
Apelo
Florentina Esteves *
Há uma cena que nos descorçoa, cada vez
que nos deparamos com ela: a de umas índias velhas, ou cercadas de
filhos, a esmolar na rua. E têm até seu ponto certo: perto dos
banco. Uma já me é familiar, tantas vezes a encontro. Pois até
em Brasiléia a vi, numa recente viagem que fiz àquele município.
É magra, descarnada, um rosto um tanto anguloso, fugindo ao estereótipo
de sua raça. Tem um modo de pedir esmola que a torna peculiar, esgarçando
a boca e semicerrando os olhos, como quem vai chorar. Quando lhe dou um trocado,
primeiro ela olha quanto é, para depois agradecer, a efusão
de acordo com a generosidade.
Todas as vezes que lhe dou esmola, fica-me aquela sensação desconfortável
de algo que não deveria ser feito. Mas se a caridade não estende
a mão a essas índias, de que viveriam ela? Desconheço
completamente a quem compete, em nosso Acre, a direção da Funai.
Desconheço que ou quanto, porventura, já tenha sido feito para
debelar esse problema. Mas sei que ele não poderia nem deveria perdurar
por todo esse tempo em que venho observando-o. Especialmente agora que tanto
se fala em fome zero e em defesa dos índios.
E neste espaço, onde procuro interpretar o pensamento ou as demandas de nossos concidadãos, lanço o apelo: vamos fazer alguma coisa para acabar com essa chaga viva de nossa cidade? Nada a justifica. Especialmente quando nos damos conta de que, tirante essas índias, não temos mendicância em Rio Branco. É bem verdade que, uma vez ou outra, vem alguém a nos pedir um trocado para a condução. Mas é alguém que nos inspira mais desconfiança que pena, porque cheira a esperteza. Será, realmente, pra condução? Ou pra tomar um gole ou um cheiro? Que praga maior que a mendicância é a droga, aí incluída o álcool. Escancaradamente, deparamos com meninos ou adolescentes a cheirar cola. Em baixo da ponte, num canto do mercado, até caminhando semcerimoniosamente entre nós, o povo. E voltamos a perguntar a quem compete coibir esse desmando social: vamos fazer alguma coisa?
Meus muito e muitos anos de vida, a maior parte vivida em Rio Branco, me autoriza a trazer aqui um testemunho que muito nos apraza: alguns anos atrás, era tradição nossa não termos mendicância nem droga. Esta, então, é recente. Traduzindo, não são práticas enraizadas em nossa sociedade. Portanto, torna-se menos difícil bani-las. Quer dizer, a mendicância. Quanto às drogas... quanto às drogas, o problema é mais sério e complexo. Ainda mais porque no rastro das drogas vem a violência. Tive ocasião de observar um rapaz que faz pequenos serviços em minha casa: um “gentleman”. Educado, calmo, trabalhador, prestimoso. Pois bem, fins de semana ele bebe. E fica irreconhecível: valente, agressivo. Quando não parte para o extremo oposto: depressivo. Nessas horas até desconfio que além da bebida ele faz uso de drogas. E deploro sua dependência. Não fora isso, seria um rapaz exemplar, em quem se poderia confiar de olhos fechados.
A maior incidência de atos de violência se dá nos fins de semana, justo porque as pessoas se acham autorizadas, na sua folga, no seu lazer, a extrapolar. Não basta descansar, se divertir, têm que apelar para a privação do sentidos, através da bebida ou da droga. Lamentável. E não sou tão otimista assim quanto à violência. Haverá um componente na personalidade de nossa gente (incluindo até as mulheres) que as leva a essa fuga, fato que nos conduziria a um estudo mais profundo desse comportamento, a que não estou afeita.
Abrir um jornal nosso no começo da semana, já se sabe: é um banho de sangue as notícias dos acontecidos no fim de semana. E aí incluiríamos, além dos assassinatos, os acidentes, as brigas, o assaltos, as tentativas de homicídio, os seqüestro, os estupros.
Os estupros – eis outra chaga nossa. Ficamos estarrecidos com a bestialidade de nossos homens, que não poupam sequer as crianças ou idosos. E eis a perversão de comportamento que mais difícil custa coibir. Porque ela é praticada na surdina, nos lugares esconsos, até no recesso do lar. Como reprimi-la? Nem todo um tratado de psicologia ou sociologia o explicaria. E só encontro a originá-la a privação dos sentidos, em razão das drogas ou da bebida, além – é claro – de uma má formação de caráter.
Enfim, depois de toda a digressão acima, voltamos a nosso ponto de partida: vamos fazer algo para tirar nossas índias da mendicância?
* Professora e Escritora