
Longe e perto
Jose Augusto Fontes
O sol afogou-se em águas que começavam a mudar
de cor, fazendo possível a passagem do ouro para a prata, correnteza
de cores, saudades, idéias. A lua já vem vindo, cheia de lembranças
revolucionarias. O Xapuri continua penetrando o Acre. Algumas luzes nascem
do lado de lá do rio. Os sons da mata, das águas, das margens,
misturam-se com a música soprada pelas caixas de som, dizendo “o
pensamento lá em você”, na voz do Djavan, mas em outro
pensar, no caminho por onde aquelas águas ainda vão passar,
mais tarde, quando o mundo será outro, nessa distância que aqui
há ficar.
A praça de São Sebastião era cenário de outra revolução. O dia não era frio, o lugar não era bom pra ler um livro, mas “o pensamento lá em você” corria adiante das luzes do bairro Sibéria, do lado de lá do rio. Nenhuma luz imaginada poderia aquecer o homem que olhava para longe, enquanto a cerveja borbulhava no copo e a brasa queimava no cigarro longo. Talvez fosse momento para escrever, sentimentos viram letras, é mais fácil lidar com elas. Mais lógico e prático. O ar, os ventos e as águas, tudo foge daqui. As teclas, os impulsos, as antenas e as várias ondas, isso tudo aguça os sentidos, cria a imagem, mas não passa, isso tudo, do que há aqui. O mundo foge para lá.
O pensamento segue o rumo da correnteza do Acre. De baixada toda brisa ajuda. Mas ninguém vive de brisa. Até o pensamento quer ação. Outro cigarro, mais uma bebida, a fumaça também viaja, mas sua dança já se perde em outro ritmo. Hoje é sábado, vai começar o jogo das combinações. Porque hoje é sábado, o salão começa a balançar, as horas também viajaram e a noite andou bem. Parece que correu, enquanto as águas deslizam ali embaixo, dançando em outros salões. Bem ali, mais perto que a saudade, no meio do aglomerado, surgem olhos que atraem a vontade, pedem a flexa, como aquela cravada no peito da estátua do santo, que vigiava a praça e abençoava a boa intenção que começava a nascer, como uma revolução. Sem perder a ternura, o amor ganha corpo e ação.
Olhares bem entendidos, a flexa parte para o alvo. É como o destino das águas O rio que ali agasalha outro, sabe que adiante se entregará a águas que o levarão para longe, até encontrar um gosto de sal. Curvas assim, só mesmo nessas correntezas. Com esse movimento revolucionário, com curvas tão bem desenhadas, as águas são atraídas para as margens, roçam as extremidades, bailam sobre o leito. O pensamento, levando o amor, estacionou em algum barranco. A flexa fere a carne, nem tudo parece longe, não fosse o outro pensamento, seria quase perfeito.
A mata densa imita cabelos negros, escondendo olhos que antes mostravam o caminho, sem deixar opção ao pescador de momento. A pequena praia é beijada pela dança que finge ser banzeiro. Águas e carnes cortadas, inspiradas no rio que penetrava o outro, bem ali, “e o pensamento lá em você”. O sábado despediu-se iluminado pela grande lua, cheia de olhos, que despencavam para ver a combinação de movimentos. O pensamento se perdia com a noite, vazava no momento. O desejo escorria como as águas, levando o amor correnteza abaixo.Era uma revolução que nascia com o novo dia.