
Pensar além do cangote
Juliana Külfing *
O que é educar? Qual o papel do educador? E ao educando, o que lhe compete? Estamos preparados para sermos educados?
Ser um educador não é tarefa fácil, é preciso além de conhecimento e domínio da matéria, ter sensibilidade para descobrir o modo como os alunos aprendem, a forma como eles interagem entre si, quais são os seus interesses, suas vivências, suas expectativas, entre outras.
Trata-se de uma relação de “via dupla”, onde o discípulo aprende com o mestre e este é realimentado pelo pupilo. Nesta relação, o educador perdeu a postura auto-suficiente de quem domina o saber e por isso, determinava as regras do jogo e do aprendizado.
As instituições de ensino deixaram de ser um quartel de disciplina rígida, com regras pré-estabelecidas - de leituras dirigidas, de vigilância e punição - onde os alunos eram “soldadinhos de chumbo” que sentavam-se em fileiras, donde não lhes era permitido olhar/pensar além do cangote do colega.
Hoje se desfaz esta sociedade disciplinadora, militarizada e autoritária, como diria Michel Foucault. Temos um novo perfil de professor e aluno, que pretendem compartilhar vivências e experiências.
Hoje sabe-se que sabedoria também é a popular, a adquirida em casa, na família, tendo em vista que o saber é um aprender constantemente, através dos sentidos, das percepções, das vivências, das emoções...
Por isso, o educador contemporâneo tende a ser um mediador, um elemento de conexão e interação das discussões. Ele traz as problemáticas para serem trabalhadas em sala de aula e, com sensibilidade, estimula os alunos a falarem, a pensarem, a partilharem suas dúvidas, sem medo de errar. Nesta lógica, não há certo ou errado, há apenas concepções e entendimentos diferentes e algumas vezes, antagônicos.
Observem, essa troca entre professor e aluno precisa ser sincera, pretendendo, sempre, construir um ambiente propício para o crescimento, para o desenvolvimento intelectual, social e cultural entre as diferentes pessoas envolvidas. Assim, há de se buscar um lugar onde seja possível partilhar as responsabilidades, em que as regras comuns sejam permeáveis, em que haja reciprocidade, solidariedade, reconhecimento da alteridade, enfim, democracia.
Isso não significa abolir as regras, ou que o professor não deva ser respeitado. Muito pelo contrário, toda democracia pressupõe a existência e o respeito as normas pré-determinadas.
Dessa forma, professores e alunos são parceiros do mesmo jogo, e aos discentes cabe cumprir o seu papel, se preparando para as aulas, intervindo, questionando, rebelando-se, modificando os conceitos pré-estabelecidos, criando novas alternativas, quebrando paradigmas, instigando o professor a estudar, a se preparar para as aulas.
Como diz Paulo Freire, “não há docência sem discência”, não há professor bom quando os alunos não interagem, não estão dispostos a aprender... mais uma vez, educar/aprender é uma troca, é um dar e receber, é um construir em conjunto.
Assim, é necessário que professores e alunos transformem as rebeldias, as inquietações, as desobediências, as turbulências, as desordens originado nas discussões em conhecimento, em ciência, em uma nova ordem.
Uma nova ordem que deixe de lado as aulas dogmáticas e magistrais - nas quais só o professor fala, pensa, sabe - para aulas onde os alunos criam os seus conceitos e significados, tragam as suas dúvidas, as suas limitações, as suas observações, as suas expectativas, para com os colegas e, mediados pelo professor, possam compreender e transformar o meio.
Esta é a riqueza do aprendizado, a mistura de percepções, de tradições, de culturas, de respeito pelas idéias, pelas origens, pelos conceitos e pré-conceitos, possibilitando a construção do novo, a construção do conhecimento....
Estamos fazendo a nossa parte como professores e alunos?
* Advogada e professora da FIRB