

No próximo dia 18 de junho, a imigração japonesa no Brasil completará um século. Apesar de o maior número se concentrar em São Paulo, as colônias espalhadas por todo o país vão celebrar a data simultaneamente. E no Acre não será diferente. A Associação Para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil instalou uma seccional no Estado apenas para cuidar dos preparativos.
À frente da programação, a empresária Melany Takashima está reunindo todo o acervo possível relacionado à imigração dos japoneses no Acre no século passado. “Os japoneses que moram aqui em Rio Branco tiveram a idéia de comemorar a data, que é muito importante tanto para cá quanto para o Japão. Queremos juntar a geração recente àquela primeira que chegou aqui há 50 anos”, conta ela.
Proprietária do primeiro - e até o momento único - restaurante japonês de Rio Branco, o Shirakawa (que significa “rio branco” no idioma nipônico), Melany é nissei, nascida em Santo André (SP). Faz parte da nova geração que veio para o Estado há cerca de dez anos.
“Queremos resgatar a saga e a contribuição das colônias japonesas para o desenvolvimento do Brasil. É um povo muito disciplinado, de valores éticos e que teve a oportunidade de trabalhar e crescer”, declara Melany. “A vinda dos japoneses foi boa para os dois lados. Eles conseguiram se adaptar muito bem à sociedade brasileira, chegando até a alcançar altos postos, como ministérios, Aeronáutica e Exército.”
Programação – As datas e locais para o festival de homenagem à imigração no Acre ainda estão sendo fechadas, mas a empresária já adiantou o que o público acreano poderá esperar de bom. Haverá uma exposição de elementos da cultura nipônica - como indumentárias, Ikebana (arranjos florais) e origamis (arte em dobras de papel) -, exibição de mangás (desenhos animados) e filmes, palestra sobre o Protocolo de Kyoto, almoço de confraternização regado à tradicional culinária japonesa e uma grande solenidade realizada pelo governo estadual.
Além de Melany, a associação também é composta por japoneses de destaque na sociedade acreana, como o médico ginecologista Tetsuo Kawada (que será um dos homenageados pela sua contribuição à saúde da população acreana há várias décadas), Carlos Sasai, presidente do Sindicato da Indústria de Construção Civil do Estado do Acre (Sinduscon), as próprias famílias residentes em Senador Guiomard e o maestro Mário Brasil, que, apesar de não possuir nenhuma ascendência relacionada à Terra do Sol Nascente, é um profundo admirador da cultura. “Ele vai realizar um concerto unindo a melodia japonesa aos instrumentos brasileiros”, revela Melany.
Genealogia japonesa
Nikkei: São os descendentes de japoneses
Nissei: São os filhos dos nikkeis
Sansei: Filhos dos nisseis
Yonsei: Filhos dos sanseis
Dekassegui: Nipo-brasileiros que foram ao Japão trabalhar a partir do fim dos anos 80 |
Voltar? Não mais
Apesar de todos os percalços por que passaram as famílias que decidiram permanecer em solo acreano na década de 1960, é praticamente unânime a resposta de seus membros quando indagados se um dia pretendem voltar a
morar na terra-natal: “Não!”.
“O Japão é muito bonito e bom para trabalhar por um curto período de tempo e ganhar dinheiro. Lá, trabalha-se por dois meses e já se compra uma BMW. Mas, para ter um futuro, é melhor aqui no Brasil. Lá, operário vai ser sempre operário”, opina “Seu Fumiu”. “Não tem país melhor para se morar do que o Brasil.”
A mãe dele, dona Kazuki, mesmo sem ter aprendido o idioma da terra que a acolheu, concorda. “Ela não reclama de nada. Foi bem recebida e nunca vai dizer que a vida que levou aqui foi ruim. Se tivesse sido ruim, teria voltado”, traduz a filha Mayumi. Afinal, no Acre o sol também nasce. E para todos.


Por volta das 10 horas, dona Kazuki Hamaguchi, 81, costuma assistir ao noticiário no canal japonês NHK. Tal fato seria comum em qualquer residência daquele país. No entanto, a cena acontece diariamente numa casa do município de Senador Guiomard (AC), onde mora uma das 12 famílias de imigrantes japoneses que chegaram ao Acre no ano de 1959, em busca de melhores condições de vida no período pós-explosão das bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki.
Dessas famílias, apenas três perseveraram e continuaram em solo acreano até hoje. Apesar de estar há quase 50 anos vivendo no Brasil, dona Kazuki mal fala ou entende português. O marido, Hiroshi Hamaguchi, morreu aos 70 anos, vítima de Acidente Vascular Cerebal (AVC). Com ele, ela gerou oito filhos, que lhes deram 19 netos e, até o momento, 11 bisnetos.
Um dos filhos mais velhos, Hirofumi (mais conhecido como “Seu Fumiu”), aportou junto com os pais na Amazônia aos seis anos de idade. Após anos ajudando no sustento da casa por meio da lavoura, hoje ele se dedica ao comércio: é proprietário do Supermercado Oriente, que completa 20 anos no próximo dia 21.
“Quando chegamos aqui, sentimos muito a diferença de clima e da alimentação. Na época, só havia dez casas, nem asfalto tinha”, lembra Fumiu. “Eu ia a pé para Rio Branco com meu pai para vender as hortaliças, porque não havia transporte. Foi assim até conseguirmos comprar uma bicicleta”, conta ele, apontando para fotos históricas, como a de centenas de japoneses - entre os quais a própria família - momentos antes de embarcar no navio Africa Maru, numa viagem que durou seis meses até chegar à região amazônica.
A própria matriarca dos Hamaguchi se reconhece na foto, por volta dos 30 anos de idade, quando saiu da cidade de Kumamoto em busca de um futuro melhor do outro lado do mundo. Por preservar o idioma pátrio, todos os filhos de dona Kazuki, mesmo os nascidos no Estado, sabem falar japonês.
A dona de casa Mayumi, legítima acreana, é quem traduz as perguntas da reportagem para a mãe, que, simpática, responde no ininteligível japonês. “Imagina como era isso aqui há 50 anos. O impacto foi muito grande para nossos pais sair de uma civilização como a do Japão e chegar aqui naquela época. Nossa mãe morria de medo dos rugidos das onças”, conta Mayumi.

