Os índios Katukina, Yawanawá e Kaxinawá, do Vale
do Juruá acreano, serão peças fundamentais para
o sucesso da pesquisa científica que será feita nos próximos
anos, no Acre, por instituições públicas e privadas
acerca do uso secular que eles fazem da secreção do sapo
Kampô.
Com seus conhecimentos tradicionais, eles é que
darão as dicas corretas para os cientistas brasileiros descobrirem
o verdadeiro potencial deste "medicamento" da selva, que no
exterior já produziu duas moléculas (dermorfina e deltorfina)
que se transformaram em fármacos capazes de combater o derrame
cerebral, o Mal de Parkinson e alguns tipos de câncer. Em laboratório,
os peptídeos dessas moléculas da vacina do Kampô
também já demonstraram ser capazes de frear também
o avanço no organismo humano do vírus HIV, causador da
Aids.

Mestre Raimundo Luís ensina a cultura da aplicação
da vacina do sapo Kampô
Serão os próprios índios que explicarão
aos cientistas porque usam a secreção do Kampô,
para que a utilizam e como a utilizam. Assim, estarão dando à
ciência a medida certa dos princípios ativos incrustados
neste pequeno sapo verde dos igapós amazônicos que têm
lhes salvado de muitos males que a medicina moderna não é
capaz de fazer. Da mesma forma que também têm lhes proporcionado
bem estar, alegria e sucesso na vida, que na floresta se traduz numa
boa caçada, numa proveitosa pescaria e no perfeito amor.
Para se adiantar a esses conhecimentos milenares e preciosos,
o Página 20 reproduz aqui trechos da bela entrevista que o antropólogo
acreano Txai Terri Aquino, há mais de 30 anos trabalhando e vivendo
com os índios acreanos, publicou em abril deste ano, em seu "Papo
de Índio", com Raimundo Luis Tuinkuru, um velho mestre Yawanawá,
de 78 anos, sobre as suas vivências com o sapo Kampô.
Mestre Yawanawá diz que Kampô
é vida, saúde, alegria e sucesso
Segundo relata Raimundo Luiz, o Kapun (é assim
que ele chama o Kampô) é usado por vários povos
indígenas. "Aqui no Acre, nosso povo Yawanawá e os
Katukina tomam muito kapun. Kaxinawá e Jaminawa tomam pouco.
Também ouvi dizer que os Marubo e Mayoruna, do Vale do Javari,
também tomam. Então, o kapun é um conhecimento
tradicional partilhado por muitos povos. A gente não usa o kapun
sem dieta. Tem muitas estórias antigas sobre a vacina do kapun.
É uma cultura nossa. Por isso, o kapun pra nós é
uma coisa muito importante, que aprendi com meu pai", diz o velho
mestre Yawanawá.
Para ele, o kapun é um sapo verde que gosta mais
de viver na beira do igapó. "A gente pega sempre eles na
beira do igapó. Tem kapun que vive trepado (nas árvores)
e outros que vive no baixo e outros na terra firme. Então, tem
diferentes tipos de kapun, conforme o lugar onde eles moram".
Raimundo Luiz diz que o kapun é um "animal"
que não canta em qualquer tempo. "No verão, não
canta. Canta muito no inverno, adivinhando chuva. O kapun cantou, então,
vai chover logo. Quando canta, é aquela zoada doida, que se escuta
de longe. Canta na boca da noite e de madrugada. Tem hora pra cantar.
Agora, no verão, ninguém ver kapun não, porque
eles não cantam. Ele é diferente".
Remédio
poderoso
Raimundo Luis é professoral quando fala dos poderes
do remédio preferido de seus ancestrais. "Então,
o kapun é um remédio muito poderoso. A gente quando vai
tomar kapun não é só uma pessoa não, é
muita gente. Tem que combinar com o aplicador pra tomar kapun, explicar
direitinho por que quer tomar e os motivos que escolheu pra tomar kapun
com ele. Não é qualquer um que pode aplicar vacina do
kapun. A pessoa quando vai tomar kapun é porque tá sentindo
qualquer coisa no corpo, ou fraqueza, dor de cabeça, reumatismo,
dor de barriga, diarréia, a comida fez mal, está com preguiça,
ou porque dorme demais, está amarelo, com anemia, bucho grande,
come barro, tá com febre.~
Segundo o velho mestre Yawanawá, alguns caçadores
tomam kapun pra tirar a panema (azar). "Chegam e afirmam: 'Estou
panema, preciso matar caça e não mato nada. Ontem fui
caçar e achei as caças brabas, me sentiam de longe e fugiam.
Passei o dia todinho com sono e não matei nada'. Cada um tem
que explicar seu motivo ao aplicador do kapun decidir quantos pontos
vai queimar no braço, ou na perna, se for mulher e criança.
Aí queima a pele com a brasa da ponta do cipó titica,
pra em seguida colocar o leite do kapun em cima. A mulher também
pode dizer assim: 'vou tomar kapun porque ganhei neném e tá
completando um mês de resguardo, por isso preciso tomar também'.
Isso não é coisa de agora, é coisa de nossa cultura
antiga".

