ENCARTE ESPECIAL
 ENCARTE ESPECIAL
Acreanidade: discurso político ou sentimento de um povo?  


Marcos VicenttiLeonildo Rosas
Fotos: Marcos Vicentti

Nos últimos anos muito se tem falado de sentimento de acreanidade. Bandeiras em obras públicas, em carros particulares e casas parecem dar sustentação à propaganda oficial e da iniciativa privada, que enaltece o orgulho de ser acreano.

Mas será que há razão para essa manifestação? O Acre é um lugar que oferece oportunidades para os seus filhos ou valoriza apenas aqueles que chegam de outros Estados e quase sempre ocupam os melhores postos de trabalho? É algo que nasce da alma do povo ou é simples propaganda do grupo político que está no poder?

São questões de difícil resposta e é preciso mergulhar na história para tentar respondê-las. É certo que o governo estadual investe pesado na mídia. Cria símbolos e constrói mitos. Essa tarefa ficou fácil porque no início da atual gestão o Acre se encontrava à beira da falência econômica e moral. Todas as notícias referentes ao Estado envolviam escândalos financeiros, políticos e sociais.

Mas desde a primeira insurreição comandada por José de Carvalho, passando pela República Independente do espanhol Luiz Galvez, pela Expedição dos Poetas, pela Revolução Acreana capitaneada pelo gaúcho Plácido de Castro e pelo movimento dos autonomistas, o Acre passou por grandes batalhas e até hoje luta para se firmar como uma unidade federativa independente.

Essa luta permanente talvez seja a grande responsável pelas raízes profundas de acreanidade fincadas naqueles que nasceram no Estado ou que, por um motivo ou outro, resolveram se estabelecer por aqui.

É uma história com poucos mais de 100 anos e em construção, mas que conta com guardiões como o comerciante amazonense Artur Sena, 62, que saiu do seringal onde morou até os 48 anos para ajudar a montar o acervo da Revolução Acreana em Porto Acre, a cidade onde tudo começou.

Até sair do seringal Pirapora, Artur Sena não havia tido qualquer contato com a história do Acre. Começou a se familiarizar ouvindo relatos dos antigos e novos moradores do município. "Hoje, se vier um historiador, tudo bem. Mas professor de história, prefiro eu falar", diz.

Ex-subprefeito de Porto Acre, Sena passou a cuidar da Sala Memória construída pelo governador Edmundo Pinto meio por acaso. Ao chegar, o local tinha apenas 51 peças. Hoje tem mais de 1.200. A média diária de visita era de seis pessoas. Atualmente é de 280 visitantes, que vêm de várias partes do Brasil e do mundo.

Mas convencer os moradores sobre a importância de doar as peças históricas que estavam guardadas em casa não foi tarefa fácil. Sena precisou usar de mecanismos para atrair os jovens, que, por sua vez, convenciam seus pais a entregar as peças. A estratégia utilizada foi sortear um fogão de duas bocas, uma panela de pressão e uma assadeira de bolo. "Em 17 dias consegui arrecadar 380 peças", relembra.

Marcos Vicentti
Arthur Sena diz que Sala Memória é parte do seu corpo

Artur Sena revela que voltou a utilizar a estratégia de sorteio por mais duas oportunidades, porque sabia, que segundo ele, que até hoje é possível encontrar em qualquer quintal de Porto Acre resquícios históricos do governo de Galvez. Depois, os moradores foram se acostumado a levar à sua apreciação aquilo que julgavam importante para enriquecer o acervo.

"Eu acho que fui um batalhador para preservar essa memória. Se eu não tivesse assumido, talvez tudo tivesse se acabado", comenta.

Hoje, Sena acredita que o resgate do acreanismo se deve muito ao fato de o Acre ter conseguido criar uma nova imagem positiva em nível nacional e internacional. Segundo ele, as notícias ruins sobre o Estado espantavam quem pensava em fazer uma visita ou se estabelecer. "Hoje é diferente. O Acre é um Estado para todos, dependendo da intenção de quem vem usá-lo", ensina.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 27 de novembro de 2005
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A