Considerado um misto de curandeiro e ativista ambiental, Davi Nunes
de Paula, 30 anos, nascido e criado dentro de seringais do Alto Juruá
acreano, tomou a vacina do Kampô quando tinha 10 anos. Desde essa
época, não só a toma como a aplica por onde anda
pelo Acre e nas grandes cidades, para onde costuma ir, principalmente
a Brasília, para defender projetos ambientais sustentáveis
em favor de sua região de origem, situada nos seringais do rios
Crôa e Alto Alagoinha, a quase um dia de barco da cidade de Cruzeiro
do Sul.

Jovem Kaxinawá de uma das aldeias do rio Jordão, no município
do mesmo nome
"Sou um ativista ambiental, um articulista ambiental.
Isso tudo foi o sapo e o daime que me ajudaram. Eu tomo daime há
mais de 10 anos. A minha sabedoria é do meu povo tradicional.
Eu comecei a tomar e a aprender sobre a vacina há 20 anos. Eu
pratico uma ciência natural, que ninguém aprende em laboratório,
em estudo científico. A gente aprende a coisa como ela é
mesmo, um instrumento de Deus, sagrado que ela é", diz Davi
em entrevista concedida em Brasília para falar das pesquisas
científicas que serão realizadas pelo Projeto Kampô.
Além de exercer o cargo de secretário-geral
da Associação dos Seringueiros Agro-Extrativistas da Bacia
do Rio Crôa e Alto Alagoinha (Asaebcal), fundada em 2001, onde
habitam quase duas mil pessoas numa área de floresta de cerca
de 300 mil hectares, Davi Nunes é um dos curandeiros acreanos
mais procurados hoje para aplicar a vacina do Kampô, trabalho
pelo qual diz nada cobrar. "Trabalho há 20 anos com a vacina
do sapo lá no rio Azul, onde nasci. Quem me ensinou foi um velho
seringueiro, que era rezador. Ele me ensinou pra matar caça.
Quando eu tomei, ele me mostrou muita coisa que eu não conhecia.
Eu era menino inocente e o sapo me transformou, me abriu o coração,
me ensinando a ser o que sou hoje", diz Davi, ao lembrar que a
partir de 1990 passou a ter contatos com os índios Katukina e
com o antropólogo Txai Terri e o sertanista Macedo, que lhe ensinaram
as culturas da Ayhuasca (Santo Daime), da caíçuma, do
sapo Kampô e outras existentes nas aldeias.
Filho de pai tabajara, grupo do Ceará, e mãe
filha de índia do alto rio Tarauacá - "minha avô
foi pega com cachorro na época das correrias e amansada lá
pelo alto Tarauacá", diz - Davi Nunes faz questão
de destacar sua descendência de coboclos, com muita afinidade
com todos os índios do Acre.
"Falta esclarecer muita coisa"
No início da entrevista sobre pesquisas científicas
sobre a vacina do sapo Kampô, Davi mostrou-se absolutamente cético
com o assunto. E começou a disparar perguntas: "Depois de
estudarem, vão fazer o que? Quais os benefícios que as
comunidades vão ter desse estudo? Que critérios vão
ser adotados para esses estudos serem feitos? Isso tudo tem que ser
avaliado", indaga, demonstrando indignação.

Curandeiro Davi Nunes, da comunidade dos rios Krôa
e Alagoinha
Para Davi, a vacina deveria ser salvaguardada para que
somente o povo da mata pudesse usá-la. "Se vão botar
em laboratório, botar em farmácia, isso é uma coisa
complicada. Primeiro porque vai levar anos para chegar a isso. E ainda
corre o risco das populações não poderem utilizar.
Daqui a pouco, nós podemos ser presos por não poder usar
aquilo que é nosso, aquilo que faz parte da nossa vida, da nossa
cultura, é o nosso remédio, porque a ciência estará
dizendo coisas que muitas vezes não é verdade. Quando
se começa a estudar, se começa a pesquisar, a ciência
é muito danada, começa a achar muita coisa", diz.
Segundo Davi, a vacina do sapo Kampô contém
substâncias poderosas que agem no físico e no espírito.
"Então, a ciência não pesquisa a espiritualidade.
Ela só pesquisa o princípio ativo. Os caras que forem
pesquisar a vacina vão ter que ter muito critérios, têm
de ser muito éticos para não colocar em risco toda a história
de um povo, para não colocar em dúvida toda a sabedoria
de um povo, que mais de mil anos vem estudando e vem tomando essa vacina,
tratando as suas doenças e seus males físicos e espirituais",
completa.
Davi Nunes também faz questão de ressaltar
que a medicina alopática não respeita as culturas dos
povos. "Ela acha que sabe de tudo, mas não sabe, é
engano. Na mata, tem muito conhecimento, tem muitos pajés, tem
muitos velhos que são livros de sabedoria. Essas pessoas já
vêm tratando gente há muitos anos e vêm fazendo isso
até hoje", diz. Davi acrescenta, ainda, que os povos tradicionais
continuam sendo roubados todos os dias, pois não existe nenhuma
lei que garanta a proteção dos conhecimentos tradicionais,
que garanta que aquilo que vai ser salvaguardado, não vai ser
roubado pelos cientistas estrangeiros, como já ocorreu.