Crianças Katukina também tomam a vacina
do Kampô
Criança também toma
Para Raimundo Luiz, as crianças também
tomam Kapun porque está amarela, com anemia, com bucho grande,
parece que está comendo barro. "Quem sabe alguma comida
fez mal? Vou tacar kapun nele', diz a mãe, ou a avó. Hoje
em dia tem remédio pra verme, você compra na farmácia,
mas naquele tempo antigo remédio pra verme era injeção
de kapun. Criança quando tá amarela e com bucho grande,
tomando kapun e fica forte e corada. Por isso, a gente diz que kapun
é vida, é saúde, é alegria, é sucesso
na caçada. A pessoa que não toma kapun, não tem
felicidade, não tem saúde completa. Então, o kapun
é tudo pra gente, porque ele serve pra matar caça, ele
serve pra curar doença e preguiça.
Mulher grávida não toma
vacina
Pelos ensinamentos do velho mestre Yawanawá,
só quem não pode tomar kapun é mulher grávida.
"Mulher grávida não pode tomar porque ofende o feto.
No final do resguardo, a mulher que perdeu muito sangue quando descansou
o neném precisa tomar essa vitamina do kapun que é pro
corpo e o sangue dela voltarem ao normal. Só o poder do kapun
pode curar a fraqueza do corpo e limpar o sangue dela".
Tem que fazer dieta
Com base em conhecimentos passados de geração
em geração, o velho Raimundo Luis ensina como deve ser
feita a dieta para tomar a vacina do sapo. "Durante um mês
não se pode comer qualquer comida, principalmente aquela que
é proibida. Tem muita comida que a gente proíbe a mulher,
a criança e o rapaz novo comerem, pois quem come essas coisas
são só os velhos e as velhas. Se um rapaz toma kapun pra
matar caça, não deve comer nada doce. Então, não
come doce, não come banana madura, nem mamão e não
chupa cana. Se tiver mulher, não dorme com sua mulher de jeito
nenhum, dorme separado. Se cumprir essa dieta, fica feliz, fica forte,
fica matador de caça". Até os cachorros tomam vacina
do sapo para ficar esperto e bom de caça na aldeia do velho mestre
Yawanawá. "Nós damos kapun até nos cachorros.
O índio gosta de criar cachorro pra acuar caça, não
é pra ficar guardando a casa. Cachorro que não quer ir
pra mata acuar caça, a gente dá kapun que ele fica logo
esperto e fica bom pra acuar caça".

