Chamado pelos índios Katukina de Kampô ou Kambô e
de Kãpun, pelos índios Kaxinawá, todos povos da
família lingüística Pano, como também são
os Yawanawá de Tarauacá, os Jaminawá dos vales
do Acre e Purus e os Marubo e Mayoruna (Matsés), do Vale do Javari
amazonense, o sapo, na verdade, é uma perereca que tem nome científico
de Phyllomedusa bicolor, muito encontrada embaixo de árvores
próximas a igarapés das aldeias, que coaxam por toda a
noite anunciando chuva no dia seguinte.
Também comum em outros países amazônicos,
como Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Guianas, o sapo
Kampô é "capturado" de madrugada pelos índios,
que retiram sua secreção cutânea para fazer a chamada
"vacina do sapo", que hoje é difundida nas cidades
do Juruá, em Rio Branco e em outras capitais brasileiras, onde
falsos curandeiros chegam a vender uma dose da vacina por até
R$ 300,00.

Em Rodrigues Alves, seringueiros e índios
se preparam para ir em busca do sapo Kampô

Viajando no rio à noite rumo ao
igarapé, local tradicional do Kampô
A secreção é usada pelos índios
do Alto Juruá acreano em pequenas incisões queimadas na
pele por tições acesos para tirar a "panema",
espécie de fraqueza do corpo e do espírito, ou a má
sorte de uma maneira geral, que seria responsável por boa parte
das enfermidades e estados negativos de diversas naturezas. Os indígenas
utilizam a vacina principalmente para dar vigor aos caçadores
e combater doenças diversas, mas também a usam de forma
preventiva, sendo a vacina aplicada em crianças, mulheres e idosos.

Chegando no igarapé pela floresta acreana
Sensação da vacina é
de leveza e fortaleza
O efeito da vacina do sapo é curto, em torno
de 15 minutos, porém muito forte. Os que a tomam dizem sentir
uma forte onda de calor subindo pelo corpo e indo até a cabeça.
A dilatação dos vasos sanguíneos parece provocar
uma circulação mais veloz do sangue, deixando o rosto
vermelho. Em seguida, o paciente fica pálido, com pressão
baixa e começa a sentir sensações de fortes náuseas,
que desembocam em vômito ou diarréia. A sensação
desagradável vai sendo substituída aos poucos pela de
normalidade, com o paciente passando a se sentir forte e leve, como
se tivesse feito uma boa limpeza, causando uma grande disposição.
Seguidas reportagens realizadas até por veículos
de projeção nacional, como a TV Globo fez em 2002, levaram,
no entanto, ao uso indiscriminado da vacina do Kampô, que passou
a ser propagada "como uma substância particularmente eficaz
na cura de enfermidades para as quais a medicina ocidental não
tem tido sucesso em tratar", conforme assinala a antropóloga
Edilene Coffaci de Lima, membro da equipe de antropólogos que
vai ao Acre estudar cientificamente o Kampô.
A propagação dos "benefícios"
da vacina chegou até a Internet, mas em abril de 2004 foi proibido
qualquer tipo de propaganda sobre ela pela Agência de Vigilância
Sanitária (Anvisa), que estuda a proibição definitiva
de sua aplicação em locais fora das regiões tradicionais,
até que os cientistas estudem e, se for o caso, regulamentem
o seu uso público. A Anvisa considera que o paciente que consome
a vacina do sapo está sujeito a sérios danos à
saúde.
Publicamos nesta página central do encarte uma
seqüência de fotos do fotógrafo Alexandre Roger que
mostram, no município de Rodrigues Alves, um pouco do que é
a aventura de ir atrás de sapos Kampô durante a madrugada,
subindo rios e entrando na mata fechada até encontrar igarapés,
lagoas e igapós, que são o seu habitat natural.
Em sua dissertação de mestrado e tese
de doutorado sobre os índios Katukina dos rios Campinas e Gregório
e no recente artigo que publicou sob o título "Do Kampô
ao Kambô: transformações do uso do sapo verde entre
os Katukina", a antropóloga Edilene Lima lembra o início
do relato antropológico do uso medicinal da vacina do sapo Kampô.
E esse relato começou há exatos 80 anos, quando o padre
espiritano francês Constantin Tastevin registrou o fato em suas
andanças pelo Alto Juruá acreano.

