
Mulheres do Taquari mudam atividade
Elas trocam a cozinha pela fabricação
de malhadeira e dizem que o trabalho é rentável
SAMARA CASTRO
Cláudia Sônia, 26, e outras seis mulheres do bairro Taquari são exemplo de que “elas” invadiram os mercados mais inusitados, antes só ocupados por homens. Além de cuidar da casa e das crianças, fabricam e consertam malhadeira de pesca .
Como cresceu numa vizinhança em que parte dos moradores era de pescadores, não foi muito difícil aprender o ofício. Aos 14 anos remendou a primeira malhadeira sem ajuda de ninguém. Também foi nessa idade que se casou com o pescador Ismar Moreira de Souza, 29, com quem vive até hoje e tem três filhos.
“Ficava sentada vendo minhas vizinhas ou os pescadores fazendo o trabalho até que um dia resolvi botar a mão na massa. No começo foi difícil. Para pegar toda a prática levou um bom tempo, mas hoje garanto que dou show na frente de muito marmanjo que tem por aí”, conta Cláudia.
Outra que também desenvolve a atividade há bastante tempo é Luzirene Cavalcante de Andrade, 37. Parte do que sabe, diz que aprendeu com o marido, que também é pescador. Todavia, a agilidade surgiu em conseqüência da quantidade de malhadeiras que tinha para remendar.
“Há dez anos aprendi a remendar. Sempre que meu marido sai para pescar e, as vezes, chega a passar quase um mês, volta com as malhadeiras danificadas e é aí que entro no batente. Enquanto conserto as que ficam, ele vai com as que já remendei e assim por diante. Além disso tem os pescadores das proximidades que vez por outra pedem para que remendar a deles”, afirma Luzirene.
Elas explicam que o trabalho não é um dos mais fáceis, mas que com um pouco de prática tudo se resolve. Para produzir ou remendar uma malhadeira, são necessários: linha (os tipos são diversos), corda, bóias e agulha (também feita por elas). Na hora de explicar como se faz, complica tudo. “É difícil explicar. É um tipo de trabalho que a pessoa só aprende mesmo vendo e colocando em prática. Mas isso leva bastante tempo”, diz Luzirene.
Atividade garante parte da renda familiar
O tempo que levam para fazer ou remendar uma malhadeira e o valor que será cobrado, depende do tamanho. Algumas chegam a exigir quase um mês de trabalho.
“Já passei 20 dias para remendar uma malhadeira, mas isso porque ela era muito grande. Tinha mais duas amigas minhas me ajudando, se não fosse por isso teria sido bem mais. É um pouco complicado e exige muita atenção para não errar no tamanho dos buracos” explica Luzirene.
Apesar de exigir tanto, o negócio quando feito continuamente pode ser rentável. De acordo com a demanda elas podem tirar até R$ 240 por semana. “Em pouco mais de um mês eu remendei duas malhadeiras e consegui tirar 300 reais. Ou seja se toda a semana tivesse trabalho nossa situação financeira seria bem melhor. Hoje, quase não temos trabalho”, lamentam.
Tanto Luzirene quanto Cláudia só cobram a mão de obra. O material necessário para a produção ou o remendo de malhadeiras fica sob responsabilidade do cliente.
“Cobramos só pelo serviço. A diária custa até 10 reais. Quando é algum conhecido nosso damos desconto, pois sabemos que as coisas não estão muito boas hoje”, afirma Cláudia.
Para Cláudia o trabalho pode não ser um dos melhores, mas se não fosse por ele talvez não pudesse ajudar no orçamento da casa, já que teve que parar de estudar na 7ª série. E por isso pretende passar o que sabe para os filhos.
“Meus filhos aprenderão sim a remendar e fazer malhadeiras. Por mais que eles estudem, saberão a fazer isso e espero que tão bem quanto eu”, conclui Cláudia.