Romerito Aquino
A partir de 2006, uma legião de antropólogos,
herpetólogos, biólogos, bioquímicos, médicos
e outros cientistas brasileiros das mais variadas especialidades e renomes
estará encarando o Acre como roteiro definitivo para executar
o mais importante estudo que se tem notícia no país sobre
bioprospecção de medicamentos com repartição
justa e eqüitativa de benefícios aos povos tradicionais.
Eles fazem parte do Projeto Kampô, que vem sendo
planejado desde o início do ano em vários ministérios
e órgãos federais sediados em Brasília e em outras
importantes cidades brasileiras para estudar cientificamente, nas aldeias
dos índios Katukina, Yawanawá e Kaxinawá, no Vale
do Juruá, a secreção extraída do sapo Kampô
que vem sendo aplicada como vacina pelos indígenas desde os tempos
imemoriais visando curar várias doenças, muitas das quais
ainda não curáveis pela medicina moderna.

Secreção do sapo Kampô pode
resultar em muitos medicamentos no futuro
Nesta segunda parte da série de reportagens que
o Página 20 publica até amanhã
sobre a riqueza que vem da floresta com os sapos verdes que coaxam aos
milhares por sob as árvores e arbustos dos igarapés das
aldeias, anunciando chuva no dia seguinte, publicamos novas informações
e entrevistas com índios e profissionais especialistas que direta
ou indiretamente têm a ver com esse inédito estudo científico
em terras acreanas.
Bioprospecção de substâncias
na secreção
Segundo informou esta semana o herpetólogo Bruno
Filizola, coordenador do Projeto Kampô, que foi elaborado pela
equipe da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para atender a um
pedido feito em abril de 2003 pelos índios Katukina, de Tarauacá,
já nos primeiros meses de 2006 estarão desembarcando no
Vale do Juruá as primeiras duas equipes formadas por antropólogos,
bioquímicos e herpetólogos (especialistas em anfíbios
e répteis).
Esses profissionais irão iniciar as pesquisas
preliminares que serão realizadas nos próximos meses para
coletar informações técnicas e científicas
precisas tanto sobre o modo como os índios das três aldeias
usam a secreção "milagrosa" raspada da pele
do Kampô, para curar as mais diversas doenças do corpo
e da alma, quanto s
Pesquisando o conhecimento tradicionalobre as populações
do próprio sapo espalhadas pela floresta da região.
Outras equipes de especialistas, entre os quais médicos
e outros profissionais da área da saúde, além de
novos bioquímicos, virão para o estado posteriormente
para iniciar os estudos locais de bioprospecção das substâncias
contidas no remédio que os índios asseguram ser muito
bom para dar saúde, alegria e sucesso na vida. E que nas aldeias
se traduzem por excelentes caçadas e pescarias e até por
relacionamentos amorosos de sucesso, pois segundo relata entrevista
feita pelo antropólogo acreano Txai Terri Aquino com o velho
índio Raimundo Luis Tuinkuru, da aldeia Yawanawá, do rio
Gregório, "se tomar (a vacina), assim como a caça
vem, a mulher também vem e não sabe porque". (Ver
matéria nas páginas centrais deste encarte).
Os pesquisadores brasileiros, que já estiveram
reunidos nas aldeias com lideranças indígenas para discutir
as pesquisas que serão realizadas nos próximos anos, vão
iniciar seus estudos sabendo que das 200 moléculas presentes
em secreção cutânea do Kampô, uma já
virou a substância denominada deltorfina, medicamento internacional
de ponta que serve hoje para evitar a isquemia cerebral. E uma outra
resultou na dermorfina, substância com poder analgésico
40 vezes maior que a morfina. Ambas as substâncias já foram
objeto de 10 patentes no Japão, na União Européia
e, principalmente, nos Estados Unidos.

Cientistas se reúnem com os índios
na aldeia Campinas, em Cruzeiro do Sul
Pesquisando o conhecimento tradicional
Da mesma forma, os pesquisadores também sabem
que os curandeiros da selva, índios e não índios,
já curaram com a secreção do sapo verde muita úlcera,
gastrite, renite, malária e males do intestino e do estômago.
Outro fantástico poder medicinal atribuído à secreção
do Kampô veio com a notícia publicada em setembro deste
ano pela revista científica Galileu dando conta que cientistas
do Centro Médico da Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos,
descobriram, em testes de laboratórios, que peptídeos
encontrados na pele de alguns tipos de sapos (a do Kampô têm
os peptídeos deltorfina e dermorfina) também servem para
evitar a infecção provocada pelo vírus HIV, causador
da Aids.
Além do projeto de bioprospecção,
que identificará na secreção do sapo moléculas
ou princípios ativos para o desenvolvimento de fármacos
e cosméticos, o Projeto Kampô vai pesquisar os efeitos
clínicos da vacina para detectar os potenciais efeitos benéficos
e maléficos para a saúde humana. Outra fase do Projeto
Kampô prevê o estudo de biologia e de ecologia do sapo,
dando subsídios para análise da sustentabilidade do uso
econômico e do plano de manejo para a criação desses
anfíbios. O projeto também prevê a realização
de estudos antropológicos sobre o conhecimento indígena
relacionado ao uso do sapo e seus aspectos etnoecológicos.

Vacina do Kambô dá força e alegria
para o povo Kaxinawá
Segundo Bruno Filizola, os estudos científicos
da secreção do Kampô podem resultar em curto prazo
(entre um e dois anos) na formação de um banco de peptídeos
(moléculas de alto poder medicinal); em médio prazo (de
dois a cinco anos) na fabricação de uma pomada antimocrobiana;
e, em longo prazo (de nove a 12 anos), na fabricação de
um, dois ou mais fármacos. Entretanto, esses estudos ainda dependem
de acordos entre as instituições executoras e de financiamentos
e, sobretudo, de um acordo com os povos tradicionais envolvidos, cujo
consentimento é uma condicional para estas atividades. |