Nas mulheres, a vacina do sapo Kampô é
aplicada nas pernas
Kapun curou malária de soldados
da borracha
O velho Yawanawá garante que o kapun já
foi aprovado porque salvou muitos seringueiros das cabeceiras do rio
Gregório. "Durante a segunda guerra mundial, chegaram muitos
soldados da borracha, que a gente chamava de brabo, brabo assim na seringa.
Naquele tempo, chegou mais de 40 brabos pra cortar seringa no Caxinauá
com o patrão Antonio Carioca. Naquele tempo chegou muita gente
do Ceará pra cortar seringa nas cabeceiras do Gregório.
Enquanto o patrão mandava reabrir as colocações
e limpar as estradas de seringa nos centros, eles ficavam na margem
batendo campo da sede do seringal Caxinauá. Naquele tempo, nós
não conhecia o que é malária. Quem sofria de malária
eram esses brabos".
Naquela época, segundo Raimundo Luis, morreram
muitos brabos, que nem chegaram a cortar seringa. "Como tava morrendo
três, quatro brabos por dia, o patrão chamou meu pai e
disse: "Antônio Luis, dá sapo nesses brabos, senão
eles vão morrer tudim de malária". Porque ele sabia
que o kapun curava muitas doenças e inté a malária.
Meu pai, então, tratou eles com injeção de sapo.
No final da estória, quem fez o tratamento completo do kapun,
tomando três vezes, dia sim e dia não, ficou bom. E quem
não tomou injeção de sapo, acabou morrendo".
Estimulante para ser bom caçador
Quando um jovem Yawanawá quer ser um bom matador
de caça, de acordo com o velho Yawanawá, toma muito kapun
e cumpre a dieta. "Não come nem doce nem dorme junto com
mulher. Quando você não toma kapun, fica com o corpo pesado.
Mas quando toma e faz a dieta, corre na mata e não faz barulho.
A felicidade, a boa sorte, aquela força, aquele talento vem tudo
do leite de kapun. O caçador anda maneiro na mata. Ouve zoada
das caças de longe. Fica com a visão apurada, vê
até mesmo quando as caças se escondem nas ramagens, folhas
e cipós. E não erra o tiro, pois fica bom de pontaria.
O kapun ajuda o caçador a ficar bem concentrado, prestando atenção
nos sinais da natureza e ainda fica mentalizando que vai encontrar e
matar caça. A caça fica mansa, meio lerda, não
sente o pixé do caçador nem nada. Quem toma kapun e faz
dieta, volta sempre com caça grande pra casa", narra Raimundo.
Kapun também é bom pro
amor
Outro grande poder atribuído por Raimundo Luiz
à vacina do sapo Kampô diz respeito ao amor. "Quando
um homem é infeliz pra mulher, se tomar kapun, assim como a caça
vem, a mulher também vem e não sabe nem porque. Então,
o leite de kapun é um grande sucesso. Além de fazer bem
à saúde, o cara fica feliz pra mulher. E a mulher que
não tem sorte pra arranjar marido, quando toma kapun, fica do
mesmo jeito, de repente aparece alguém que queira ela. Às
vezes, tem que escolher com quem vai ficar, porque aparecem vários
pretendentes, não vem só um, não. Então,
o kapun pra nós também é um grande sucesso no amor.
Quando toma kapun, fica com muito poder. Esse é um poder do bem,
da felicidade, da alegria. Então, a energia do leite do kapun
tem o poder de transformar as pessoas, de tornar uma pessoa saudável
no corpo e espírito.".

Txai Terri Aquino (camisa verde) participa
do seminário sobre o Projeto Kampô em Brasília
A cura com vômito amarelo e
suor
Para Raimundo Luiz, quando uma pessoa toma kapun, vomita
o amarelo e fica suando muito. "Isso quer dizer que o kapun vai
trazer boa saúde pra ela. Quando provoca o amarelo, como gema
de ovo e amargo de gosto e fica muito suado, então aquela injeção
de kapun tá fazendo efeito. Para os Yawanawá, aquele amarelo
amargoso que vomita é onde gera todo tipo de doença. Se
tomar kapun e não provocar nem suar, não tá fazendo
tratamento nenhum. Essa é a nossa experiência com injeção
de kapun".
Rapé de leite de Kapun
Raimundo Luis também diz que tem pessoas que
tomam rapé de kapun para matar caça mais do que os outros.
"Toma rapé do kapun sem misturar com tabaco. Tira o leite
e depois de seco, rapa e faz aquele pó do leite cristalizado
do kapun. Antigamente também lavava o kapun dentro de um vaso
d´água e lavava todo o leite dele naquela água e
bebia".

Sapo Kampô cura várias doenças
nas aldeias dos índios acreanos
Os aplicadores de Kapun
Segundo o velho mestre indígena, não é
qualquer pessoa que está credenciada a aplicar a vacina do sapo.
"Nossos pais não aceitava qualquer pessoa dar kapun nos
filhos. Tinha que ser um matador de caça, um bom caçador,
pra dar sapo nos filhos. Porque se um bom caçador dá kapun
em nós, ele tá transmitindo a sabedoria e o conhecimento
dele pra nós. É preciso escolher bem a pessoa que vai
dar kapun em nós. Tem que ser uma pessoa importante, que tenha
muito conhecimento tradicional e seja um bom caçador também,
porque, como já disse, ele transmite tudo isso pra quem ele dá
o kapun. Por isso que o kapun, pra nós, tem essa magia, essa
fineza toda". |