Apaixonado pela história do Acre, o desembargador Arquilau de
Castro Melo, 52, pode ser definido como um “acreanólogo”.
Estudante atento a tudo que diz respeito ao Estado, ele também
destina boa parte do seu tempo a ministrar palestras nas escolas públicas
e particulares. "Eu converso bastante com o povo e percebo que
até hoje a migração nordestina está muito
viva entre nós", afirma.

Arquilau defende que acreano também cuide
dos seus defeitos
Castro Melo diz que o acreano é um nordestino
e que no Ceará é possível ele se ver no espelho.
Essa imagem refletida também pode ser vista durante as palestras
que faz na periferia, quando as crianças participam mais ativamente
do que nas escolas particulares, onde a descendência é
diferente.
"Na periferia é onde ainda estão
nossos antepassados contado a história para os filhos e netos",
acredita.
Relembrando os conflitos agrários do início
da década de 70, o desembargador afirma que o acreano e sua história
foram colocados em xeque, mas foi possível reagir graças
ao fortalecimento do acreanismo naquele período.
O desembargador enxerga uma migração silenciosa
nos últimos anos. Mas o governo continua trabalhando com profundidade
o discurso da acreanidade a seu favor e a favor da sociedade.
"Apesar desse sentimento forte, não discriminamos
ou excluímos ninguém. Na maioria das vezes, quem chega
adere a esse sentimento", destaca.
Mas Arquilau de Castro Melo acredita que o acreano não
pode perder o foco da sua história para que possa se entender
e se conhecer. Segundo ele, é preciso mergulhar nas raízes
da sociedade para entendê-la. "Quando abrimos os olhos, as
primeiras coisas que vemos são o rio e a floresta. Essas são
as nossas referências."
Arquilau de Castro Melo diz que é apaixonado
pela história do Acre e pela saga dos antepassados que conseguiram
tornar o então território federal na segunda maior potência
econômica do Brasil, ficando atrás somente de São
Paulo, nos tempos áureos da borracha.
Segundo o desembargador, se os antepassados conseguiram
essa proeza, é possível à atual e às futuras
gerações também tornarem um Acre independente econômica
e socialmente.
Castro Melo faz questão de lembrar que a história
acreana ainda não deu a devida importância a Euclides da
Cunha. Segundo ele, o autor de “Os Sertões”, que
veio ao Acre em 1905 para definir os nossos limites também deve
ser reverenciado como é Plácido de Castro.
"Euclides da Cunha é o nosso sociólogo.
Ele acompanhou os nordestinos na Batalha de Canudos. Depois veio ver
a situação desses mesmos nordestinos na Amazônia."
Euclides da Cunha deixou incompleto o livro “Paraíso
Perdido”, sobre a viagem que fez ao Acre.
A árvore genealógica
do Acre está viva
O baiano Antônio Alcântara, 51, chegou ao
Acre em novembro de 1987. Veio a convite do jornalista How Campos, depois
de ter passado por São Paulo e Manaus. Fez a viagem da capital
amazonense de ônibus, enfrentando todos os tipos de dificuldades
no caminho. Em Rio Branco, foi acomodado e, em menos de uma semana,
estava trabalhando.
"Vivi em São Paulo quase 10 anos. Aquela
cidade só respeita quem respeita ela", destaca.

