
O pitoresco carnaval de
Brasiléia atrai mais de 3 mil brincantes
Micareta ganha espaço no
calendário festivo
da cidade e se torna referência no Estado
ANDRÉA ZÍLIO
No seu segundo ano, o carnaval fora de época de Brasiléia, realizado duas noites após o aniversário da cidade, está se expandindo e atraindo cada vez mais brincantes de diversos municípios, Estados e até mesmo os vizinhos peruanos e bolivianos. A festa conseguiu reunir este ano mais de três mil brincantes.
Os policiais militares e os seguranças contratados pela prefeitura não tiveram muito trabalho, pois o público, a maioria de jovens, era o mais preocupado em entrar na folia com segurança. A festa é muito elogiada pelos moradores.
A micareta foi criada no ano passado para prolongar a comemoração do aniversário de Brasiléia, 3 de julho. Acontece nos dias 4 e 5 e foi incluída no calendário de festas da cidade.
ATRAÇÕES - As noites de folia começam geralmente a partir das 20 horas. As crianças são as primeiras a chegar. A animação é embalada com música infantil e atrações como a estátua viva, que arrancou olhares curiosos da garotada por muito tempo.
O palco, movimentado por bandas do Estado, fica mais frenético com as brincadeiras feitas pelos músicos. Uma delas é a dança do beijo, em que casais têm de dançar se beijando.
CUPIDO - “O povo acreano é romântico”, afirma o vendedor de flores de Mato Grosso do Sul Leonardo Carneiro de Lima, que se apresenta aos apaixonados com a frase “me chamam de beija-flor, pois sou cupido da noite e portador do amor”. E parece que funciona, pois o vendedor está no ramo há 20 anos. Atualmente vende as rosas perfumadas, com versinhos, em festas de todo o Brasil, ao preço de R$ 2, chegando a faturar em torno de R$ 500 diariamente. Mas parece que o “portador do amor” foi flechado por um cupido no Acre. Há um ano em Rio Branco, o vendedor se casou com uma acreana e para onde viaja faz questão de levá-la.
Festa movimenta economia do município
Durante os dois dias de festa, os vendedores de artesanato, bebidas, comidas típicas e sorvetes comemoram o aumento das vendas. Assídua nas feiras e datas comemorativas do município, a barraca da Eriva é uma das mais visitadas. Maria das Graças Eriva, 54, e a filha Liliane Maria, 31, trabalham dobrado para atender a demanda. Em dias comuns, elas vendem as guloseimas na própria casa. São panquecas, charutos, minipizzas e o mais conhecido tacacá da cidade, uma tradição de 12 anos. O faturamento também aumenta. Ao contrário dos R$ 70 a R$ 120 que conseguem em casa, na festa o lucro sobe para R$ 350 a R$ 400.
Valdinei dos Anjos, 30, começa seu trabalho de maneira diferente. Entra em contato com o governo e a prefeitura de vários Estados e se informa das datas de festas tradicionais. Daí, é só arrumar as ferramentas de trabalho e sair pelo Brasil. De Goiás, o vendedor de bebidas, passou por Brasília, Goiânia e Cuiabá. De Brasiléia segue para Porto Maldonado, no Peru.
Ele trabalhava como padeiro, ganhando aproximadamente R$ 800 por mês. Há cinco anos inova em expofeiras e aniversários de cidades, com 15 tipos de coquetéis e oito drinques. Fatura até R$ 3 mil mensais.
FONTE DE RENDA - O estudante de Medicina Leomar de Oliveira, 33, há quatro anos vende cerveja. Começou no aniversário da cidade e agora vende no carnaval. A arrecadação mínima foi de R$ 1,3 mil, mas já conseguiu faturar R$ 2,3 mil. O dinheiro serve para pagar a faculdade que faz na Bolívia. “Dá para pagar alguns meses e ainda alivia nas despesas”, conta.
Espaço para irreverência
Francisco Gadelha, conhecido como Chico Dino, tem um espaço especial na festa da cidade. Do Ceará, o animado brincante, de 80 anos de idade, 60 deles morando em Brasiléia, é figura marcante nos carnavais do município. Destaca-se por estar sempre vestido com uma fantasia diferente. Chama a atenção a alegria para dançar, com uma disposição de causar inveja a muitos jovens. O segredo de tanto animo? Ele dá a receita. “Carnaval é uma física. Quando a gente brinca, fica novinho. O segredo é passar a alegria que tenho para os outros e fazer exercício dançando. Os jovens têm de fazer isso.”
Carnaval atrai turistas de outros Estados
As peculiaridades do carnaval fora de época de Brasiléia está conquistado pessoas de outros Estados. A estudante de Direito Neide Aparecida, 27, é da Paraíba e veio conhecer o carnaval de Brasiléia. “Essa festa é muito boa. O mais legal é a segurança. Aqui, ao contrário de outros lugares, você vem brincar com bolsa, jóias, sem medo. Ainda é o carnaval que havia antes”, diz.
Outro acadêmico de Direito, Márcio Campos, 27 anos, tem família em Brasiléia e mora em São Paulo. Diz que, além da visita para rever a família, veio em especial para a festa. De fé-rias, optou em trocar o carnaval de Porto Velho para rever os amigos e brincar com segurança. “Essa festa foi uma ótima idéia. Acho que deveria haver mais divulgação, para as pessoas prestigiarem. Aqui todos brincam com tranqüilidade”, completa.