ENCARTE ESPECIAL

Estudo vai avaliar os efeitos da vacina do Kampô

Coordenador do projeto assinala que pesquisa clínica vai despertar interesse da comunidade científica brasileira


Para o coordenador do Projeto Kampô, o herpetólogo Bruno Filizola, a chamada pesquisa clínica sobre a vacina do sapo Kampô, que será aplicada apenas na aldeia dos índios Katukina, só deve ser iniciada no segundo semestre do próximo ano porque para realizar pesquisas em humanos é necessária a autorização de comitês de ética, da Funai, do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen) e de outras instituições oficiais. O tempo para que a pesquisa clínica seja legalizada, segundo Filizola, é estimado de cinco a oito meses.

Brubo Filizola
Vacina é originária da secreção cutânea do sapo Kampô

A pesquisa clínica, de acordo com Bruno Filizola, será de grande importância porque vai se tentar avaliar alguns efeitos da vacina do Kampô. Na pesquisa clínica, a vacina será aplicada num grupo de cerca de 40 índios Katukina de idades determinadas e de boas condições de saúde, que serão monitorados por médicos responsáveis pela avaliação dos parâmetros que possam trazer alguns indicadores da vacina.

"Certamente, essa pesquisa inicial não vai dar uma resposta definitiva sobre a segurança da vacina, mas vai servir para que a comunidade científica inicie a discussão sobre ela. A pesquisa vai ter a função de catalisar e de trazer o interesse de academias de cientistas e do governo para o assunto. Outras pesquisas devem ser realizadas posteriormente a essa pesquisa inicial", informa o coordenador do projeto.

Segundo Filizola, as pesquisas que os antropólogos do projeto estão propondo terão duas linhas de ação. A primeira será executada pelo grupo de gestão propositiva, que estará fazendo a mediação entre os indígenas e os demais grupos de pesquisas do projeto. Esse grupo será coordenado pela antropóloga Manuela Carneiro da Cunha.

Antropólogos vão subsidiar a regulamentação

Já a pesquisa antropológica propriamente dita terá o objetivo de trazer subsídios para a regulamentação da vacina do sapo. Se um dia a vacina for regulamentada, ou seja, tiver normas e regras para serem aplicadas, é importante que sejam sistematizadas as informações sobre as formas que os índios utilizam a secreção do sapo. O objetivo geral da pesquisa antropológica será a de sistematizar as informações dos três grupos indígenas considerados experts no Kampô, que são os Katukina, os Yawanawá e os Kaxinawá.

"Os antropólogos estarão em contato com essas etnias levantando quais são as espécies de anfíbios que elas utilizam para aplicar a vacina, quais são as formas de coleta desses anfíbios, em que época do ano elas ocorrem, em que quantidades, como retiram a secreção, de que forma é preservada a substância e de que forma os índios aplicam a vacina nas pessoas, quais os cuidados que devem ser tomados e as pré-condições necessárias para se ter um melhor resultado da aplicação", assinala Filizola.

Segundo o coordenador do Projeto Kampô, essa pesquisa não colocará os índios como meros objetos do estudo, uma vez que eles serão treinados e remunerados como pesquisadores indígenas, atuando como sujeitos ativos da investigação científica.

Sérgio Valle
Mulher Kaxinawá toma vacina do sapo depois do resguardo

Além disso, os antropólogos estarão levantando, em parceria com os pesquisadores indígenas, informações sobre o ambiente e a preservação do sapo no sentido ambiental, descobrindo quais são as condições necessárias para se dispor de bastante sapos na região. "O estudo estará levantando o que os índios têm de conhecimento sobre a biologia do sapo e o que eles já fazem em termos de cuidados para evitar a perda da espécie", completa.

Grande fonte de novas moléculas

Os anfíbios têm um grande potencial para serem usados como fontes de novas moléculas. Os especialistas consideram que os anfíbios, por viverem em dois ambientes, (o úmido e o terrestre), e por terem a pele permeável, possuem um aparato químico muito grande e um arsenal de moléculas bastante complexas na sua pele. Dessa forma, é comum encontrar neles moléculas antifúngicas, antibactericidas e antimicroorganismos de uma forma geral.

Romerito Aquino
Herpetólogo Bruno Filizola, coordenador do Projeto Kampô

Os anfíbios são detentores de um grande potencial que ainda não é muito aproveitável, principalmente no Brasil, onde têm sido verificadas poucas patentes e usos econômicos dessas moléculas. Já em outros países, isso ocorre muito, principalmente nos Estados Unidos, no Japão e em alguns países da União Européia e em Israel, onde as pesquisas já estão bastante avançadas.

Segundo Filizola, uma pesquisa do Ibama relata que o Brasil deve estar perdendo de cinco a oito bilhões de dólares por ano em relação a fármacos que foram desenvolvidos a partir de suas plantas e de sua biodiversidade. "Esse é o dinheiro que a gente perde por não ter uma forma de se proteger contra a biopirataria, nem tão pouco investir adequadamente no desenvolvimento científico e tecnológico nacional", assinala.

Para o herpetólogo, a grande importância do Projeto Kampô é que o governo brasileiro está agora se esforçando bastante para criar um caso positivo no Acre do uso dos recursos genéticos para uma atividade econômica, onde exista uma repartição justa e eqüitativa de benefícios para os detentores de conhecimentos tradicionais.

"O próprio Ministério do Meio Ambiente, que é o principal órgão que regula e cria as leis de acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais, está criando um caso que possa ser exemplo de difusão dessa legislação para que as comunidades tradicionais saibam de seus direitos e estejam preparadas para negociar em situações semelhantes a essa, tendo em vista que o país tem a maior biodiversidade do mundo, tem a maior diversidade cultural e um grande potencial de fármacos, cosméticos e outros produtos, que podem ser desenvolvidos a partir dessas informações genéticas e culturais", completa Filizola.

 
 
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Rio Branco-AC, 27 de novembro de 2005
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