O jornalista Élson Martins, 66, saiu do Acre em 1958 para estudar.
Andou por vários Estados, estudou belas-artes e cinema, fez um
curso técnico em química industrial e chegou a trabalhar
numa empresa de laticínio em Belém, onde também
se empenhou em montar um aparelho da Aliança Nacional Libertadora
(ANL), grupo de esquerda radical comandada pelo baiano Carlos Marighela,
junto com João Alberto Capiberibe e outros companheiros.

Elson Martins acredita que cumpriu o papel social
da imprensa
Em 1970, Capiberibe foi preso pela ditadura. Élson
Martins já tinha se mudado para o Amapá, onde também
foi preso durante uma semana.
O jornalismo entrou na vida dele em 1974, quando foi
indicado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto como correspondente
do jornal O Estado de S. Paulo. "Era o único meio de sobreviver.
Quem era fichado pela ditadura não tinha apoio nem dos amigos",
diz.
O trabalho desenvolvido no Amapá o credenciou
a vir para o Acre, onde começavam a eclodir conflitos agrários
de toda ordem. Martins retornou ao Estado no momento em que também
chegara ao governo Geraldo Gurgel de Mesquita. Era um período
em que o comércio de terra era bastante intenso.
"Quando cheguei, a cidade da minha memória
estava desfigurada. A cadeia tinha se tornado um hotel de forasteiros,
políticos e fazendeiros que estavam chegando. O Bar Cinelândia
era o encontro deles para fazer negócios. Até o cardápio
foi modificado para atendê-los", relembra.
Sem experiência em cobrir conflitos, foram esses
os pontos escolhidos por Élson Martins para colher informações.
Tudo era feito com muita cautela porque o poder de fogo de quem estava
chegando era grande.
Mas o trabalho do correspondente foi até certo
ponto facilitado pela mudança do governo, que tinha uma concepção
diferente do anterior Wanderley Dantas. Mesquita pôs freio na
especulação de terra e passou a respeitar as tradições
e os costumes locais. Uma das suas primeiras providências foi
mandar fazer um levantamento sobre os índios acreanos, que praticamente
estavam sendo dizimados pelos novos ocupantes.
"Se o Mesquita não tivesse sido governador,
o Acre teria sido outro. Provavelmente estaríamos iguais ou piores
que Rondônia", acredita.
Além de Geraldo Mesquita, Martins credita grande
parte da resistência à chegada do coordenador da Confederação
dos Trabalhadores em Agricultura (Contag), João Maia, ao Estado,
que conseguiu mobilizar os trabalhadores de forma a resistir à
invasão. O jornalista também destaca atuação
da Igreja Católica, por meio do bispo dom Moacir Grechi, que
incentivou as Comunidades Eclesiais de Base.
"Eu exerci o papel social da imprensa. Na medida
em que fui tomando conhecimento dos conflitos, minha origem amazônica
juntou-se com a minha ideologia e veio um forte sentimento de indignação",
salienta.
E foi trabalhando num grande jornal, enviando matérias
diariamente, que Martins ajudou o governador Mesquita a se convencer
de que toda a estrutura do poder estava comprometida.
O Acre, segundo ele, era formado por juízes querendo
ser fazendeiros, advogados querendo levar dinheiro em transações
e políticos conservadores acreditando que o progresso era somente
aquilo.
"Não tinha imprensa do lado do movimento
de acreanidade. O jogo era pesado. Até eu recebi proposta indecorosa
de um fazendeiro que me ofereceu uma casa na Habitasa. É claro
que recusei", revela.
A situação chegou a tal ponto que o próprio
jornalista, durante conversa com um advogado de fazendeiros, admitiu
que eles tinham vencido porque conseguiram as melhores terras, as melhores
casas e dinheiro suficiente para manipular da forma que bem quisessem.
Mas, resignado, o advogado respondeu: "Só iremos ter o poder
quando a gente puder contratar e demitir". Curiosamente, nunca
um não-acreano venceu eleição para governador.
Nova cultura - Hoje, o jornalista ainda
tem receio de uma nova cultura introduzida por pessoas que chegam e
não se inserem na alma do acreano. Ele acredita que aqueles que
chegam jamais terão o espírito de acreanidade porque têm
uma outra concepção do que é desenvolvimento. "Se
você olha para um quintal e não tiver árvore, não
é de acreano", ensina.
Para Élson Martins, a migração
vivida hoje no Acre se ampliou com outros atrativos baseados em uma
visão política de desenvolvimento capitalista. Na sua
avaliação, não é o Governo da Floresta que
está atraindo novas pessoas, mas é o tecnicismo exigindo
cada vez mais no mundo globalizado.
"O que existe atualmente é um confronto
de saberes. Quem chega, ensina e aprende."
Ser acreano virou virtude
No Acre desde 1978, o presidente da Federação
da Agricultura do Acre, Assuero Doca Veronez, diz que o estímulo
ao acreanismo pressupõe alguma rejeição a quem
não é acreano. Segundo ele, isso estimula um preconceito
inaceitável contra pessoas que, como ele, saíram do seu
Estado natal para construir a vida e criar os filhos no Acre.
"É extremamente constrangedor que nos coloquem
como estrangeiros", reclama.

Assurero Veronez fez questão que seus filhos
nascessem no Acre
Paulista nascido em Ribeirão Preto, Veronez considerada
estranho que o fato de ser acreano tenha virado virtude e qualidade,
com pessoas que tentam se promover e se qualificar ressaltando esse
fato, principalmente nos embates políticos. "Parece-me que
isso ficou mais fortalecido em 1990, quando houve a candidatura do engenheiro
Rubem Branquinho", diz.
Representante de uma categoria tida como a grande vilã
na década de 70, Veronez argumenta que os pecuaristas vieram
porque foram convidados para implantar uma atividade econômica
nova em substituição ao extrativismo falido.
Segundo ele, as reações contrárias
foram provocadas e estimuladas por segmentos políticos, que se
posicionaram contrários ao que foi classificado de invasão
dos paulistas. "Embora pareça natural, é um fato
inusitado brasileiros tentando impedir que brasileiros se estabeleçam
em terras brasileiras", salienta.
Apesar de reconhecer que hoje há uma relação
mais respeitosa, Veronez admite que ainda há um preconceito e
uma xenofobia muito grande contra quem chega ao Acre. Segundo ele, embora
haja manifestações públicas formais em favor de
quem vive há muito tempo no Estado, elas parecem muito pouco
sentimentais.
"Trouxemos, além das nossas famílias
e recursos, uma atividade nova, que, apesar de todas as críticas,
é a principal atividade econômica e a maior geradora de
emprego. Além disso, pusemos na mesa dos acreanos a carne de
melhor qualidade e a mais barata do Brasil."
Para boliviano, o Acre é o
Brasil inteiro
Juan Luiz Juarez Ponce, 43, deixou a cidade boliviana
de Cochabamba em 1982. Queria realizar o sonho de chegar à Índia
para praticar yoga. Não passou de Rio Branco, onde trabalha como
eletricista de automóvel, no bairro Conquista.

Juan sobrevive consertando veícsulos no bairro
Conquista
Depois de todos esses anos, Juan já não
se sente um audaz estrangeiro. Recentemente deu entrada no processo
de naturalização brasileira e diz que o sonho de ir à
Índia se concretizou espiritualmente, porque o mundo está
no seu interior.
Pai de uma filha de 18 anos, ele amplia a importância
da terra onde vive, quando diz que não precisa sair do Estado
para conhecer novos lugares. Para ele, a realização plena
é morar aqui porque o "Acre é o Brasil inteiro, haja
vista que é a união de muitos Estados". |