Alcântara: balsa leva tudo de ruim que passa
pelo Estado
No Acre, Alcântara não só trabalhou.
Ele casou, separou e da união nasceu o filho Augusto César,
12. "O Acre tem uma coisa interessante: você tem passado.
A árvore genealógica do Estado está viva",
salienta.
Ao tempo que destaca a história viva dos acreanos,
Alcântara, que se define como multimídia, faz severas críticas
ao comportamento das pessoas que moram em Rondônia, Amazonas e
Roraima, a quem acusa parecer ter vindo de outro planeta. "É
um pessoal que parece ter surgido do nada", ironiza.
Como muitos que viajam para o Acre, Alcântara
revela que não veio para ficar. Sua intenção era
ganhar dinheiro e fazer o caminho de volta. Ele confessa que realmente
foi embora várias vezes, mas sempre voltou.
Sua identificação com o Acre e com seu
povo começou efetivamente quando foi convidado pelo deputado
Ronald Polanco (sem partido) para fazer uma viagem aos seringais da
região do Alto Acre.
"Foi ali, velho, que eu vi o tanto que as pessoas
se deram bem em cima da miséria dos seringueiros. Fiquei revoltado
ao saber que enquanto eles moravam em taperas, foram construídas
mansões com o suor dos seus rostos e com os calos das suas mãos",
relata.
A indignação também é dirigida
às pessoas que fizeram do Acre o trampolim para o enriquecimento
lícito e ilícito. Na sua avaliação, não
são apenas os que vêm de fora que maltratam o Acre. "Têm
muitos acreanos que também fizeram mal à sociedade e foram
levados pela maior invenção da sabedoria popular: a balsa
para Manacapuru. Só tenho a dizer que não irei nela porque
amo o Acre."
A luta pela preservação
da cultura indígena
O resgate das tradições e da cultura indígena
do Acre está sob a responsabilidade da Organização
das Mulheres Indígenas. A vice-presidente da entidade é
Edna Shanenawa, 29, que nasceu Phkãshaya, mas teve seu nome modificado
porque o cartório não fez o registro.
Phkãshaya significa “árvore bonita”.
E é pelo direito de também poder registrar seus filhos
com os nomes tradicionais da aldeia que as mulheres lutam. "Algumas
etnias perderam sua tradição e seu próprio idioma.
Temos que lutar contra isso", defende.

Edna saiu da sua aldeia em Feijó há
um ano e oito meses
Edna relembra que os brancos foram os responsáveis
pela perda da tradição, quando impuseram leis que quase
sempre contavam com a influência de padres.
"Hoje a gente põe o nosso nome nos filhos
porque exigimos nossos direitos, apesar de os cartórios não
quererem registrar".
Os filhos de Edna têm nomes inspirados na natureza.
Fare é sol, Yâka é igarapé, Maya é
terra boa e Wahê é pupunha.
Mas a luta de organização não se
resume à defesa do idioma e do direito de pôr nomes nos
filhos. As mulheres também querem incentivar o trabalho no artesanato,
na medicina tradicional e na revitalização da cultura
materna.
Esse trabalho conta com o apoio do governo do Estado,
por meio da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas,
que trabalha paras fortalecer as 14 etnias existentes no Acre.
"Já fomos bem poucos, mas hoje, o meu povo
conta com 500 famílias. Temos certeza de que o fortalecimento
da nossa cultura é o fortalecimento da cultura acreana."
Acreanismo é só propaganda,
diz estudante
Desempregado, apesar de ter deixado currículo
em vá-rios órgãos públicos, o estudante
do segundo período de jornalismo do Iesacre Fábio de Souza
Pontes, 19, acredita que o acreanismo é somente uma onda alimentada
pela propaganda do governo estadual, "que ressuscitou a história
para se dar bem e fazer história".
Para o estudante, essa acreanidade não é
possível de ser encontrada principalmente na periferia, onde
as dificuldades sociais enfrentadas pelas famílias impedem que
haja uma visão romântica da Revolução Acreana.
"Essa revolução eles fazem todo dia
para sobreviver em meio à total falta de condições",
argumenta.

Fábio diz que não há qualquer interesse
dos moradores da periferia pela saga heróica porque são
pessoas desamparadas pelo poder público. Segundo ele, para haver
patriotismo é necessário que a pátria faça
a sua parte, e ela não faz.
O estudante também questiona se o Acre é
para os acreanos ou para quem chega dos outros Estados. Ele sustenta
o questionamento dizendo que basta uma pessoa chegar com o diploma obtido
fora do Estado que logo arranja emprego em órgãos públicos.
"Eu mesmo deixei o currículo em vários
locais e nunca fui chamado", reclama.
As reclamações de falta de oportunidade
vão encontrar eco na estudante de Serviço Social Luziane
Ramos dos Santos, 37. Formada em Ciências Biológicas na
Universidade Federal do Acre, ela está fazendo a segunda faculdade
na expectativa de que consiga arranjar um emprego público.
"Dei aula na rede pública, mas sempre com
contrato provisório. Mas estou estudando Serviço Social
porque a gente sempre tem esperança", diz.
Luziane revela que já prestou vários concursos
públicos, mas não obteve sucesso. Ela não culpa
ninguém pelos insucessos. Diz apenas que estudou pouco. Sobre
as pessoas que chegam ao Estado e logo conseguem uma colocação
no mercado do trabalho, analisa: "Eles vêm aqui atrás
de oportunidades que não têm onde nasceram". |