
Florentina Esteves
Dia 13 comemoramos o aniversário de nossa cidade. Que, aliás, perdura a polêmica, se seria a 13 de junho ou 28 de dezembro. Numa ou noutra data, cantemos “parabéns pra você”. E aproveitando a data de Santo Antônio, que tal fogos, fogueira, pau de sebo e adivinhações? Pois não é no Santo Antônio que as moças procuram adivinhar quem será seu príncipe encantado? E o príncipe encantado de nossa Rio Branco? Eu diria tantos... Todos aqueles que deram sua parcela de colaboração para que hoje sejamos essa cidade – sorriso, bordada de verde sob um céu azul, um rio sinuoso que lhe enfeita a paisagem, barrento como-o barro de que Deus fez Adão – a criação.
Nestas datas festivas vagueia nossa imaginação. E ficamos a devanear, inventando enredos. Inventando a continuação daquela história que nasceu às margens do rio Acre, sob a sombra da gameleira. É como se tomássemos de uma criança que será ninada, depois dará seus primeiros passos, seus primeiros balbucios, estudará na escola da vida, um dia descobrirá o amor, conhecerá a alegria e a dor, a felicidade e a saudade, o riso e o pranto, e todos os contrastes, todos os antônimos de um longo vocabulário que se chama vida, viver.
Gostaria de ter uma bola de cristal e, invertendo o caminhar do tempo, ver nossa criança – Rio Branco no berço. Imaginar quem a iniciou na vida. Quem a amparou nos primeiros passos. E tal a vida de uma criança, começar por aquele que a tomou nos braços ao nascimento. Como seria parir quando Rio Branco não passava de um vilarejo com algumas poucas casas, e um povo que porfiava com a natureza agressiva, na luta por um lugar ao sol? Depois, como seria viver, simplesmente, naqueles idos?
Temos alguns relatos oficiais de fatos históricos importantes de nossa Rio Branco. Mas esses relatos não nos oferecem a visão íntima do quotidiano, do acordar ao anoitecer, acender o lampião a querosene ou a lamparina e, sentando à porta de casa, apreciar o céu recamado de estrela, que nem a lua cheia conseguia esmaecer. Sim, sabemos, por exemplo, da primeira escola oficial da cidade. Mas quem nos contaria daquela professorinha que, coração transbordando de ternura, ensinava as primeiras letras? Minha mãe, que aqui chegou em 1916, sempre conta de duas irmãs que ensinavam particular às crianças de então o be – a – bá. Chamavam-se Belita e Dalila Cravo. E tão bem ensinavam que minha mãe pode se comparar, com vantagens, aos estudantes de hoje.
E quem nos contaria dos bastidores dos atos oficiais? Como chegamos ao primeiro casamento, à primeira certidão de nascimento ou de óbito, àquela casa vendida de papel passado, à nomeação de figuras políticas para administrar a cidade? Quem acompanhou as deliberações que desembocaram, por exemplo, à chegada do primeiro avião às nossas plagas? Sabemos, por tradição oral, dos percalços que envolveram esse acontecimento, e até podemos relatar aqui o que ouvimos de minha mãe, iniciando nossa história com “era uma vez”. Sim, era uma vez um governador, paulista, nomeado por Getúlio Vargas Interventor do Acre. Temperamental, decidido, obstinado, embirrou em trazer-nos aquele pássaro de metal que voava. Entabula entendimentos com a Panair (de franceses) o envio de um monomotor que aquatizaria no rio Acre. Só que, sendo inverno e tempo de balseiros, à chegada do avião, o rio estava obstruído. Uma tentativa, outra, vôos rasantes e, arribam os franceses, deixando ao povo e seu governador o sabor amargo da decepção. Muito criança, ainda, lembro vagamente do povo apinhado na beira do rio e, depois, rostos tristes se dispersando. Mas Martiniano Prado não esmorece com a derrota de seu sonho alado. E, tempos depois, consegue da Condor o envio de outro hidroavião que, desobstruído o rio de galhadas e balseiros, aquatiza acima da volta do Quinze. Comemorando o acontecimento com banda de música e comparecimento do povo e autoridades, já se podia anotar nos anais da cidade a vitória.
De quantos outros fatos históricos poderíamos conhecer os bastidores? Inclusive o da criação de nossa Rio Branco? Mas nos limitamos a dizer aos acreanos: sonhem, imaginem o “era uma vez” de nossa história, e certamente sentir-se-ão capazes de criar outras novas histórias.
* Escritora e Professora
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