
Operação Timbó realiza mais de 900 atendimentos médicos
Ação do Exército, Marinha e Aeronáutica movimenta Sena Madureira e ganha a simpatia da população beneficiada
ANDRÉA ZÍLIO
A cidade de Sena Madureira esteve agitada durante a quarta-feira em decorrência das diversas atividades realizadas pela ação conjunta do Exército, Marinha e Aeronáutica durante a Operação Timbó. Foram 939 atendimentos médicos, seguidos da distribuição de remédios e palestras sobre doenças sexualmente transmissíveis e a emissão de 510 documentos.
Os rios perderam por alguns momentos a calmaria e o silêncio da mata foi substituído pelo barulho dos motores das voadeiras, que transportavam os homens da força militar na fiscalização no rio Iaco. Os céus do município também foram alvo de olhares curiosos da população, que despertou com o barulho do helicóptero que transportou soldados para outros lugares onde a operação se repetirá, em Manuel Urbano.
A operação foi encerrada com a emoção das 82 pessoas que participaram do casamento comunitário. A operação reuniu ao todo quatro mil soldados do Exército e dos batalhões do Acre e Amazonas, que foram deslocados para fazer o patrulhamento nas áreas de fronteira dos dois Estados com a Bolívia e Peru, fiscalizar e coibir o tráfico de drogas e a retirada ilegal de madeira.
Os soldados fizeram também uma ação social junto a outros parceiros, que possibilitaram as atividades. A ação foi bem vista e elogiada pelos moradores do município, que participaram ativamente e mostraram sua alegria e hospitalidade aos visitantes. Houve forró em plena rua, com a participação da banda marcial do Exército.
Cerimônia – A abertura da operação em Sena Madureira aconteceu em frente ao prédio da 3a Zona da Justiça Eleitoral, com a presença do presidente do Tribunal de Justiça, Ciro Facundo. Ele assinalou a importância de o Brasil estar preparado para defender a Amazônia, principalmente tendo o cuidado com as fronteiras.
Atendimento – As atividades de atendimento à população se iniciaram por volta das 9 horas e foram até as 17. Foi um total de 939 atendimentos médicos, sendo 44 ginecológicos, 26 cardiológicos e 325 clínicos-gerais.
Na área de odontologia, foram 264 atendimentos, sendo que 112 foram aplicações de flúor e 18 de odontopediatria. Houve a distribuição de três mil preservativos. A odontóloga tenente Elma Calazans atuou diretamente no atendimento das crianças, ensinando a higiene bucal e aplicando flúor, com a exibição de um vídeo educativo.
Ela diz que as crianças atendidas até o fim da manhã não haviam encontrado nenhum caso da conhecida cárie da mamadeira, comum nessa fase. Segundo ela, isso mostra o cuidado das mães com os filhos, mesmo com a pouca informação. Uma das crianças atendidas, Josiane Vaz, de 10 anos, retribuiu a simpatia da médica com um sorriso saudável. “Foi muito importante essa aula porque eu não sabia de tudo isso e agora aprendi e vou fazer direitinho”, prometeu.
Procura – Uma das maiores procuras da população foi pelo atendimento do clínico geral. Algumas pessoas foram ao médico superando traumas, outros o medo e também a comodidade. Inês Lima Pereira, 62 anos, não fazia exames desde que o marido morreu de câncer, há dois anos.
Com lágrimas nos olhos, ela disse que não tinha coragem de se consultar desde que perdera o companheiro. “É muito boa a vinda dos soldados até a gente. Vi que todo mundo estava vindo, então tive coragem e vim tratar do reumatismo.”
Parceria – Além do Departamento de Polícia Federal, Receita Federal, Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Governo do Estado, Fundação Nacional do Índio (Funai), Secretária de Segurança Pública e polícias militares, a operação está contando com a parceria das prefeituras.
No caso de Sena Madureira, o vice-prefeito, Moacir Furtado, conta que o órgão contribuiu com os prédios das secretarias, que foram disponibilizados para o atendimento da população, a doação dos remédios, médico, um odontólogo, dois enfermeiros e auxiliares de enfermagem. Com exceção deles, todos os outros profissionais da saúde, fazem parte do Exército.
Barreira – Na entrada da cidade, os soldados fizeram uma barreira com tambores e fitas, onde revistaram veículos e a bagagem de motoristas e passageiros. Estão sendo deslocados para esse trabalho cerca de 35 homens, com a presença da Polícia Federal.
Um dos responsáveis, o tenente Ludinaldo, explica que grande parte dos veículos passou pela fiscalização. Todos os ônibus foram revistados. A maioria dos casos foi a falta de documentação pessoal, inclusive dos colonos, os quais recebiam apenas orientações. “O seringueiro, colono, não tem o costume de andar com documento. Orientamos para que andem com eles.”
Fiscalização – No patrulhamento nos rios, o Exército montou base com 24 homens em cada uma. Na boca do rio Iaco, início do rio Purus, foi colocada uma barreira feita de cordas e garrafas. Os ribeirinhos aceitaram a fiscalização de forma amigável. E, sem pressa, paravam as canoas e os batelões, esperando pacientemente que fosse feita a revista. Em seguida eram orientados pelos soldados sobre diversos assuntos. O ex-seringueiro Pedro Gomes, 73 anos, morador do seringal Boa Esperança, aproveitou a visita dos soldados para contar o orgulho que tem de ter sido seringueiro e falou da segurança dos rios. “Sei desses problemas que tem aqui no rio, mas nunca vi nada. Tem que ter a segurança”, diz.
Proteção – O capitão do 4o Batalhão de Infantaria e Selva (Bis), Marcelo Câmara, explica que hoje a Amazônia é a principal área assegurada pelo Exército, onde se concentra maior quantidade de recursos e armamentos da Força. No total, o Exército realizou 61 operações do gênero.
O comandante-geral do Batalhão, Geovani Filho, conta que essas ações são uma preparação para uma fiscalização mais intensiva nas fronteiras. “Temos que pensar permanentemente na proteção das fronteiras e estar preparados para qualquer eventualidade.”
Casamento – Para finalizar as atividades, foi realizado o casamento comunitário de 41 casais pelo juiz de direito Jéferson Cristi Tessila de Melo. Com bom humor, o juiz fez uma rápida cerimônia e distribuiu as certidões de casamento.
Um dos casais mais idosos, Roberto Barbosa, 62 anos, agricultor, e a professora aposentada Francisca Mariano, 59 anos, unidos no religioso há 41 anos, não escondeu a felicidade ao serem declarados marido e mulher e comemoraram com um caloroso abraço. A atitude foi imitada pelos demais.
“Acho que ele me enrolava, mas agora casamos com tudo certinho”, diz Francisca. Roberto explica dizendo que não havia tomado a iniciativa antes porque estavam unidos por Deus e devido à dificuldade de legalizar a papelada. A cerimônia, assistida pela população, foi encerrada em clima de felicidade e bom-humor. Os soldados do 4o Bis seguiram ontem para o município de Manoel Urbano e localidades próximas, onde realizarão as mesmas atividades.