
O curandeiro da mata
A sabedoria das utilidades medicinais de folhas e raízes faz de Mário Bento o homem mais procurado dos rios Iaco e Purus
ANDRÉA ZÍLIO
A disposição do corpo ativo não corresponde à idade de 65 anos. A fala se assemelha à de uma criança, devido às falhas na arcada dentária. O olhar curioso dentro da mata é de um homem sábio, que aprendeu a respeitar e a usufruir a natureza sem agredi-la. Assim é Mário Bento, o doutor da floresta, que leva a cura por meio do conhecimento medicinal das plantas às pessoas que o procuram em sua chácara, no rio Iaco.
A paciência que utilizou para aprender os segredos da mata hoje é colocada em prática para ensinar. Se alguém chega em sua casa e ele não tem o remédio adequado, pega seu facão e o dente de um jacaré de 25 polegadas e rapidamente se embrenha mata adentro, à procura da planta, raiz ou folha para fazer o remédio natural adequado à doença. Ele diz que o aprendizado é constante.
Mário nunca se dá por satisfeito e sempre aprende com vizinhos, curandeiros que param em sua casa para tomar cafezinho ou trocar uma prosa.
A diversidade de remédios que faz garante servir para curar asma, problema de coluna, inflamações, gripe, reumatismo, tuberculose, hemorróidas, entre outros males.
PROTETOR - Com 14 anos de idade, seu Mário passou a acompanhar o pai na lida do seringal. Mas admite que sempre gostou mesmo é de plantar, o que faz em sua colônia até hoje. Ele garante que só desmata a área que vai utilizar para o plantio.
CURA - A vida de médico da mata de Mário Bento fez parte de sua juventude até os dias atuais. Conta que um curandeiro que apareceu próximo a sua casa e curou uma moça leprosa marcou a vida dele. O homem resolveu aceitar o desafio e prometeu entregá-la com saúde aos pais. A promessa foi cumprida e a garota ficou tão agradecida que resolveu casar-se com o curandeiro. Ele então se tornou vizinho de Mário e repassou seus conhecimentos de plantas e raízes ao jovem.
Entretanto, dizer que conhece tudo da mata é quase uma ofensa. “Não sei tudo. Só algumas coisas, mas tento aprender toda vez que aparece alguém para ensinar. O caboclo sabe de remédio da mata porque vive nela”, rebate.
PERDA – Outra história marcante na vida de Mário foi quando a primeira mulher dele adoeceu e morreu. “Levei ela no posto, mas o enfermeiro não soube cuidar da doença. É muito difícil você sair com a tua mulher procurando cura e voltar sozinho. Não acredito nesses remédios de farmácia”, declara.
Conhecimento para a sobrevivência na floresta
Mário Bento diz que ensina as pessoas que o procuram a fazer o remédio, para que não precisem voltar por motivo de doença. A origem de caboclo da Amazônia dá-lhe segurança para caminhar pela mata horas a fio. Em trechos fechados, não hesita em abrir novos caminhos. Na hora da sede, a folha de sororoca rapidamente se transforma em um copo, que serve para pegar a límpida água dos igarapés e bebê-la.
Mário Bento tira o necessário e devolve a planta ao seu lugar. A atitude mostra a preocupação dele em manter o que a natureza fez. “Se a gente respeita a mata, nada de mal acontece, porque ela também te respeita”, ensina.
Mário mostra a árvore do bordão de velha, da qual se faz chá da raiz para curar a temida malária. Como antiflamatório, nada melhor que o alecrin. No caso das mulheres com inflamação no útero, a copaíba é perfeita, que também serve para hemorróidas. Com a água do jatobá grande cura-se a tuberculose. E para dores na coluna, o chá da casca de chichuacha resolve.
BOA CONVERSA - Chegar ao final da conversa é praticamente impossível. Mário Bento sempre lembra de um outro remédio. Repassar o conhecimento só mesmo através das pessoas que levam a receita verbal ao longo do rio para outros ribeirinhos.
Dessa forma, o conhecimento se mantém vivo ao povo da Amazônia. “É muito bom acabar com o sofrimento de quem está sentindo uma dor que pode ser curada com o que a gente tem. Basta saber como fazer”, ressalta Mário Bento.