ENCARTE ESPECIAL

Vacina é o "ouro negro" da atualidade

Pesquisador considera que mito da biopirataria mais atrapalha do que contribui para o avanço das pesquisas


O doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília, Ecio Rodrigues, prefere analisar a questão das pesquisas científicas sobre a vacina do sapo Kampô invocando a história das transferências das genuínas matérias-primas nacionais para outros países. "Pode-se dizer que os recursos genéticos, como a vacina do sapo, são o 'ouro negro' - denominação dada à borracha no século XIX - da atualidade", diz.

Nessa condição, segundo Rodrigues, assim como aconteceu com o "ouro negro" do passado, os recursos genéticos estariam sendo levados pelos espertos europeus e americanos. "A verdade é que diversas espécies vegetais importantes para o Brasil, como café, manga e eucalipto foram contrabandeadas de outros países. A biopirataria não é, portanto, fenômeno recente. Além do mais, o uso biotecnológico requer aparato técnico-científico bem mais complexo do que evoca a singela imagem de um gringo andando na floresta, transportando uma mochila cheia de mato", destaca o pesquisador.


Elcio Rodrigues: “O capitalismo dá os lucros para que faz as pesquisas”

Rodrigues recorda que, da mesma forma que muitas espécies amplamente empregadas no Brasil foram trazidas de outras nações, muitas espécies existentes na Amazônia foram levadas para outros países. "A mais famosa foi a seringueira, em 1876. Um século antes, em 1746, havia sido o cacau, que antecedeu a cinchona [planta da qual se extrai o quinino, usado no combate à malária], transportada em 1860", assinala o pesquisador.

Para Rodrigues, esse tráfico ocorre cada vez que uma espécie adquire importância mercadológica que justifique os investimentos na domesticação. "O pior é que geralmente são os próprios amazônidas que realizam esse investimento. Uma vez domesticada a espécie, impedir a transferência é muito difícil, tanto do ponto de vista da fiscalização, quanto em razão dos acordos internacionais que protegem o intercâmbio de material genético, dos quais o Brasil é signatário", lembra.

Segundo Rodrigues, o roubo de determinado material às escondidas, como sugere a crença na existência de biopiratas, não passa de fantasia dos filmes de espionagem, uma vez que realizar a introdução de determinado material genético requer muito tempo de experimentação e de tentativas, sendo difícil conceber que isso possa ocorrer clandestinamente.

Romerito Aquino
Povos indígenas do Acre em Brasília no seminário em
que se discutiu o Parque Nacional da Serra do Divisor

Dividendos para quem descobrir

"O caso recente do sapo Kambô é bem ilustrativo. A indústria, nacional e internacional, vem pesquisando o emprego de suas secreções há anos. E agora parece terem descoberto uma utilização importantíssima para a medicina atual. Quem descobriu vai ficar, seguramente, com os dividendos financeiros dessa descoberta. Coisas do capitalismo no mundo", assinala.

O pesquisador ressalta que o mito da biopirataria mais atrapalha que contribui. "A histeria em torno do tema tem afastado pesquisadores que poderiam estar auxiliando na identificação de espécies importantes para o país e para a humanidade", diz. Para ele, o problema é que a dificuldade em se distinguir entre utilização de recursos genéticos e produção de espécies florestais é muito grande. "Confunde-se o que seria acesso a recursos florestais para uso biotecnológico com o acesso à produção florestal de qualquer matéria-prima. Assim, a produção de borracha, de castanha ou de outro produto fica condicionada à satisfação de exigências legais descabidas, o que torna a atividade florestal ainda menos atrativa do ponto de vista normativo. Para se ter uma idéia, a Assembléia Estadual do Acre aprovou uma lei de acesso aos recursos genéticos do estado que, se aplicada com rigor, coíbe a produção de qualquer recurso florestal, o que seria extremamente danoso para a manutenção do ecossistema", destaca Rodrigues.

Para Ecio Rodrigues, uma normatização correta e sensata do uso dos recursos do ecossistema destinados à biotecnologia é, sem dúvida, o melhor caminho a ser trilhado. E a instalação do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), em Manaus, construído com recursos da Suframa, foi o melhor começo. "A histeria esconde a incompetência para lidar com o tema e traz prejuízos graves como foi a extinção da Organização Social Bioamazônia, no final do governo Fernando Henrique, que teria acelerado em mais de cinco anos a inauguração do CBA. Um prejuízo irrecuperável no tempo e na riqueza da Amazônia", conclui Rodrigues.

Como foi sua experiência ao tomar a vacina do sapo Kampô

Txai Terri Aquino
Antropólogo

"Instantes depois de tomar a vacina, senti minha cara inchar, uma náusea profunda, nunca senti uma coisa tão forte de náusea. Aí comecei a vomitar o branco da caíçuma e depois passei a vomitar o que os índios chamam de amarelo, que é a bílis. Praticamente a tua bílis seca, você vomita ela todinha e depois você fica bem leve, maneiro, tem mais disposição, realmente senti isso. E tem sorte inclusive não só para a caça, mas também para o amor, para arranjar namorada. Quando eu tomei, um índio velho falou assim: 'heim Txai Terri, tu tomou vacina e muitos desses caras que não tomaram e que vieram contigo (o Macedo, o Nei) eles vão ficar tudo com inveja de ti porque tu vai ter muita sorte no amor e eles não vão ter'. Então, tem essa crença, que dá sorte não só para a caça, mas também para mulher. A mulher fica mansa, a mulher chega mais perto do cara também. Ou seja, tem uma aura boa para tudo. Você fica com mais disposição, acorda mais cedo, acorda menos cansado. Acho que essa limpeza no organismo é como uma máquina, que precisa de uma lubrificação. Eu, por exemplo, quando vomitei a bílis foi uma coisa extremamente desagradável, mas logo depois que você toma banho, passa o efeito total. O mal-estar dura até o tempo que você toma banho, se lavou e aí começa a diminuir as náuseas, os vômitos, mas mesmo tomando banho ainda vomitei um bocado de bílis, um bocado do amarelo".

Sérgio Valle
Povo Kaxinawá tem muitas manifestações culturais

Jornalista Jaime Gesisky
Catarinense, radicado em Brasília, que escreve há cinco anos sobre a biodiversidade brasileira

"Foi como se eu tivesse chegado ao portal que separa o mundo dos vivos e o além. Dali pra frente, era o desconhecido. O corpo, eu não dominava; meus olhos eram só uma janela por onde entrava a intensa luz daquela manhã ensolarada. Fechados os olhos, a luz era ainda mais intensa. Senti que podia progredir, mas fui chamado de volta ao corpo com a ajuda de uma cantiga indígena tão estranha quanto tudo o mais. O mal-estar era geral, resultando numa crise de vômitos. Da minha boca, saía uma secreção esverdeada. Bílis, talvez. Minhas veias pareciam que iam explodir. Aos poucos, foi passando...."

 
 
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Rio Branco-AC, 27 de novembro de 2005

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