O Acre é um Estado formado durante três grandes ciclos
migratórios. O primeiro se deu a partir de 1880, quando começaram
a chegar as primeiras pessoas para povoar a região. A maioria
dos desbravadores era de nordestinos fugindo da grande seca que assolou
aquela região naquele período. Mas não vieram somente
eles. Também desembarcaram brasileiros e estrangeiros de todas
as partes. Destaque para sírio-libaneses, espanhóis, portugueses,
italianos e até judeus. Foi um período de grande movimentação
até 1912.

Eram pessoas que vinham acreditando na possibilidade
de construir fortuna fácil, pois o Acre era um lugar onde se
podia juntar dinheiro com o "cambito", segundo propaganda
da época.
Também vieram fugitivos dos movimentos políticos,
como Canudos e da Revolução Federalista no Rio Grande
do Sul. "Miseráveis e perseguidos políticos de todo
o Brasil vieram para o Acre. Ou atrás de fortuna ou de liberdade",
explica o historiador Marcos Vinicius Neves.
Após o fim do primeiro ciclo da borracha, ficaram
aqui apenas aqueles que queriam a liberdade. A eles se juntaram presos
libertados dos presídios do Rio de Janeiro, marinheiros da Revolta
da Chibata e políticos derrotados nos seus Estados que eram nomeados
para exercer funções na fronteira. O Acre deixou de ser
buscado e virou exílio.
Durante a Segunda Guerra Mundial veio o outro ciclo.
Foi mobilizado um novo exército de retirantes por meio de propaganda
oficial. O governo estava de olho na possibilidade de obter empréstimo
para montar seu parque siderúrgico e comprar equipamentos bélicos.
Por isso, assinou com o governo americano, em 1942, o Acordo de Washington,
em que concordava permitir a instalação de uma base americana
em Natal (RN) e garantir o fornecimento de alumínio, cobre, café
e borracha, uma vez que os seringais da Malásia, que eram controlados
pelos ingleses, estavam bloqueados pelo Japão.
Após o fim do primeiro ciclo da borracha, os
seringais estavam abandonados e falidos. Ficaram poucos mais de 35 mil
trabalhadores e o governo precisava de 100 mil para fazer saltar a produção
de látex de 18 mil para 45 mil toneladas/ano.
Por meio da propaganda criada pelo artista plástico
suíço Pierre Chabloz, o governo do presidente Getúlio
Vargas conseguiu recrutar 55 mil trabalhadores, a maioria do Ceará,
que, por ser diferente de Estados como a Bahia e de Pernambuco, não
recebeu muitos negros e isso garantia a manutenção de
um perfil étnico na Amazônia.
Os nordestinos foram trazidos com a promessa de dias
melhores. No discurso oficial receberam o grau de importância
dos pracinhas que foram lutar na Itália. Mas, na prática,
isso não aconteceu. Estima-se que mais de 30 mil pessoas morreram
naquela que é considerada a Batalha da Borracha. Para piorar,
com o fim da guerra os sobreviventes foram abandonados naquele que seria
o grande Eldorado.
A terceira grande onda migratório para o Acre
veio a partir de 1970. A propaganda agora era do governo estadual. O
foco do desenvolvimento mudou com a nomeação de Francisco
Wanderley Dantas para o governo. Visando povoar o Estado, ele fez uma
forte campanha no Sul do país vendendo o Acre como um "Nordeste
sem seca e um Sul sem geada".
A propaganda surtiu efeito. Logo vieram pessoas do Paraná,
Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo atrás de
terra boa e barata. Vieram colonos para os assentamentos, que não
tinham a menor relação com o meio ambiente. Vieram também
grileiros e especuladores que provocaram conflitos agrários e
a morte de dezenas de trabalhadores.
Foi um dos períodos mais nebulosos do Estado.
Mas a população local resistiu àquela que é
considerada a "paulistização" do Acre. "De
75 a 79, o Acre era um barril de pólvora prestes a explodir",
diz o jornalista Élson Martins, que fez cobertura no período
para o jornal O Estado de S. Paulo.
Um quarto ciclo migratório
está acontecendo
O historiador e arqueólogo Marcos Vinicius Neves
enxerga um quarto ciclo migratório para o Acre a partir de 1999,
quando, segundo ele, o Estado passou a ser reconstruído. A diferença
desse momento, na sua avaliação, é que não
estão mais vindo trabalhador expropriado, degredados ou quem
vem para pagar uma pena.
"É uma migração formada por
profissionais liberais, que buscam um nível de concorrência
menor. São pessoas que encontraram aqui maior facilidade para
o seu desenvolvimento", explica.

