ENCARTE ESPECIAL
Cientistas brasileiros vêm ao Acre pesquisar vacina do sapo Kampô em áreas indígenas

Projeto Kampô vai estudar a viabilidade da vacina e da produção de fármacos e cosméticos, com repartição de benefícios para os índios


Romerito Aquino

Ele é um pequeno sapo verde, conhecido de tempos imemoriais na floresta amazônica. Das cerca de 200 moléculas presentes em sua secreção cutânea, uma já virou a substância chamada deltorfina, medicamento internacional de ponta para evitar a isquemia cerebral. Outra resultou na dermorfina, um analgésico 40 vezes mais poderoso que a morfina.

Usada como vacina ou injeção, a secreção expelida pelo corpo do sapo verde é muito boa, segundo os índios, para dar saúde, alegria e sucesso na vida. Serve para caçar, pescar e, ainda, conseguir um amor. "Se tomar (a injeção), assim como a caça vem, a mulher também vem e não sabe nem porque", ensinam os índios. Para os curandeiros não-índios da selva, a injeção ou vacina também já curou, nas últimas décadas, muita úlcera, gastrite, renite, malária e males do intestino e do estômago.

Bruno Filizola
Esse é o poderoso sapo Kampô, com cerca de 200 moléculas importantes

Paralelo à conhecida história terapêutica desse poderoso sapinho amazônico, existe outra fantástica, que veio com a notícia dada em setembro deste ano pelos cientistas do Centro Médico da Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos, que descobriram, em testes de laboratórios, que peptídeos encontrados na pele de alguns tipos de sapos (a do Kampô têm os peptídeos deltorfina e dermorfina) também servem para impedir a infecção provocada pelo vírus HIV, causador da Aids. A notícia não especifica o sapo Kampô, mas tudo leva a crer que ele está incluído no rol desses futuros salvadores da humanidade.

O sapo em questão é o Kampô ou Kambô, muito comum na selva acreana, que começará a ter sua secreção cutânea e seus usos estudados a partir do primeiro semestre de 2006 nas aldeias dos índios Katukina, Yawanawá e Kaxinawá, no Vale do Juruá, por equipes de cientistas de várias instituições públicas e privadas brasileiras, sob a coordenação do Programa Brasileiro de Bioprospecção e Desenvolvimento Sustentável de Produtos da Biodiversidade (Probem).

Idealizado pelo Ministério do Meio Ambiente, a partir de uma carta enviada à ministra Marina Silva em abril de 2003 por lideranças dos índios Katukina do rio Campinas (Cruzeiro do Sul) que reclamavam do comércio, entre brancos, da vacina do famoso sapo de suas matas, o Projeto Kampô deve se transformar no primeiro grande projeto de bioprospecção de medicamentos do Brasil com repartição de benefícios entre os detentores do conhecimento tradicional. No caso, os índios do Acre e do Vale do Javari, no sudoeste do Estado do Amazonas, que também usam, segundo os antropólogos, a vacina do Kampô desde os tempos imemoriais.

Haroldo Oliveira
Cientistas de vários órgãos e universidades federais
discutem, em Brasília, o Projeto Kampô

Principais objetivos do Projeto Kampô, do Ministério do Meio Ambiente, que conta com o apoio de vários outros ministérios

1 - Executar projeto de bioprospecção para identificar na secreção do sapo moléculas ou princípios ativos para o desenvolvimento de fármacos e cosméticos.

2 - Pesquisar efeitos clínicos da vacina para detectar os potenciais efeitos benéficos e maléficos para a saúde humana.

3 - Estudo da biologia e da ecologia do sapo, dando subsídios para análise da sustentabilidade do uso econômico e do plano de manejo da espécie.

4 - Estudo antropológico sobre o conhecimento indígena relacionado ao uso do Kampô.

Peptídeos do sapo ajudam até a combater a Aids

"O projeto tem um caráter integrador, no sentido de procurar estabelecer uma conexão entre o saber tradicional - associado ao uso etnofarmacológico do Kampô, por povos indígenas -, a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico a partir desse etnofármaco para a geração de novos produtos por empresas e instituições de pesquisa nacionais", assinala o texto do projeto, em andamento na capital federal desde o início deste ano. O texto preliminar do projeto diz ainda que seu objetivo "é garantir a proteção do conhecimento tradicional e a repartição de benefícios oriundos das inovações para os detentores destes conhecimentos e práticas relacionadas à biodiversidade".

Além do projeto de bioprospecção, que visa identificar na secreção do sapo moléculas ou princípios ativos para o desenvolvimento de fármacos e cosméticos, o Projeto Kampô vai pesquisar os efeitos clínicos da vacina para detectar os potenciais efeitos benéficos e maléficos para a saúde humana. Outra fase do projeto prevê o estudo de biologia e de ecologia do sapo, dando subsídios para análise da sustentabilidade do uso econômico e do plano de manejo para a criação dos anfíbios a fim de ser disponibilizado material biológico do projeto de bioprospecção de fármacos e cosméticos. O projeto prevê, ainda, a realização de estudos antropológicos sobre o conhecimento indígena relacionado ao uso do Kampô e seus aspectos etnoecológicos.

Bruno Filizola
Essa é uma das aldeias Katukina onde vai se dar a pesquisa científica

Desta forma, com o assentimento dos índios Katukina, Yawanawá e Kaxinawá, estarão visitando nos próximos meses as três aldeias indígenas acreanas, situadas em Tarauacá e em Cruzeiro do Sul, cientistas e pesquisadores ligados a importantes instituições públicas e privadas estaduais e federais. Entre as instituições se destacam a Associação dos Índios Katukina do Campinas (AKA), SEPI, IMAC, Seprof, Seater, Embrapa, Funasa, Funai, Abin, Ibama, Instituto do Coração de São Paulo (Incor), Amazonlink.org, CNPq e Universidades Federais do Acre (UFAC), Amazonas (UFAM), Ceará (UFC), Paraná (UFPR) e de Brasília (UNB), além da renomada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e principais secretarias do Ministério do Meio Ambiente.

Devido à grande importância que o Projeto Kampô terá para o futuro do Acre enquanto estado detentor de uma das maiores biodiversidades do planeta e que pode ser palco para outros estudos científicos que visem tirar da floresta de forma sustentável, através da biotecnologia, a extrema riqueza que ela possui, o jornal Página 20 publica diariamente, a partir de hoje e nas edições de sábado e domingo, uma série de três reportagens, contendo entrevistas e relatos que detalham a história deste poderoso e rico sapo amazônico.

A pesquisa científica que ocorrerá no Acre sobre as propriedades da secreção do sapo Kampô pode se transformar, em breve, na primeira grande resposta econômica que os cientistas brasileiros terão a oferecer para provar que a exploração sustentável das incalculáveis riquezas vegetais e animais existentes na Amazônia é muito mais vantajosa do que a pecuária, a soja e qualquer outro produto de monocultura, que, juntos, vêm apenas concentrando riqueza e causando desmatamento em todas as bordas da maior floresta tropical do planeta.

 
 
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Rio Branco-AC, 26 de novembro de 2005
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