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Rio Branco - Acre, domingo, 6 de julho de 2003

Tese estuda a casa do seringueiro

Estudo feito na UnB mostra as transformações que ocorreram na arquitetura das colocações e das moradias dos seringais

Romerito Aquino

Brasília - O Acre mudou muito nas últimas décadas. A queda do preço da borracha levou ao declínio de seus seringais tradicionais e isso também trouxe mudanças significativas no modo de vida dos seringueiros, os guardiões da floresta. Uma das principais mudanças ocorreu mais precisamente na arquitetura da casa que ele construía para se abrigar na selva.

Da casa antiga de paxiúba e coberta de palha, o seringueiro passou para uma casa dita moderna, feita com madeira serrada e cobertura de alumínio, com fortes influências da arquitetura urbana. Hoje, na floresta, é possível ainda se ver casas do tempo do seringueiro tradicional, mas a predominância já é de casas do tempo do seringueiro moderno, principalmente os localizados nas muitas reservas extrativistas existentes no Estado.

Isso é o que demonstra a tese de mestrado da arquiteta Marlúcia Cândida de Oliveira Neves, que acaba de ser defendida e aprovada no Departamento de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), constituindo-se num trabalho de pesquisa inédito realizado na região do Alto Amazonas e na reserva extrativista Chico Mendes, no Vale do Acre, sobre o modo arquitetônico de morar do seringueiro, levando-se em conta os aspectos antropológico e histórico de sua região.

Com o título A Colocação e a Casa do Seringueiro: exemplo de arquitetura vernácula da Amazônia, a tese de Marlúcia Neves foi aprovada com louvor pelos professores orientadores da UnB porque, segundo eles, as entrevistas e as pesquisas de campo feitas pela arquiteta demonstraram que a casa antiga do seringueiro é ecológica e possui suas matrizes culturais no Nordeste brasileiro e nos grupos tribais da Amazônia.

Por sua vez, a casa moderna, de acordo com a arquiteta, possui semelhanças ao modelo das casas urbanas e tem suas matrizes culturais nas casas dos patrões nas sedes dos seringais e também no Nordeste. Os professores orientadores da arquiteta foram o antropólogo Jacó Cesar Picolli, da Universidade Federal do Acre, o arquiteto Frank Svensson e a antropóloga Ellen Woortmann, ambos da UnB.

“O objetivo de minha tese é levantar as origens da casa do seringueiro sob a influência do nordeste e dos grupos tribais da Amazônia. Espero, com isso, estar dando subsídios para a elaboração de uma arquitetura adequada ao ambiente tropical úmido, inclusive no meio urbano”, diz Marlúcia Neves, que é goiana de nascimento, acreana de criação, começou seu curso de arquitetura no Rio de Janeiro e o concluiu em São Paulo.

Segundo a arquiteta, a riqueza da cultura do seringueiro e do seu habitat – a colocação – tornou necessário que a sua pesquisa fosse realizada não apenas com o “olhar arquitetônico”, mas também com o “olhar antropológico” e o “olhar histórico”.

“Não daria para analisar puramente a edificação da casa e omitir a respeito das suas origens, dos hábitos dos seus moradores, do que ocorre no seu entorno e de como o seringueiro escolhe o espaço da colocação para edificar sua moradia. Além disto, analisei este ambiente como sendo masculino, feminino, social, econômico, religioso e cultural”, acrescenta Marlúcia Neves.

Os motivos da mudança arquitetônica

Em sua tese de mestrado, a arquiteta Marlúcia Neves analisa que a mudança ocorrida na arquitetura da casa do seringueiro, da época do seringal tradicional para a reserva extrativista, deve-se a muitos aspectos. Um deles foi a ascensão econômica e a estabilidade dos seringueiros, que é atualmente “dono” da colocação nas reservas extrativistas onde moram e trabalham. “Isto favorece uma elaboração melhor da sua casa. Portanto, a ele interessa a ‘durabilidade’ dos materiais, a ´segurança´ dos seus bens e da sua família e o valor de troca da colocação”, afirma ela.

De acordo com a arquiteta, além dos seringueiros, os atuais agentes que atuam no contexto da floresta – ONGs, governos (federal, estadual e municipal) e igrejas – parecem confiar mais em outras culturas para edificar no meio da floresta as escolas, postos de saúde, igrejas, templos, sede das cooperativas, entre outras edificações. “Estes se apóiam em materiais e conceitos arquitetônicos tais como ter mais ´durabilidade´ e ser mais ´seguro´, mesmo que tenha que importar material como telha de alumínio, como faziam os patrões”, sustenta Marlúcia Neves.

Segundo ela, talvez estas razões gerem no seringueiro um sentimento negativo a ponto dele sentir-se inferior morando numa casa feita de paxiúba coberta com palha. “Parece que a casa de paxiúba com palha desvaloriza a colocação na hora de negociá-la”, acrescentou. Outra razão que, segundo Marlúcia Neves, pode estar causando alterações no padrão da casa é a proximidade da Resex Chico Mendes com a cidade de Xapuri, visto que alguns dos seringueiros das colocações pesquisadas possuem ou utilizam, nesta cidade, casas feitas de madeira serrada, cobertas com telha de alumínio.

“Talvez o seringueiro deseje mudar o padrão da sua casa na perspectiva do tempo do patrão, cuja casa era feita com materiais mais nobres e representava o domínio e o poder no seringal. Hoje, não existindo mais a personagem do patrão, nem a sede do seringal, cabe então a cada seringueiro estabelecer o domínio na sua colocação. Então, surge a ´casa nova´ - moderna – dentro de uma nova organização do espaço da floresta”, prossegue a arquiteta.

Mas como se pode garantir uma arquitetura com identidade desta sociedade sem prejuízo de seus anseios e atuais necessidades? A resposta para essa pergunta, segundo Marlúcia Neves, pode estar na arquitetura vernácula própria destes seringueiros como bases para a criação de linguagens arquitetônicas para a Amazônia. “Para isso, deverá ser considerada a solução já adotada por estes povos centenários, onde os pais passaram as experiências para os filhos. Na arquitetura vernácula será possível encontrar soluções inteligentes capazes de adequar-se às condições ambientais, econômicas e culturais dos diferentes tipos sociais amazônicas. Estas soluções poderão contemplar as necessidades de todas as sociedades, seja as residentes na floresta, seja aquelas das áreas urbanas e rurais, guardadas, é claro, as devidas especificações de cada ambiente”, conclui Marlúcia.

Para a arquiteta, a troca do “velho” pelo “novo” deve considerar as características da antiga moradia do seringueiro, que é ecológica por várias razões. É assentada em barrotes para evitar que a umidade não entre nas paredes, tem uma cumeeira aberta para a saída do ar quente, apresenta beirais largos, possui um telhado alto e inclinado, dispõe de grandes vãos (janelas) de abertura que proporcionam a ventilação cruzada, apresenta frestas que favorece a ventilação e iluminação dos cômodos fechados e usa materiais nas cores mais opacas, que acumulam menos calor. Ao final de sua tese, a arquiteta propõe que a casa tradicional existente na colocação Maloca Queimada, no ramal Guarani, da Resex Chico Mendes, seja transformada em museu vivo do modo de habitar do seringueiro.

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