Índios Katukina merecem mais cuidados porque moram na
beira do asfalto da BR-364, entre Tarauacá e Cruzeiro do Sul
O ativista, que confessa já ter muitos "clientes
importantes" no Acre e em Brasília, defende que se houver
estudo científico para legitimar o conhecimento dos povos tradicionais
através da ciência, tem de ser legitimada, em primeiro
lugar, a garantia que as populações tradicionais vão
ter. "Isso precisa ficar bem delineado no processo para que, depois,
não digam que ninguém discutiu nada. Hoje não se
tem garantia de nada disso. A Amazônia tem sido desmatada, devastada,
roubada a toda hora e ninguém não sabe para onde ir, na
verdade. Eu temo os objetivos desses estudos. Vão ser feitos
para que? Quais os critérios? Vai ser só pela cabeça
do Probem, só porque os índios mandaram uma carta? Existem
muito mais coisas para serem estudadas. O Kampô é só
uma das coisas que estão em evidência. Mas existem muitas
outras coisas que a gente conhece além do Kampô. Lá
mesmo, em nossas comunidades, nós temos inúmeras qualidades
de plantas medicinais que existem na mata", assinala.
Segundo Davi Nunes, em primeiro lugar, deveriam ser
criadas leis que garantissem a legitimidade das comunidades da floresta
e do uso costumeiro que essas fazem dos recursos florestais. Para poder
fazer qualquer coisa com as riquezas da floresta tem que ser garantido
que as populações vão continuar usando a seus modos.
"Por isso, acho precipitado a vinda dos cientistas para estudar
a vacina porque não há nenhuma lei que salvaguarde esses
conhecimentos", conclui.
Antropólogo Txai Terri destaca
o combate à biopirataria
Trabalhando há quase 30 anos com os índios
acreanos, o antropólogo Txai Terri Aquino pode ser considerado
hoje uma espécie de enciclopédia de conhecimento de seus
costumes e de suas culturas de tradição imemorial. Com
a experiência de quem já percorreu quase todos os rios,
igarapés e aldeias do Vale do Juruá acreano, Txai Terri
atesta que a aplicação da vacina do sapo Kampô é
um costume dos povos indígenas da língua Pano, cuja origem
se encontra perdida no tempo.

