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Rio Branco - Acre, domingo, 13 de julho de 2003

Um novo seringal

ELSON MARTINS

O seringueiro Nilson Mendes, da colocação Retiro 2 do seringal Cachoeira, em Xapuri, está empolgado com os primeiros resultados do projeto de exploração de madeira certificada pelo FSC, o mais conceituado sistema de certificação florestal do mundo. Ele é um dos 19 moradores envolvidos no projeto fiscalizado pelo Imaflora, de um total de 75 famílias que vivem na área, e seus cálculos são otimistas:

- A renda anual de uma colocação como a minha, com cerca de 300 hectares, corresponde a R$ 1.500 pela produção de 400 latas de castanha, de 18 litros; e mais R$ 500 por uma média de 500 quilos de borracha. Com a madeira certificada, entretanto, eu obtive R$ 10.000 de renda pela produção de um ano, com a exploração de poucas espécies. Imagine se envolvemos a comunidade inteira nisso - relata o seringueiro.

Atualmente com 40 anos de idade, Nilson cursou apenas até a quarta série do antigo primeiro grau, mas fala como um engenheiro florestal, ou um biólogo, com segurança incrível sobre a nova atividade. É que ele não perde um só treinamento dos técnicos do Ibama, do Governo do Estado ou do Imaflora e também participa de palestras em universidades somando o aprendizado técnico à sua enorme vivência na floresta.

Na colocação, onde vive com a mulher e os filhos, muita coisa está mudando. Ele não desmata para fazer novos roçados e os nove hectares que havia aberto antes já cobriu todos com os sistemas agroflorestais. Ao mostrar as capoeiras faz questão de sobrepor-se com o conhecimento que tem da floresta:

-Vejam vocês, disse a um grupo que o visitou em maio: esta área de oito anos foi replantada com orientação e mudas fornecidas pelo Ibama. Agora esta aqui, tem apenas três anos e foi plantada por mim com sementes e mudas colhidas na floresta. Está mais alta e tem de tudo. Então, eu observo, eu vejo que o sistema natural tem um comportamento melhor. E estou provando que uma mata secundária pode resultar numa grande riqueza para o futuro. Eu recuperei uma capoeira com 72 espécies fazendo apenas duas roçagens seletivas ao ano, para retirar os cipós.

Em vez do balde para transportar o látex e da poronga para iluminar os caminhos da mata à noite, Nilson anda agora com mapas, tabelas e GPS, instrumento que localiza pontos (árvores) com ajuda de satélite. Na sua área as árvores com diâmetro maior de 40 cm que têm valor comercial e podem ser retiradas num prazo de até 30 anos, estão mapeadas e com placas indicativas. O seringueiro carrega um relatório com as identificações e as denominações “mãe”, “filha” e “neta”.

O mapeamento autoriza a exploração de um terço ou 100 hectares da área total, com rigoroso manejo fiscalizado pelo Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola); e de quatro árvores de uma determinada espécie podem ser retiradas apenas três, no espaço de 10 anos. O projeto do Cachoeira trabalha hoje com 22 espécies absorvidas pelo mercado, mas a cada dia vem surgindo novas espécies que não eram valorizadas antes e que aumentarão a produção e a renda.

Nilson está comparando o projeto de madeira certificada a um novo tipo de “empate” contra a derrubada da floresta. Isso porque os seringueiros estão percebendo que podem manejar florestas com o conhecimento que possuem enriquecido com o ensinamento técnico, ficando cada vez mais atentos para as mudas de espécies valiosas (cedro, mogno, cumaru ferro, Angelim, samaúma, breu, entre outras) que encontram no mato, para plantar nas clareiras e nas capoeiras. Nilson até começou a comprar gás em Xapuri, segundo afirmou, para não ter que derrubar mais nem vara para fazer lenha. Pode ser um exagero ou simples retórica, mas ele é esperto e começa a enxergar outros meios de aumentar a renda em sua colocação:

-Aqui nessa mata secundária que estou recuperando vou manter um bananal só para produzir bananas para os macacos. Quero os bichinhos por perto sem medo da gente. As palmeiras de ouricuri vão produzir cocos para as cotias e os quatipurus. As cabas e as mariposas, também ninguém vai mexer com elas porque além de serem comida dos macacos, elas comem os fungos das espécies vegetais em crescimento. Estou pensando em construir uma pousada ao lado da minha casa para receber turistas ecológicos.

Como guia turístico Nilson tem tudo para dar certo. Andando com o grupo por suas estradas de seringa, ele demonstrou quanto conhecimento acumula sobre os fenômenos da floresta, fantasiando um pouco, como até o seu famoso primo, o saudoso Chico Mendes assassinado em dezembro de 1988 fazia. Ele começou por recomendar que ninguém se arriscasse a uma brincadeira comum entre os que vivem na cidade: balançar um arbusto orvalhado para molhar o que vem atrás. Em vez do orvalho, explicou, pode cair uma cobra papagaio super-venenosa que dará uma picada mortal. Ou então uma formiga tucandeira cuja ferroada causa febre, vômito e muita dor.

Numa picada onde estão as madeiras certificadas para exploração, identificou em seguida várias espécies vegetais e movimentos da floresta:

-Essa árvore aqui é intocável, é um mulunguzeiro. A semente dá um cinto que é uma maravilha. O macaco quebra para comer as castanhas dentro. A árvore que tiver essa abelha aí, chamada coração de negro, é intocável. Deixei de cortar um breu cetim, autorizado, porque tinha essa abelha no tronco. O açaizeiro é o melhor remédio contra picada de cobra. Pega-se um pedaço do talo, próximo da palha, marreta até dar um suco que você toma num copo improvisado em folha de sororoca. Uma colher de suco já resolve. Olha só...essa fieira de formigas. É a formiga jacamim. Cuidado, não espatifa não que são brabas! Elas correndo desse jeito, de montão, estão anunciando que vai cair chuva. Com dois, três dias, arreia o tempo.

Antes de chegar a colocação de Nilson Mendes, rodando numa camionete pela estrada de terra, o grupo observou uma casa muito bem acabada, com açude ao lado e uma antena parabólica de TV. “É um seringueiro que vive aí”, informou Nilson, acrescentando: “Ele está muito bem com telha de alvenaria, uma vaca para tirar o leite, galinha para comer ovo, a castanha (quase mil latas por ano) e tem o manejo florestal. Pra que melhor”?

Dos 15 milhões de hectares que formam o Acre, 90% estão ainda cobertos por florestas, uma riqueza difícil até de ser mensurada. Vista sob a perspectiva do aproveitamento madeireiro com certificação, já seria fantástica: o banco de dados da flora acreana, segundo o Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado já possui 10 mil registros, “600 dos quais estão sendo estudados quanto a sua categoria de uso”.

Mas o melhor, certamente, fica por conta do que os povos da floresta, do qual Nilson faz parte, - sabem e podem fazer.

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