Retirando a secreção do sapo da cabeça até
as pernas. A secreção vai servir como vacina
Italianos foram os primeiros a descobrir
propriedades
Publicado na revista francesa La Geographie, em 1925,
o texto do padre, com o título "Lê fleuve Muru",
fez a primeira descrição científica sobre o uso
da secreção da famosa perereca verde como estimulante
cinegético (estímulo à caça). Sua descrição
diz respeito às aplicações da secreção
do sapo que observou entre os índios Kaxinawá, que viviam
e ainda vivem no alto rio Muru, principal afluente da margem direita
do rio Tarauacá.
"O exército de batráquios é
incontável. O mais digno de ser notado é o campon (como
designou o sapo à época) dos Kachinaua. Quando um indígena
fica doente, se torna magro, pálido e inchado; quando ele tem
azar na caça é porque ele tem no corpo um mau princípio
que é preciso expulsar. De madrugada, antes da aurora, estando
ainda de jejum, no doente e no azarado produzem-se pequenas cicatrizes
no braço ou no ventre com a ponta de um tição vermelho,
depois se vacinam com o 'leite' de sapo, como dizem. Logo são
tomados de náuseas violentas e de diarréia; o mau princípio
deixa o corpo por todas as saídas: o doente volta a ser grande
e gordo e recobra as suas cores, o azarado encontra mais caça
do que pode trazer de volta; nenhum animal escapa da sua vista aguda,
o seu ouvido percebe os menores barulhos, e sua arma não erra
o alvo", testemunhou o padre francês.
Pelo que consta no site da Amazonlink.org, as pesquisas
científicas sobre as propriedades da secreção do
sapo Kampô vêm sendo realizadas desde o início da
década de 80. O primeiro a "descobrir" as propriedades
da secreção para a ciência moderna foi um grupo
de pesquisadores italianos. Depois, amostras do sapo foram levadas do
Peru para um pesquisador dos Estados Unidos, que já tinha pesquisado
e patenteado anteriormente substâncias da rã Epipedobates
tricolor, utilizada tradicionalmente pelos povos indígenas do
Equador.
Também foram publicadas pesquisas sobre as propriedades
da secreção do Kampô por pesquisadores franceses
e israelitas. Mais recente, a norte-americana Universidade de Kentucky
pesquisou e patenteou as substâncias dermorfina e deltorfina em
colaboração com a empresa farmacêutica ZymoGenetics.
(R.A.)
Pesquisas norte-americanas apontam
até para a cura da Aids
Para demonstrar o poder científico, médico
e financeiro da secreção do sapo Kampô, o site Amazonlink.org
revelou, em julho de 2003, a existência de nada menos que 10 patentes
internacionais sobre os seus dois peptídeos conhecidos (dermorfina
e a deltorfina) originários da secreção do sapo
e já pesquisados por universidades e outras instituições
internacionais.
São patentes registradas desde 1989 no Japão,
na União Européia e, principalmente nos Estados Unidos,
onde uma delas contou com a contribuição de cientista
israelense. Algumas das patentes estão, inclusive, valorizadas
em mais de seis milhões de dólares.
A exemplo do que tem acontecido com a patente do Cupuaçu,
que vem sendo cancelada em vários mercados internacionais por
pressões de instituições da sociedade civil, do
governo e do Congresso brasileiros, oito das patentes sobre a dermorfina
e a deltorfina também podem vir a ser questionadas porque foram
concedidas depois da Convenção da Diversidade Biológica
(CDB), realizada em 1992. No caso das patentes norte-americanas, essa
hipótese torna-se difícil de ocorrer porque os Estados
Unidos não ratificaram até hoje a CDB.
Os poderes da dermorfina e da
deltorfina
A Convenção da Diversidade Biológica
instituiu o novo paradigma internacional de que os recursos genéticos
passam a ser de propriedade dos países que os detêm e não
mais pertencentes à humanidade, como era antes. Isso vai beneficiar,
sobremaneira, o Brasil e outros países megabiodiversos no caso
de descobertas de novas substâncias importantes presentes nas
inúmeras moléculas da secreção do sapo Kampô.
Ao divulgar os registros das patentes sobre duas das
cerca de 200 moléculas da secreção do Kampô,
o Amazonlink assinala que as pesquisas internacionais revelaram que
tal secreção contém uma série de substâncias
"altamente eficazes", sendo as principais a dermorfina e a
deltorfina, pertencentes ao grupo dos peptídeos.
"Esses dois peptídeos eram desconhecidos
antes das pesquisas de Phyllomedusa bicolor. Dermorfina é um
potente analgésico e deltorfina pode ser aplicada no tratamento
da Isquemia, ou seja, um tipo de falta de circulação sanguínea
e falta de oxigênio, que pode causar derrames", assinala
o documento do site.
E a informação mais importante veio a
seguir no mesmo site. "As substâncias da secreção
do sapo também possuem propriedades antibióticas e de
fortalecimento do sistema imunológico e ainda revelaram grande
poder no tratamento do Mal de Parkinson, Aids, câncer, depressão
e outras doenças". A dermorfina e a deltorfina já
estão sendo produzidos de forma sintética, com os laboratórios
podendo adquirí-las através de compra on-line pela Internet,
pagando royalties aos donos das patentes.

Devolvendo o sapo para o seu habitat natural
Revista confirma poder dos peptídeos
do Kampô
Divulgada em julho de 2003, a informação
do Amazonlink coincide com a informação publicada em 29
de setembro deste ano pela revista Galileu, de cunho cientifico, que
revelou que pesquisadores do Centro Médico da Universidade de
Vanderbilt, dos Estados Unidos, haviam acabado de descobrir que peptídeo
encontrado na pele de sapos bloqueia ação do virus HIV,
da Aids, em laboratório.
Os peptídeos são moléculas pequenas
com estrutura similar à das proteínas. Em diversas espécies
de sapos, inclusive o Kampô, ocorre a produção dessa
substância na superfície da pele para proteger o animal
de bactérias, fungos e vírus. No laboratório da
universidade norte-americana, foram isolados 15 peptídeos com
ação antimicrobial. "Estes foram aplicados a um conjunto
de células que representava os glóbulos brancos e as células
T, responsáveis pela defesa do organismo e principais atingidas
pelo HIV. A ação de alguns peptídeos impediu a
contaminação das células T no momento em que o
vírus passava de uma célula para outra.", assinala
a revista Galileu. O HIV, vírus causador da Aids, age no corpo
destruindo as células T, cuja estrutura é altamente especializada
e age na defesa do corpo contra microorganismos invasores causadores
de infecção. (R.A.) |