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Rio Branco - Acre, domingo, 6 de julho de 2003
O resguardo

Há duas semanas a pergunta mais freqüente no meio político é sobre as razões do excesso de exposição, principalmente verbal, do presidente Lula, num momento em que a popularidade lhe permitiria desfrutar de mais reserva. Não se trata de descuido ou de espontaneísmo. A hiper-exposição foi uma escolha deliberada, em que se considerou que os ganhos seriam maiores que os riscos.

Os danos colhidos nas duas últimas semanas sugeriram uma reavaliação, acompanhada de uma pausa verbal. A agenda de Lula para amanhã prevê apenas despachos internos. À noite ele embarca para São Paulo, de onde segue para a Europa. Supondo-se que não faça qualquer pronunciamento durante o final de semana, serão três dias de silêncio. Na Europa, onde passará por Portugal, Espanha e Inglaterra, voltará a falar em solenidades. Ainda que não resista a assuntos internos, eles serão secundários. Para a volta, está prevista uma nova metodologia de comunicação do governo, com o foco menos centrado no presidente, dividindo-se melhor a luz com os ministros.

Segundo um auxiliar muito próximo de Lula, ainda no começo do governo os riscos e vantagens do uso intensivo de seu discurso foram devidamente calculados. Concluiu-se que, apesar da possível banalização e do risco de acidentes verbais, maiores seriam os ganhos. Lula teria como nenhum outro a capacidade de exprimir, em linguagem compreensível por todos e com uma sinceridade indiscutível, idéias-força que garantiram sua eleição e vêm sustentando sua popularidade. Com o passar das semanas, os ministros, mais seguros em seus papéis, começariam a firmar-se também como comunicadores. Isso não ocorreu, por fatores que vão do temperamento de cada um ao temor de reprimendas palacianas ou dos atritos internos.

Sobreveio também a carga de solenidades na agenda presidencial, ditada em grande parte pelo desejo de Lula de atender ao maior número possível de solicitações. Afinal, prometera ser um presidente do diálogo e da negociação. As solenidades exigem o pronunciamento, aí entra o temperamento, ele põe o formalismo de lado e abusa das palavras e das metáforas.

Pode ser que Lula não se ajuste a um esquema que o exponha menos ao microfone e às câmeras, como o desejado para seu retorno. Mas em sua ausência, ministros e auxiliares vão se esforçar para mostrar que existe governo, além dos discursos do presidente.

Thales Ramalho

Amanhã em Recife amigos do ex-deputado Thales Ramalho reúnem-se para festejar seus 80 anos. Mesmo afastado da política, ele continua sendo o animal de faro fino que sente antes dos outros o rumo do vento. Moderado e moderador, preferindo a sombra à luz, ajudou a urdir o delicado tecido da transição que pôs fim à ditadura.

Depois de militar na UNE, ser repórter e professor de literatura, chegou à Câmara, como deputado, em 1972. A fúria do regime castigara a esquerda pernambucana. Miguel Arraes, Gregório Bezerra e Francisco Julião estavam no exílio. Muitos, cassados. Jovens deputados como Fernando Lyra, Marcos Freire e Jarbas Vasconcelos combatiam no grupo autêntico do MDB, sob o risco da cassação. Thales ligou-se aos moderados, mantinha contatos com figuras do regime, repelia o confronto, apostava numa transição negociada. Apanhava dos autênticos, mas Fernando Lyra hoje reconhece o papel de sua moderação.

Em agosto próximo, por exemplo, a Lei da Anistia, que permitiu a volta dos exilados e o retorno dos clandestinos à legalidade, fará 25 anos. Thales foi a primeira figura da oposição a tratar dela com Petrônio Portella, o homem da abertura de Figueiredo. As ruas pediam anistia ampla geral e irrestrita. A linha dura queria anistia nenhuma. Era preciso negociar, diziam os moderados, como Thales. Figueiredo assinou um projeto de lei que excluía os que praticaram “crime de sangue ou atos terroristas”. Restrição que não valia para os que mataram e torturaram em nome do regime. No Congresso, foi negociada e alargada. Penosas negociações, que exigiram até um encontro secreto de Thales e Ulysses Guimarães com o general Golbery.

Com o fim do bipartidarismo imposto, Thales e Tancredo fundaram o PP, cansados do “frentão” peemedebista. Com a vinculação de votos, inventada para garantir a vitória eleitoral do governo, Tancredo e Ulysses refundiram seus partidos. Thales foi para o PDS. Frustrado o sonho das diretas-já, seria um articulador decisivo da candidatura de Tancredo pelo Colégio Eleitoral entre os dissidentes governistas. Deixou a Câmara para ser ministro do TCU, dizendo: “Afasto-me da política, não da cidadania”. Mas seguiria percebendo, como poucos, o rumo do vento.

LULA convidou dois governadores para acompanhá-lo à Europa. Ronaldo Lessa (PSB-AL) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). "Vou aproveitar para tirar a limpo o desencontro entre o que presidente acertou com os governadores na segunda-feira passada e o que estão dizendo ministros e líderes do governo", diz Cássio. Palocci vem dizendo que é impossível ceder aos estados fatias da CPMF e da Cide.

Tereza Cruvinel


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