ENCARTE ESPECIAL

Dos relatos de 1925 às pesquisas modernas de nível internacional


Chamado pelos índios Katukina de Kampô ou Kambô e de Kãpun, pelos índios Kaxinawá, todos povos da família lingüística Pano, como também são os Yawanawá de Tarauacá, os Jaminawá dos vales do Acre e Purus e os Marubo e Mayoruna (Matsés), do Vale do Javari amazonense, o sapo, na verdade, é uma perereca que tem nome científico de Phyllomedusa bicolor, muito encontrada embaixo de árvores próximas a igarapés das aldeias, que coaxam por toda a noite anunciando chuva no dia seguinte.

Também comum em outros países amazônicos, como Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Guianas, o sapo Kampô é "capturado" de madrugada pelos índios, que retiram sua secreção cutânea para fazer a chamada "vacina do sapo", que hoje é difundida nas cidades do Juruá, em Rio Branco e em outras capitais brasileiras, onde falsos curandeiros chegam a vender uma dose da vacina por até R$ 300,00.

Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
Em Rodrigues Alves, seringueiros e índios
se preparam para ir em busca do sapo Kampô


 Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
Viajando no rio à noite rumo ao
igarapé, local tradicional do Kampô

A secreção é usada pelos índios do Alto Juruá acreano em pequenas incisões queimadas na pele por tições acesos para tirar a "panema", espécie de fraqueza do corpo e do espírito, ou a má sorte de uma maneira geral, que seria responsável por boa parte das enfermidades e estados negativos de diversas naturezas. Os indígenas utilizam a vacina principalmente para dar vigor aos caçadores e combater doenças diversas, mas também a usam de forma preventiva, sendo a vacina aplicada em crianças, mulheres e idosos.

Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
Chegando no igarapé pela floresta acreana

Sensação da vacina é de leveza e fortaleza

O efeito da vacina do sapo é curto, em torno de 15 minutos, porém muito forte. Os que a tomam dizem sentir uma forte onda de calor subindo pelo corpo e indo até a cabeça. A dilatação dos vasos sanguíneos parece provocar uma circulação mais veloz do sangue, deixando o rosto vermelho. Em seguida, o paciente fica pálido, com pressão baixa e começa a sentir sensações de fortes náuseas, que desembocam em vômito ou diarréia. A sensação desagradável vai sendo substituída aos poucos pela de normalidade, com o paciente passando a se sentir forte e leve, como se tivesse feito uma boa limpeza, causando uma grande disposição.

Seguidas reportagens realizadas até por veículos de projeção nacional, como a TV Globo fez em 2002, levaram, no entanto, ao uso indiscriminado da vacina do Kampô, que passou a ser propagada "como uma substância particularmente eficaz na cura de enfermidades para as quais a medicina ocidental não tem tido sucesso em tratar", conforme assinala a antropóloga Edilene Coffaci de Lima, membro da equipe de antropólogos que vai ao Acre estudar cientificamente o Kampô.

A propagação dos "benefícios" da vacina chegou até a Internet, mas em abril de 2004 foi proibido qualquer tipo de propaganda sobre ela pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estuda a proibição definitiva de sua aplicação em locais fora das regiões tradicionais, até que os cientistas estudem e, se for o caso, regulamentem o seu uso público. A Anvisa considera que o paciente que consome a vacina do sapo está sujeito a sérios danos à saúde.

Publicamos nesta página central do encarte uma seqüência de fotos do fotógrafo Alexandre Roger que mostram, no município de Rodrigues Alves, um pouco do que é a aventura de ir atrás de sapos Kampô durante a madrugada, subindo rios e entrando na mata fechada até encontrar igarapés, lagoas e igapós, que são o seu habitat natural.

Em sua dissertação de mestrado e tese de doutorado sobre os índios Katukina dos rios Campinas e Gregório e no recente artigo que publicou sob o título "Do Kampô ao Kambô: transformações do uso do sapo verde entre os Katukina", a antropóloga Edilene Lima lembra o início do relato antropológico do uso medicinal da vacina do sapo Kampô. E esse relato começou há exatos 80 anos, quando o padre espiritano francês Constantin Tastevin registrou o fato em suas andanças pelo Alto Juruá acreano.

Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
Retirando a secreção do sapo da cabeça até
as pernas. A secreção vai servir como vacina

Italianos foram os primeiros a descobrir propriedades

Publicado na revista francesa La Geographie, em 1925, o texto do padre, com o título "Lê fleuve Muru", fez a primeira descrição científica sobre o uso da secreção da famosa perereca verde como estimulante cinegético (estímulo à caça). Sua descrição diz respeito às aplicações da secreção do sapo que observou entre os índios Kaxinawá, que viviam e ainda vivem no alto rio Muru, principal afluente da margem direita do rio Tarauacá.

"O exército de batráquios é incontável. O mais digno de ser notado é o campon (como designou o sapo à época) dos Kachinaua. Quando um indígena fica doente, se torna magro, pálido e inchado; quando ele tem azar na caça é porque ele tem no corpo um mau princípio que é preciso expulsar. De madrugada, antes da aurora, estando ainda de jejum, no doente e no azarado produzem-se pequenas cicatrizes no braço ou no ventre com a ponta de um tição vermelho, depois se vacinam com o 'leite' de sapo, como dizem. Logo são tomados de náuseas violentas e de diarréia; o mau princípio deixa o corpo por todas as saídas: o doente volta a ser grande e gordo e recobra as suas cores, o azarado encontra mais caça do que pode trazer de volta; nenhum animal escapa da sua vista aguda, o seu ouvido percebe os menores barulhos, e sua arma não erra o alvo", testemunhou o padre francês.

