Juracy Xangai
Religião e cultura diretamente ligados ao meio
ambiente foram os principais elementos que levaram à criação
da Área de Proteção Ambiental (APA) Irineu serra.
Foi a comunidade que, através de abaixo-assinado entregue ao
prefeito Raimundo Angelim ainda no ano passado, propôs a criação
dessa unidade ambiental.
Tudo começou com a liderança pioneira
do mestre Irineu Serra, que construiu o culto do Santo Daime, dando
origem à comunidade, que hoje atrai a atenção do
mundo pelo seu modo alternativo de viver em pleno equilíbrio
com o meio ambiente na busca do aperfeiçoamento espiritual. Prova
disso é que em sua Apa estão alguns dos trechos mais bem
preservados das margens do igarapé São Francisco.
Tanto é assim que nos levantamentos preliminares
foram identificadas ali 60 espécies animais, sendo 32 de mamíferos,
cinco de répteis e 34 pássaros e aves. Também foram
identificadas 73 espécies vegetais nativas.
A partir de agora a comunidade formará um conselho
gestor que irá administrar a área e, para isso, será
elaborado um plano de uso dos seus recursos naturais. “Uma das
vantagens da APA é que nela não se faz a remoção
dos moradores e eles continuam sendo donos de suas propriedades, devem
apenas seguir algumas regras básicas para evitar danos ao meio
ambiente”, explica Vângela Nascimento, coordenadora de parques
públicos e educação ambiental da Secretaria Municipal
de Meio Ambiente.
Na APA pode se realizar as mais diversas atividades
como ecoturismo, agricultura, lazer, e pousadas.
No caso do Irineu Serra, a valorização
de sua cultura religiosa, que apresenta um profundo respeito ao meio
ambiente, a comunidade já definiu que não vai transformar
a área de seus templos em ponto turístico para evitar
que sua religião seja desvirtuada. Mas projeta a construção
de pousadas, trilhas e acampamentos para que as pessoas possam apreciar
a natureza com conforto e segurança.
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Velho Chico ganha mais respeito e proteção
da comunidade
Velho Chico ganha mais respeito e
proteção da comunidade
Escorrendo por um trecho de cem quilômetros, as
águas do igarapé São Francisco passam por uma área
habitada por 259 mil pessoas nos municípios de Rio Branco e Bujari.
Lixo e entulho doméstico e industrial jogados
às suas margens, que também sofrem com a derrubada da
mata ciliar e os esgotos que poluem suas águas, são alguns
dos desafios para a preservação deste que é um
dos poucos mananciais de água capaz de ajudar no abastecimento
da capital.
A criação da área de Proteção
Ambiental (APA) do igarapé São Francisco cria mecanismos
para a proteção permanente dos 30 mil hectares que se
estendem ao longo de suas margens. Sua área de influência
atinge 17 bairros de Rio Branco, onde vivem 253.059 pessoas e mais 5.826
no Bujari.
Levantamentos preliminares identificaram ali 29 espécies
de mamíferos (cinco delas ameaçadas de extinção),
150 de pássaros e aves e 26 de anfíbios.
“A partir da criação da APA, estabeleceremos
critérios de uso da área, sobretudo para evitar a instalação
de empreendimentos que venham causar impactos negativos ao meio ambiente.
Outra vantagem é a de que as famílias permanecerão
vivendo ali como proprietárias de suas terras, poderão
usá-las para gerar ocupação e renda nas áreas
do ecoturismo, restaurantes, pousadas, acampamentos e o que mais lhes
convier”, explica Magaly Medeiros, gerente de zoneamento ecológico
e econômico do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).

Macacos fazem a alegria de Quininha e seus filhos à margem do
São Francisco
Vivendo em harmonia com a natureza
Quando comprou sua casa na Vila Ivonete, próximo
às margens do igarapé São Francisco, Antônio
Saady Sobrinho, 56 anos, o “Quininha”, pai de três
filhos e bacharel em administração de empresas, logo descobriu
e começou a alimentar bandos de soins, bigodeiros e taboquinhas
que habitam a mata ciliar.
O capinzal que antes dava abrigo a marginais que faziam
dali local de consumo de drogas foi reflorestado com árvores
frutíferas que alimentam os animais e fazem a alegria da família,
que colhe cachos de bananas e outras frutas produzidas ali, exclusivamente,
para dar aos macacos que todos dias chegam aos bandos em horários
regulares.
