ENCARTE ESPECIAL

É grande a dívida com o Brasil e as populações tradicionais


As patentes internacionais registradas sobre as duas potentes substâncias medicinais descobertas na secreção do sapo Kampô (a dermorfina e a deltorfina) do Acre e de outras regiões da Amazônia sul-americana são frutos ou não da biopirataria internacional, que só do lado brasileiro dariam um prejuízo anual hoje estimado em mais de 10 bilhões de dólares?

Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
O sapo Kampô pode fazer muito bem a toda a humanidade

Essa é a pergunta básica que precisa ser respondida em tribunais internacionais para saber o tamanho do prejuízo que os índios e outras populações tradicionais da Amazônia tiveram nas últimas décadas pelo roubo do vasto conhecimento que acumularam sobre a natureza por inúmeras gerações, além de terem preservado e mantido vivos os seus preciosos recursos genéticos.

Os pesquisadores do Amazonlink, no entanto, dizem não saber se, e até que grau, o termo biopirataria se aplica para os detentores das patentes e marcas sobre as duas substâncias da secreção do sapo Kampô, que já propiciaram a eles nos últimos anos lucros de centenas de milhões de dólares. Veja, nesta página, o quadro das 10 patentes internacionais registradas para as substâncias dermorfina e deltorfina, presentes na secreção do Kampô. Algumas delas são registradas em valores de mais de US$ 6 milhões de dólares.

Alexandre Roger - AGÊNCIA ARCA
A aldeia dos índios Kaxinawá também será objeto da pesquisa científica

"Porém, achamos que estes processos devem ser monitorados, discutidos e avaliados por especialistas, pela população em geral e principalmente pelas populações que utilizam tradicionalmente este recurso", diz o documento dos pesquisadores. Em dezembro de 2002, os pesquisadores do site denunciaram uma série de patentes e marcas sobre recursos biológicos da Amazônia e lançaram a campanha denominada "Limites Éticos acerca do Registro de Marcas e Patentes de Recursos Biológicos e Conhecimentos Tradicionais da Amazônia", que até hoje é considerada um marco no processo de discussão e tomada de decisão sobre o tema.

As fortunas roubadas pela biopirataria

A campanha e, principalmente, a revelação sobre os registros do Cupuaçu causaram grande repercussão tanto a nível nacional quanto internacional, onde algumas das patentes vêm caindo pela absoluta falta de lógica de, no caso da fruta amazônica, ser o próprio nome do produto regional. Várias outras organizações brasileiras aderiram à campanha, coordenada pelo Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), que hoje representa mais de 400 ongs atuantes na Amazônia brasileira.

A campanha das ongs visa conscientizar a sociedade civil, considerando todas as camadas sociais (pesquisadores, indígenas, produtores agroextrativistas, acadêmicos, políticos e outros) sobre o complexo assunto de biopirataria. A iniciativa pretende, ainda, alertar a todos sobre os registros de patentes relacionadas a recursos genéticos, que agridem a identidade cultural das populações indígenas da Amazônia.

Como é sabido, a história da biopirataria na Amazônia brasileira não começou e nem vai terminar com as substâncias poderosas do sapo Kampô, que resultarem em patentes milionárias em várias partes do mundo. A biopirataria começou logo depois da descoberta do Brasil pelos portugueses em 1500, quando os mesmos roubaram dos povos indígenas da região o segredo de como extrair um pigmento vermelho do Pau Brasil.

Atualmente, a flora e a fauna do país continuam desaparecendo e a madeira que deu ao Brasil o seu nome é preservada apenas em alguns jardins botânicos. Da mesma forma, outras substâncias genuinamente brasileiras, como o curare, o quinino e as patentes internacionais da Ayahuasca (ou Santo Daime) e do sangue dos índios Suruí, de Rondônia, são apenas alguns exemplos desta triste história de exploração colonialista dos povos. (R.A.)

QUADRO DAS PATENTES INTERNACIONAIS REGISTRADAS PARA
A DERMORFINA E A DELTORFINA, PRESENTES NO SAPO KAMPÔ

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 26 de novembro de 2005
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A