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Rio Branco - Acre, sábado, 26 de julho de 2003

Retrato do consumo

O consumo brasileiro neste primeiro semestre caiu mais nas regiões metropolitanas do Rio e São Paulo do que no resto do país. No interior de São Paulo e no Sul, o consumo até cresceu em volume. Dos produtos que tiveram aumento de volume de vendas, 55% deles eram de marcas de baixo preço. Estes e outros dados estão no relatório da ACNielsen que será divulgado na semana que vem.

Um semestre difícil em que houve uma forte desaceleração do consumo, mas o país ainda não entrou em recessão. É o que mostra o relatório da consultoria que monitora o consumo de 150 produtos em quase todo o país. E é isso também que a coluna confirmou em conversa com empresários. Vários não querem comentar o segundo semestre, porque são empresas de capital aberto, mas admitem que o segundo trimestre foi pior do que o primeiro.

Os dados da ACNielsen mostram que, nos 12 meses terminados em abril, havia um aumento de vendas de 5,4%. Nos 12 meses terminados em junho, o crescimento foi menor: 3,4%. No primeiro semestre contra o mesmo período do ano passado, o aumento registrado é de apenas 1,3%.

— Não houve um vilão, mas alguns produtos tiveram quedas fortes. A venda de óleos vegetais e azeite caiu 7% no semestre; de açúcar, 4,4%; maionese, 4,4%; sabão em barra, 4%; arroz, 2,9% — afirmou Ari Gonzalis, diretor comercial da ACNielsen.

O maior aumento de vendas ocorreu no grupo higiene, saúde e beleza. O mercado de sabonete movimenta R$ 1 bilhão por ano e o de produtos para cabelo, R$ 1,8 bilhão, segundo Ival Dias da Gama, diretor de marketing da Unisoap, empresa estrangeira, mas com sócio nacional e que já está em segundo lugar no mercado, logo depois da Colgate Palmolive. A estratégia da empresa é misturar “luxo massivo” com a entrada em novos mercados.

— Luxo massivo é o que fazemos com o sabonete Francis, um produto acessível, mas que tem luxo — diz, informando também que preparam lançamentos de produtos de baixo preço e uma linha para cabelo, para manter o ritmo de aumento de vendas, que tem chegado a 40% ao ano.

A ACNielsen verificou também mudanças de hábitos de consumo. “Do total de categorias analisadas, observa-se que 55% das marcas que ganharam participação no mercado são de baixo preço, e só 18% dos que aumentaram são marcas de alto preço”, diz o relatório.

As empresas estão reagindo com segmentação de mercado e lançamentos.

— É um semestre difícil, mas conseguimos, no primeiro trimestre, aumentar as vendas em 6,5%. Aumentamos as vendas em produtos de maior valor agregado e fizemos vários lançamentos — conta Fernando Tigre, presidente da Alpargatas.

A Coca-Cola, para enfrentar a competição de marcas bem mais baratas, está fazendo mudanças como a de voltar a usar embalagem retornável. Seu concorrente lançou a Pepsi Twist, aproveitando a idéia do limão misturado à bebida, e aumentou as vendas.

Para vender neste momento difícil, é preciso reduzir margem e realizar os sonhos do consumidor. É por isso que, em alguns produtos, há aumento de vendas, mesmo neste ambiente recessivo. Mas os dados agregados são mais eloqüentes:

— A região do país onde o consumo teve o pior desempenho neste primeiro semestre foram as Grande São Paulo e Rio, onde o cinturão de pobreza é maior. Já o interior de São Paulo é a segunda área onde mais subiu a venda — diz Gonzalis.

Há outros fatos curiosos. Numa lista de produtos que a ACNielsen considera básicos, onde tem arroz, açúcar, café, a queda do consumo aconteceu antes da lista de produtos definidos como complementares — que vão de refrigerantes a inseticida. Nos últimos meses, os básicos se recuperaram e os outros caíram mais.

Tanto empresas quanto consultores estão esperando que a situação melhore a partir de setembro. “As expectativas de melhoria do consumo estão depositadas nos dois últimos bimestres”, diz a ACNielsen.

A TAXA DE emprego das empresas brasileiras de tecnologia caiu 8,3% em 2002: cerca de 20 mil postos de trabalho foram fechados. Esses números estarão na 6 edição do INFO200, ranking organizado pela revista “INFO” para mapear as maiores empresas do setor no país.

CAIU, também neste mês, o Índice de Expectativa do Consumidor medido pela Fecomércio-RJ. Em junho, a queda já fora de 1,18%, mas, em julho, ela se acentuou: foi de 2,05%. Na comparação com o ano passado, houve uma redução de 4,89%. Os piores números vieram na sondagem sobre expectativas futuras.

A COLUNA do Ancelmo Gois publicou ontem que a Alpargatas está namorando a Azaléia. Fernando Tigre comentou mineiramente: “Quem não gostaria de namorar a Azaléia? Mas não há nada de novo.”

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão com Débora Thomé
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