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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 26 de junho de 2003

Além do acidente verbal

Muito débil estaria a democracia brasileira se caísse numa crise institucional — expressão da qual se abusou muito ontem — por conta das palavras impetuosas, desnecessárias e mesmo perigosas do presidente Lula. O que se apura de mais preocupante neste episódio nem é o perigo de sua insubmissão à liturgia, mas as notícias sobre variações agudas em seu humor no trato com as coisas de governo.

Tanto é que, na noite de anteontem, desconhecendo ainda as repercussões que ganhariam as palavras com que pretendeu definir sua determinação, Lula mostrou-se extremamente irritado, impaciente e queixoso numa reunião da qual participaram os líderes do governo e os ministros Dirceu, Dulci, Palocci e Gushinken. Queixou-se de tudo, avaliando com particular amargura que o governo estaria “perdendo a guerra da comunicação”: só os fatos negativos ganhariam destaque na mídia, enquanto o que o governo consegue fazer, apesar das imensas dificuldades, é omitido ou muitas vezes distorcido. E poucos, muito poucos, estariam expondo-se para defender o governo. Foi um desabafo longo, pontilhado por interjeições e pelo peso de algumas palavras. Líderes e ministros minimizaram alguns reclamos com o visível intuito de minorar-lhe a irritação.

Ontem de manhã, antes do anúncio da convocação extraordinária do Congresso, reunido praticamente com o mesmo grupo mais os presidentes da Câmara e do Senado, Lula trocara a exaltação da véspera por um visível abatimento. A discussão entre eles atrasou a cerimônia em mais de uma hora. Mais objetivo na cobrança de uma explicação foi o presidente da Câmara, João Paulo Cunha. O do Senado, José Sarney, externou sua concordância com a expressão carregada e tensa. Lula desprezou uma fórmula proposta pelo ministro Dulci e justificou-se a seu modo, lendo o que dissera: “não tem chuva, não tem geada, não tem terremoto, não tem cara feia, não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário — só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que nunca deveria ter deixado de ocupar”. De fato, não falou em reformas que aprovaria na lei ou na marra. Mas se tivesse ficado apenas nos fenômenos da natureza, deixando de fora os outros poderes, teria cometido apenas mais uma hipérbole sobre sua missão política.

Recordou os gestos que já fez em busca de uma boa relação com o Congresso. E a Casa, de fato, não teve ainda razão séria para reclamar do relacionamento com o Planalto. Em matéria de sujeição, mais ajoelhada esteve ante o governo passado, até à aprovação de nova regra para as medidas provisórias. O Planalto fazia a pauta, aliciava e contava os votos, apresentava proposições já rejeitadas no mesmo ano (atropelando o regimento) e ignorava as propostas de iniciativa parlamentar. Talvez nunca, depois da ditadura, o Congresso tenha aprovado tão poucas leis de sua própria iniciativa.

Tudo isso redime Lula mas não tira o caráter pedagógico do episódio, para um presidente que insiste em comunicar-se como um líder popular, esquecido da ressonância de tudo o que fala, principalmente sobre o delicado tecido das instituições. Com o Congresso, a febre passa. Com o Judiciário, há um conflito de resultados imprevisíveis em relação à reforma previdenciária. Se o governo cede, aceitando carreira especial para os magistrados, aniquila a reforma. Se os derrota, Deus sabe o que virá depois. Crise institucional é exagero, mas junto ao Judiciário o acidente verbal atiçou o conflito.

Terapeutas do salão verde

Um observador do comportamento do presidente Lula acha que o surto de irritação que o acomete foi deflagrado pelas críticas de Fernando Henrique, que também tratou de amenizá-las. Muito mais que os pefelistas, os líderes tucanos salgavam o mal-estar de ontem no Congresso, ajudados pelo presidente do PSDB, José Aníbal, que psicanalisava o presidente:

— O preocupante é que, de improviso, todos costumamos dizer aquilo que no fundo pensamos.

Arthur Virgílio vingou Fernando Henrique, que se amolou muito, na semana passada, por ter sido comparado a Carlos Menem por Aldo Rebelo e Aloizio Mercadante. Ontem Arthur comparou Lula a Hugo Chávez. Em breve, alguém deve ser chamado de Fujimori.

DESPERTOU louvores e protestos a proposta de ampliação do recrutamento militar como política social em favor dos jovens em idade de risco. Protestos enfáticos contra o perigo de, com isso, as Forças Armadas treinarem militarmente jovens que, uma vez dispensados, irão servir ao narcotráfico. Risco real mas variável segundo os caminhos que a sociedade consiga ou não oferecer-lhes, diz o líder Aldo Rebelo.

DO LÍDER do PTB, Roberto Jefferson, sobre a garantia do presidente de que Carlos Wilson permanecerá na presidência da Infraero: o PTB quer é que ele deixe o partido. O Planalto também deixou de inflar o PTB. Agora tem encaminhado aliados para ao PPS.

ONTEM o PSDB fez 15 anos. Sete deputados estragaram a festa deixando o partido rumo a siglas governistas.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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