Pelo que consta no site da Amazonlink.org, as pesquisas científicas sobre as propriedades da secreção do sapo Kampô vêm sendo realizadas desde o início da década de 80. O primeiro a "descobrir" as propriedades da secreção para a ciência moderna foi um grupo de pesquisadores italianos. Depois, amostras do sapo foram levadas do Peru para um pesquisador dos Estados Unidos, que já tinha pesquisado e patenteado anteriormente substâncias da rã Epipedobates tricolor, utilizada tradicionalmente pelos povos indígenas do Equador.

Também foram publicadas pesquisas sobre as propriedades da secreção do Kampô por pesquisadores franceses e israelitas. Mais recente, a norte-americana Universidade de Kentucky pesquisou e patenteou as substâncias dermorfina e deltorfina em colaboração com a empresa farmacêutica ZymoGenetics. (R.A.)

Pesquisas norte-americanas apontam até para a cura da Aids

Para demonstrar o poder científico, médico e financeiro da secreção do sapo Kampô, o site Amazonlink.org revelou, em julho de 2003, a existência de nada menos que 10 patentes internacionais sobre os seus dois peptídeos conhecidos (dermorfina e a deltorfina) originários da secreção do sapo e já pesquisados por universidades e outras instituições internacionais.

São patentes registradas desde 1989 no Japão, na União Européia e, principalmente nos Estados Unidos, onde uma delas contou com a contribuição de cientista israelense. Algumas das patentes estão, inclusive, valorizadas em mais de seis milhões de dólares.

A exemplo do que tem acontecido com a patente do Cupuaçu, que vem sendo cancelada em vários mercados internacionais por pressões de instituições da sociedade civil, do governo e do Congresso brasileiros, oito das patentes sobre a dermorfina e a deltorfina também podem vir a ser questionadas porque foram concedidas depois da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), realizada em 1992. No caso das patentes norte-americanas, essa hipótese torna-se difícil de ocorrer porque os Estados Unidos não ratificaram até hoje a CDB.

Os poderes da dermorfina e da deltorfina

A Convenção da Diversidade Biológica instituiu o novo paradigma internacional de que os recursos genéticos passam a ser de propriedade dos países que os detêm e não mais pertencentes à humanidade, como era antes. Isso vai beneficiar, sobremaneira, o Brasil e outros países megabiodiversos no caso de descobertas de novas substâncias importantes presentes nas inúmeras moléculas da secreção do sapo Kampô.

Ao divulgar os registros das patentes sobre duas das cerca de 200 moléculas da secreção do Kampô, o Amazonlink assinala que as pesquisas internacionais revelaram que tal secreção contém uma série de substâncias "altamente eficazes", sendo as principais a dermorfina e a deltorfina, pertencentes ao grupo dos peptídeos.

"Esses dois peptídeos eram desconhecidos antes das pesquisas de Phyllomedusa bicolor. Dermorfina é um potente analgésico e deltorfina pode ser aplicada no tratamento da Isquemia, ou seja, um tipo de falta de circulação sanguínea e falta de oxigênio, que pode causar derrames", assinala o documento do site.

E a informação mais importante veio a seguir no mesmo site. "As substâncias da secreção do sapo também possuem propriedades antibióticas e de fortalecimento do sistema imunológico e ainda revelaram grande poder no tratamento do Mal de Parkinson, Aids, câncer, depressão e outras doenças". A dermorfina e a deltorfina já estão sendo produzidos de forma sintética, com os laboratórios podendo adquirí-las através de compra on-line pela Internet, pagando royalties aos donos das patentes.

Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
Devolvendo o sapo para o seu habitat natural

Revista confirma poder dos peptídeos do Kampô

Divulgada em julho de 2003, a informação do Amazonlink coincide com a informação publicada em 29 de setembro deste ano pela revista Galileu, de cunho cientifico, que revelou que pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos, haviam acabado de descobrir que peptídeo encontrado na pele de sapos bloqueia ação do virus HIV, da Aids, em laboratório.

Os peptídeos são moléculas pequenas com estrutura similar à das proteínas. Em diversas espécies de sapos, inclusive o Kampô, ocorre a produção dessa substância na superfície da pele para proteger o animal de bactérias, fungos e vírus. No laboratório da universidade norte-americana, foram isolados 15 peptídeos com ação antimicrobial. "Estes foram aplicados a um conjunto de células que representava os glóbulos brancos e as células T, responsáveis pela defesa do organismo e principais atingidas pelo HIV. A ação de alguns peptídeos impediu a contaminação das células T no momento em que o vírus passava de uma célula para outra.", assinala a revista Galileu. O HIV, vírus causador da Aids, age no corpo destruindo as células T, cuja estrutura é altamente especializada e age na defesa do corpo contra microorganismos invasores causadores de infecção. (R.A.)

 
 
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Rio Branco-AC, 26 de novembro de 2005
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