Para Marcos Vinícius, o Acre ainda tem traços
de Território Federal
Marcos Vinicius Neves entende que a sociedade acreana
ainda está em franca formação e que as universidades
instaladas no Estado não têm uma metodologia de ensino
voltada para o mercado. Ele argumenta que as universidades dos outros
Estados formam para o mercado, enquanto as acreanas, principalmente
a Universidade Federal do Acre (Ufac), simplesmente formam.
"As pessoas que estão chegando são
numericamente insignificantes, mas têm um grande valor qualitativo",
acrescenta.
Nascido no Rio de Janeiro há 42 anos, Neves pode
ser enquadrado nessa minoria qualitativa. Ele teve o primeiro contato
com o Acre há 11 anos. Nesse curto período de tempo, tornou-se
uma das referências no estudo da história do Acre. "Cheguei
aqui e me deparei com uma história rica e profunda. Mergulhei
nela. O Acre mudou minha trajetória de vida porque é um
lugar muito forte e ninguém passa por aqui impunemente",
destaca.
E é mergulhando na história que ele busca
explicar o sentimento de desconsolo dos acreanos com a falta de oportunidade
nos melhores empregos públicos e na iniciativa privada. Segundo
ele, durante todo período de território federal, os acreanos
não tinham vez porque as autoridades eram indicadas pelo Distrito
Federal. "Mas todos os governadores eleitos e indicados durante
o regime militar nasceram no Acre", comenta.
Na sua avaliação, a angústia de
ter seu espaço ocupado por quem chega de fora faz com que os
acreanos defendam uma situação de reserva de mercado.
Ocorre, diz, que os acreanos não conseguem concorrer com os que
vêm de fora num concurso público.
"O Estado ainda carrega o estigma de Território
Federal. O ódio contra os forasteiros só mudou as características
ao longo do tempo", salienta.
"Vim porque queria vingar a morte
do meu pai"
Antônio Rufino de Lima, 69, chegou ao Acre aos
13 anos de idade. Natural de Fortaleza (CE), veio porque soube que tinham
matado seu pai, um ex-cangaceiro de Lampião. "Vim porque
queria vingar a morte do meu pai", revela.
Ele veio depois do recrutamento realizado durante o
governo Vargas. Viajou vários dias de barco até chegar
no dia 2 de outubro de 1948. Aqui, descobriu que o pai estava vivo trabalhando
na colocação Esturro da Onça, no seringal Nova
Empresa. Também decidiu ser seringueiro depois que "amansou".

Violão é o companheiro inseparável
de Antônio
Foi cortando seringa que Antonio viveu até 1992,
quando veio morar na cidade após a morte da esposa Maria de Lourdes,
com quem viveu durante 39 anos. "Ela morreu, eu fiquei só
e resolvi vir para a cidade", revela.
Mas a vida na cidade não lhe trouxe felicidade.
Pensando em voltar para o seringal, ele pôs à venda tudo
que tem na pequena casa localizada no bairro Mauro Bittar, na periferia
de Rio Branco.
Ao lado da casa, ele passa os dias dentro de um pequeno
boteco vendendo cigarro, fósforo e banana frita. Mas o faturamento
é insuficiente para garantir a sobrevivência. Por isso,
sonha em fazer o caminho de volta para o seringal. "Quero voltar
porque aqui no Acre, terra que amo, só sei ganhar dinheiro no
seringal." |