“Para nós é um prazer saber que
estou podendo contribuir para preservar e melhorar a vida desses animais.
Com o desmatamento e a ocupação das margens, a alimentação
para eles está cada vez mais rara. Eles chegam em vários
bandos de soins, o menor deles tem cinco membros e o maior uns 12, também
há vários de bigodeiros e uma família de taboquinhas.
Os macacos da noite viram a madrugada colhendo acerolas e pitangas aqui
ao lado da varanda e de tão acostumados com a gente até
comem na minha mão”.
Mas nem tudo é alegria, conforme explica Quininha,
lamentando que há pouco mais de dois anos, um grupo de caçadores
do Pará esteve em Rio Branco e apreendeu muitos macacos daquela
área para vender como animais de estimação e que,
apesar da denúncia dos moradores, não foram impedidos
pelos órgãos de fiscalização.
Outra queixa é por causa do esgoto do Saerb que
escorre de seu quintal até o igarapé. Também há
a poluição é um posto de lavagem de carros que
derrama óleo, sabão e ácidos que enegrecem suas
margens, matando a vida em suas águas.
Ele também teve sua casa invadida pela última
alagação causada pelo represamento das águas do
igarapé por causa do acúmulo de lixo.
“Espero que com a criação da APA
esses e outros problemas sejam resolvidos”, enfatizou.
Animais silvestres geram renda a pequenos produtores
e índios
A criação pacas, porcos-do mato, jabutis,
tracajás, mutuns, pirarucus e outros animais silvestres por pequenos
produtores rurais e comunidades indígenas está sendo estimulada
pela gerência de manejo comunitário de fauna da Secretaria
de Assistência Técnica e Extensão Rural (Seater).
Além de aumentar a oferta de proteína para essas famílias,
a criação desses animais reduz a pressão da caça
na floresta e ainda produz uma boa perspectiva de ganho econômico
com sua comercialização.

Animais silvestres geram renda a pequenos produtores
e índios
A primeira criação de porcos-do-mato,
o Mãe da Mata, surgiu no seringal Cachoeira, onde nasceu e viveu
o sindicalista Chico Mendes. Queixadas também são criadas
no projeto Mapinguari, que se localiza na estrada de Sena Madureira,
e pacas no Recriando, no ramal Nova Aldeia, projeto de colonização
Peixoto. O projeto Tatu-Paca, em Brasiléia, está produzindo
pacas e jabutis.
Mais duas criações -
a do Jarinal, que vai dedicar-se à produção de
porcos-do-mato, e outra, ainda sem nome, que vai dedicar-se à
criação de pacas no quilômetro 86 da BR-317 da estrada
de Boca do Acre - estão sendo regularizadas.
Em parceria com o projeto de aqüicultura do Sebrae,
a gerência comunitária de fauna da Seater iniciou no ano
passado o trabalho de coleta e proteção de ovos de tracajás
em 12 aldeias kaxinawas do rio Purus. A equipe atende ainda projetos
de criação de tracajá dos índios kaxinawas
em cinco aldeias do Humaitá e outras sete do Carapanã,
ambas em Tarauacá. Há ainda a criação de
porcos-do-mato e tracajás entre os yawanawas do rio Gregório.
Além da criação de porcos-do-mato nas três
aldeias manchineri de Assis Brasil, vem sendo feita com sucesso a reprodução
de mutuns, que equivalem aos perus da Amazônia.
A comunidade seringueira do Cazumbá, em Sena
Madureira, é a única do Brasil que recebeu autorização
do Ibama para realizar o manejo de pacas e araras no próprio
meio ambiente. Em sistema semi-extensivo eles também criam jabutis,
capivaras e porcos-do-mato, além de manterem um tanque para a
reprodução e engorda de tracajás.
Tem aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente
os recursos necessários para a construção de um
abatedouro de animais silvestres e de um frigorífico.
Por conta própria, os índios ashaninka
do rio Amônea, no município de Marechal Thaumaturgo, visitaram
a criação de tracajás da Associação
dos Moradores de Plácido de Castro (Amplac), que está
fazendo o repovoamento do rio Purus e aplicando as mesmas técnicas
na aldeia de Apywtxa, e conseguiram o nascimento de 100% dos ovos coletados.
Nessa aldeia também é feita a criação de
abelhas sem ferrão, cujo mel alcança preço de pelo
menos R$ 60 o litro no mercado.
Índios kulina, arara, jaminawa, arara e apurinã
também estão buscando orientação sobre como
criar animais silvestres. |