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José Augusto Fontes
A paixão veio. Chegou como uma manhã, mas diferente da de ontem, porque hoje há o canto de um pássaro. Manhãs chegam todo dia, mas nem sempre há canto de pássaro. Era esse o momento de uma vida. Momento tão marcante que preenchia a vida e passava dela, indo adiante, passando do instante, até voltar de lá.
O desejo cortou esse amanhecer como um raio que muda a paisagem. O desejo está na paixão, mas rasga e penetra, indo profundo até alcançar a raiz e o futuro. Embora não emudeça o pássaro, envolve seu canto, cria dissonantes e arranjos, produz ecos e reverberação, dá ritmo e evolução. O desejo orquestra a paixão.
Instala-se o amor quando cai a tarde e o pássaro voa alto. Não é apenas profundo, está em tudo, estando além. Tão visível quanto o raio, mas já sem a clareza das manhãs. A noite é misteriosa, é para ser possuída lentamente. O amor quer ser desvendado. A cada manhã, na música dos pássaros, um amor sutilmente renovado.
Paixão, desejo, amor, todo pássaro leva nas asas, todo canto faz sentir. Manhãs e noites, momentos da vida, que de tão sentidos, passam dela. É o mistério do ciclo. Manhãs nascem todo dia, mas nem sempre há canto de pássaro. Se há, nem sempre será o mesmo pássaro, nem o mesmo canto. Embora continuem nascendo manhãs.
Após noites, sempre manhãs e outras manhãs, umas fingindo que nascem, outras fingindo que morrem. Um amor que ressuscita, o canto que embala outro desejo, um vôo alto que apaixona. O ciclo precisa prosseguir. Outras manhãs nascerão. Mas nem sempre à vista dos olhos. Nem sempre à vista dos mesmos olhos.
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