaga, que tocava na rádio Guanabara.

Você tocava acordeom?

Isso. Toquei esse tempo todinho. Sai daqui do Acre já tocando acordeom. Meu ídolo era – e ainda é – Luiz Gonzaga. Eu tocava muito as músicas do Luiz, que na época o melhor exemplo. Aí fui convidado a gravar pela primeira vez pelo Altamiro Carrilho, flautista...

Você tem idéia de quantos discos já gravou, de quantos discos participou?

Em quantos eu tomei parte, assim, perdi a conta. Talvez seja mais de cem. Mas dos discos gravados com o meu nome na capa, eu acho que são 18. O Carlos Arantes [pesquisador da obra de João Donato] disse que tem 18 discos meus.

Muitos foram gravados no exterior, não é?

Tinha muitos. Mais que aqui, no Brasil.

Como é que se deu essa sua descoberta do mercado internacional ?

No Rio, depois de ter travado conhecimento com João Gilberto, com o Tom Jobim, Jonh Alf, percebi que eles faziam uma música com letra, cantada. Eu só fazia instrumental. A música instrumental é a música que tem menos penetração. De cem sucessos, não tem nenhuma que seja instrumental. As músicas de sucesso são todas dependentes de letra e eu nunca liguei para isso. E aí eu estava com dificuldade de achar trabalho no Rio. Lá havia inúmeros lugares para se tocar na noite. Não havia ainda a moda da música em fita, em discoteca. Era música tocada por gente. Em tudo que era lugar tinha um músico.

Mas ainda assim, você não conseguia trabalho?

Mesmo assim eu tinha problemas para arranjar um emprego. O pessoal achava minha música um pouco diferente das demais, um pouco fora do comum...

Muito moderninha...

Mas eu dizia: moderninha como se eu sou do Acre? Que negócio é esse? A coisa ficou tão estranha para o meu lado que não deixavam eu tocar nem de graça. Quando eu queria dar uma canja, vinha um cara e dizia: olha, tem que esperar um pouco porque a casa está cheia. Tem que esperar esvaziar. Aí pensei: se eu não posso tocar nem de graça, como é que eu vou poder cobrar? Aí um amigo meu, que conheci no tempo de colegial, estava nos Estados Unidos, e me convidou para ir para lá. Era para fazer uma temporada de quatro semanas naqueles cassinos que trabalhavam 24 horas por dia. Ai fui ficando. Tinha dificuldade de voltar para o Brasil porque às vezes não tinha o dinheiro da passagem e tinha que esperar para ganhar dinheiro para pagar até a ida, que um o meu amigo havia comprado. Fui ficando e, quando me dei conta, já estava há 12 anos por lá. Depois, com saudade do Brasil, resolvi voltarl, nos anos 70 e não sai mais do Brasil.

Você teve contato com a música iraniana não teve?

Tive alguma coisa. Em nível internacional, tenho convite para ir a Moscou, na Armênia. Tive na Rússia esse ano, em fevereiro, e toquei com a Orquestra de Câmara de Moscou.

E depois de voltar ao Acre? Como é que está sua cabeça? Esse retorno vai acabar em música? Vai dar samba?

Samba não sei. Mas vai acabar em música. Claro que vai. Estou preparando inclusive uma rapsódia acreana, uma coisa mais sinfônica, assim para o lado da música clássica. Acho que devo esse trabalho a mim mesmo e o grande motivo é esse retorno ao Acre. O Acre só pode acrescentar tudo de melhor na minha vida e na minha musica.

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