Romerito Aquino
O estabelecimento de programa de pesquisa sobre secreções
de sapos e a criação de um laboratório e de uma
coleção biológica de secreções desses
anfíbios, todos ligados ao Instituto de Pesquisa sobre Biodiversidade,
que está sendo instalado em Cruzeiro do Sul como parte do complexo
da futura Universidade da Floresta, extensão da Universidade
Federal do Acre (Ufac).
Essa deve ser uma das ações concretas,
no Acre, do desdobramento do Projeto Kampô, que o Ministério
do Meio Ambiente e instituições públicas e privadas
de pesquisas começarão a executar no próximo ano
no Acre para estudar a viabilidade científica da vacina do sapo
Kampô e a produção de fármacos a partir dela,
com repartição justa e eqüitativa de benefícios
em favor dos índios acreanos que a usam desde os tempos imemoriais.
Propostos pelos antropólogos chamados para realizar
os estudos sobre o conhecimento indígena relacionado ao uso do
sapo e seus aspectos etnoecológicos, o programa de pesquisa e
o laboratório visam produzir experiências positivas de
valorização da sócio-diversidade amazônica,
com agregação de valor na própria região.

Povo Kaxinawá busca a energia para o trabalho
e as manifestações culturais da vacina do Kampô
Segundo a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha,
que vai coordenar as pesquisas antropológicas do Projeto Kampô,
os dois instrumentos técnicos propostos garantem a transferência
de tecnologia e de ciência para a região do Vale do Juruá.
Nessa região acreana, uma legião de herpetólogos,
biólogos, bioquímicos, médicos e outros cientistas
brasileiros irão executar o maior projeto que se tem notícia
no país de bioprospecção de fármacos com
repartição justa de benefícios em favor das populações
tradicionais.
Para a antropóloga, a transferência de
tecnologia e de ciência para o Acre se dará com a capacitação
técnica da população local tanto para a coleta
e identificação de espécies de sapos da região,
quanto para o isolamento, a identificação de estrutura
e a síntese de peptídeos presentes nas secreções
desses anfíbios em laboratório de espectrometria de massa
a ser instalado em Cruzeiro do Sul.
Segundo Manuela Carneiro, a Amazônia brasileira,
no geral e o Acre, em particular, apresentam vantagens comparativas
com outras regiões do mundo na produção de peptídeos,
que são as moléculas revolucionárias na cura de
novas doenças no mundo. "O Vale do Alto Juruá, no
Estado do Acre, revelou ter um número recorde de espécies
de anfíbios", diz a antropóloga, ao informar que,
enquanto foram constatadas 79 espécies nas regiões de
Pakitza e Tambopata, no Peru, nesta região acreana a sua equipe
de pesquisa já havia descoberto até o ano de 2000 nada
menos que 113 espécies de anfíbios.
Nesta terceira e última parte da série
de reportagens que o Página 20 publica desde sábado sobre
a riqueza que vem da floresta a partir da vacina do sapo Kampô,
será possível conhecer, a seguir, a opinião de
antropólogo, índio, curandeiro e doutor em desenvolvimento
sustentável sobre a realização das pesquisas científicas
previstas para a selva acreana. Veja, também, depoimentos de
pessoas que já tomaram a vacina do sapo Kampô.
Índios já não
suportam tanto roubo
Além de contrários ao comércio
da vacina do sapo, os índios acreanos não suportam mais
serem "roubados" em seus conhecimentos sobre os produtos que
fazem uso desde os tempos imemoriais para melhorar a qualidade de vida
na floresta.
O líder indígena Sabá Haji Manchineri
do grupo indígena Manchineri, considera que os índios
não são contra o desenvolvimento e a busca de cura para
as enfermidades da humanidade a partir dos produtos florestais que usam.
"Só não podemos permitir que em nome desta se utilizem
de maneira injusta e inadequada tanto nossos saberes como nossos recursos.
Esta (vacina do sapo) e outras medicinas podem ser estudadas, porém,
os detentores dos saberes e conhecimentos devem ser compensados justamente
e não só como meros informantes", destaca Manchineri.
Para Sabá, o fato da vacina já ter adquirido
valor comercial fora das aldeias vai contra o "sistema" utilizado
pelos índios, que usam a secreção do sapo "como
um elemento de aperfeiçoamento e equilíbrio humano através
de orientações espirituais e do poder de cura do organismo,
do corpo e da mente de quem a usa." Manchineri considera que isso
também é válido para outras medicinas usadas como
fruto da sapiência e do conhecimento ancestral dos índios.
"Queremos ser valorizados"
"Seria muita pretensão de minha parte pretender
falar por todos os índios, mas conforme meu conhecimento e convicção,
nós esperamos ser reconhecidos e valorizados por nossa contribuição
à humanidade e que sejamos beneficiados em especial economicamente",
afirma o líder indígena.
Sabá Manchineri faz questão de ressaltar,
também, que os índios não temem o roubo de seu
patrimônio pelos "parasitas" que vivem da miséria
humana. "Não temos medo pelo roubo de nosso patrimônio,
pois sempre o fizeram os parasitos que vivem da miséria humana.
No entanto, nos indignamos ao saber, ver e não poder evitar tantas
usurpações, saqueios e desonestidade da dita civilização".

Sabá Manchineri em ato cultural do povo Sachila, em Santo Domingo,
no Equador
Em relação ao controle e a liberação
do uso dos conhecimentos ancestrais dos índios, Manchineri destaca
que para estudiosos, empresas e instituições, a questão
da biopirataria tornou-se um negócio e justificativas para discursos
inflamados e vazios de muitos atores que vivem de reunião em
reunião para marcar outras. Segundo ele, enquanto a Convenção
da Diversidade Biológica estiver se "arrastando" entre
a disputa de quem se beneficia mais e a burocracia com a produção
de papéis e mais papéis, instâncias e mais instâncias,
os povos indígenas vão continuar vulneráveis em
seus direitos de uso e conhecimento da riqueza existente na selva. Manchineri
conclui dizendo que essa situação não vai mudar
enquanto os governos dos países onde existem as práticas
das medicinas tropicais não conseguirem ser livres e soberanos. |