Txai Terri Aquino (camisa verde) num dos
seminários, em Brasília, onde se discutiu o Projeto Kampô
"Esse costume vai muito longe, vem dos tempos imemoriais.
Eu não sei. Ninguém sabe explicar, nem o índio
mesmo vai saber quem foi o primeiro a usar. Acho que esses povos vão
experimentando. É fruto de experiências do tempo, porque
o sapo é verde, porque tem cores. Ninguém sabe ao certo.
O antropólogo não está preocupado com a origem,
pois está preocupado em saber como é que os povos utilizam
isso", ensina Terri, ao lembrar que no seminário do qual
participou este ano em Brasília sobre o Projeto Kampô,
foi mostrada uma foto de um índio Katukina com mais de 100 aplicações
da vacina nos braços e no peito.
Segundo Txai Terri, a tradição do uso
da vacina é utilizada no meio dos índios, sobretudo, no
contexto da caça. "O caçador, quando está
panema, vai várias vezes para a mata e não mata nada.
Às vezes, o cara vê a caça, atira, mas não
mata. Às vezes, nem vê nada e aí o cara começa
a sentir que tem alguma coisa ruim, diferente e pensa assim: o que está
acontecendo comigo que eu não estou matando nada e tal. Então,
isso é muito utilizado nesse contexto do caçador. Aí
o cara vai e toma aquela injeção de sapo", diz.
Para continuar em seguida: "No Acre, se fala muito
injeção de sapo, aqui no Centro-Sul, o pessoal fala vacina
de sapo. E quando ele toma a injeção de sapo parece que
abrem os sentidos dele, tira o cheiro de predador, a caça fica
mais mansa, o cara tem mais sorte, mata a caça com mais facilidade.
O caçador toma para tirar esse azar, essa panema e, de fato,
não é uma superstição não, é
um dado estatístico porque quanto mais você tomar a vacina,
mais você é um bom caçador. Isso vários caçadores
me falaram que a injeção realmente os tornam melhores
caçadores?".
Resultados só no longo prazo
Txai Terri destaca que em outros contextos onde os índios
tomam a vacina do Kampô é quando a pessoa está amarelão,
com preguiça. "O menino que está viçando,
comendo barro, está preguiçoso, os pais mandam fazer alguma
coisa, não quer ir, não quer trabalhar, só quer
vagabundar, aí dão injeção do sapo para
dar mais coragem para o menino, para ele ter mais disposição
para o trabalho. Nas aldeias, até cachorro toma, principalmente
no contexto da caça. Vários caçadores dão
para os cachorros tomarem essa injeção de sapo para eles
se tornarem bons de caça, não abandonar o rasto da caça,
para irem até o fim da caçada, farejando a caça.
As mulheres também tomam. Eu vi mulheres Yawanawá tomando
em contexto de festa, de rituais. Eu não sei se elas tomam fora
disso. Mas pode ser também uma espécie de purgante, de
purgativo, de limpeza. Também está associado à
crença indígena de que vomitar é um ato de saúde".

Índios costumam misturar a secreção
do sapo com rapé
Sobre as pesquisas cientificas, Txai Terri lembra que
a idéia de executá-las começou com um grupo de
Katukina pedindo à ministra Marina Silva, numa carta simples,
singela e de poucas linhas, que ela fizesse "alguma coisa"
porque alguns Katukina estavam vendendo a vacina para uma mulher de
São Paulo, que estava cobrando R$ 150 a dose e pagando a eles
quase nada.
"Os que não vendiam começaram a questionar
porque os outros estavam entregando a vacina quase de graça.
Eles escreveram essa carta para a Marina já preocupados com essa
coisa da biopirataria do conhecimento tradicional que eles têm
do sapo, que os Kaxinawá e os Yawanawá chamam Kampun e
os Katukina falam Kampô. A pesquisa científica vai ser
legal pelo menos para evitar essa biopirataria. E talvez esse trabalho
de bioprospecção que a Embrapa, juntamente com o Incor
lá de São Paulo, vão fazer pesquisas clínicas
terá resultados de longo prazo".
Segundo Txai Terri, as pesquisas se destinam a descobrir
moléculas que possam se transformar em medicamentos importantes
e, daí, isso possa trazer alguma contribuição para
essas populações que têm o conhecimento tradicional.
"Os cientistas já vão partir sabendo qual é
o sapo que resulta na vacina. Então, eles estão partindo
do conhecimento do índio. Eles vão descobrir quais são
as moléculas e princípios ativos que são utilizadas
na vacina. Mas um produto que possa sair da floresta leva de 11 a 13
anos para se transformar num medicamento".
Para Aquino, uma vez que se estude uma molécula,
um princípio ativo que sirva de medicamentos, os índios
que possuem esse conhecimento tradicional podem ser beneficiados com
algum recurso. "Mas isso é uma coisa meio a longo prazo,
não é uma coisa imediata. Por isso que não é
bom criar muita expectativa. O que se sabe é que já existem
duas moléculas que foram patenteadas. Isso pode ajudar a combater
a biopirataria e pode trazer alguns benefícios para os índios
a longo prazo".
Para o antropólogo, a curto prazo, as pesquisas
podem evitar a biopirataria, impondo mais respeito aos conhecimentos
das população tradicionais, pois não tem nenhuma
lei no Brasil que combata a biopirataria. "O que existe é
apenas uma decisão que proíbe a divulgação
(da vacina). Mas, mesmo assim, com a pesquisa vai ter um controle mais
efetivo e se vai fazer uma pesquisa com mais profundidade. Possa ser
que dessas pesquisas de bioprospecção e clínica
saia algum medicamento importante, que os índios possam tirar
algum proveito", conclui Aquino. |