Largados à própria sorte
“Nós fomos largados aqui sem nenhuma técnica para lidar com seringueira, nada. Papai cortou tudo, uns cinco mil pés, tempos depois, para virar capoeira e daí plantar o roçado”, relata José Hiroshi Nishizawa, maior fornecedor de amendoins da região.
É dele o famoso amendoim vendido na não menos conhecida Lanchonete do Japonês, localizada na BR-317, que corta a cidade de Senador Guiomard. O local é parada obrigatória para os viajantes que vão ou estão vindo dos municípios de Plácido de Castro, Capixaba, Xapuri e Brasiléia, por exemplo.
Casado com a nordestina Francisca Pereira, que assumiu o comando da lanchonete, o agricultor é pai de três filhos biológicos - Riromichi, 29, Kyoshi, 27 e Toshimi, 24 - e dois adotivos, Cibelle, 26, e Marcela, 3.
José é o único dos quatro irmãos da família Nishizawa, vinda de Nagasaki, a permanecer na lavoura. “Nenhum deles quer saber de mexer com terra. Luiz [o mais novo, nascido no Acre] voltou para o Japão; Maria e André [o mais velho] comandam uma malharia em Rio Branco”, ele explica.
Assim como na família de Fumiu, o patriarca dos Nishizawa, Masachi, também morreu - aos 59 anos, vítima de câncer -, deixando viúva dona Ichi, 79, que hoje mora na capital com a filha mais nova, Maria Mitsuyo (mais conhecida como Maria Japonesa, cuja história também é narrada nesta reportagem).
Quando o roçado ficou pronto, a família plantou de tudo um pouco até aprender a colher somente o necessário, para não sobrar, e a “descobrir” o amendoim. Foi quando finalmente conseguiu prosperar. Os filhos vinham para a capital vender amendoim torrado na porta do cinema. Atualmente, José deixou de plantar e passou a comprar os grãos dos produtores locais, tornando-se o maior distribuidor da região.
“Meus pais, sem saber de nada quando chegaram, lutaram muito, fizeram de tudo até conseguir se estabilizar. Há 30, 40 anos, era tudo muito devagar, não tínhamos para quem vender as frutas e verduras. Voltava tudo. Hoje, podemos levar ‘carradas’ de produtos, que vendemos tudo”, relata José.
Além da distribuição do amendoim e da venda de salgados, a família ainda cria peixes para abastecer o mercado de Senador Guiomard especialmente durante a Semana Santa. Das sobras dos grãos, o agricultor produz a ração que alimenta as tilápias, os curimatãs e os tambaquis do pequeno açude.

Maria Japonesa, espírito inquieto e empreendedor
Um traço que parece comum ao povo japonês é o desejo de não passar a vida inteira como subalterno, mas ser dono do próprio nariz. No caso dos imigrantes retratados nesta reportagem, todos obtiveram sucesso nessa empreitada. Um dos melhores exemplos atende pelo apelido de “Maria Japonesa”. Irmã caçula de José, Mitsuyo Nishizawa foi pioneira no ramo de comércio na família e em todos os empreendimentos que se aventurou foi bem sucedida.
Foi ela quem abriu a Lanchonete do Japonês, que hoje é dirigida pela esposa de José. Ao se casar, Maria Japonesa se mudou para Rio Branco, há 30 anos. Durante os seis primeiros anos, trabalhou como empregada em algumas empresas privadas, até mesmo numa emissora de TV, mas decidiu que o que queria mesmo era ser sua própria patroa. Foi então que abriu uma pequena taberna no conjunto Castelo Branco, onde reside há cerca de 25 anos.
Os negócios iam bem até a criação do Plano Collor, cuja política de congelamento do passivo público e a restrição do fluxo de dinheiro para tentar conter a inflação inercial causou forte redução no comércio e na produção industrial. Foi então que, para driblar a crise, Maria decidiu mudar de ramo. Comprou uma máquina de costura industrial e passou a confeccionar roupas femininas, sem, no entanto, fechar as portas da mercearia.
“Ainda vendemos muito refrigerante. Não dá para parar”, alega. Alguns anos depois, a pequena loja de confecções se transformou numa das mais conhecidas malharias da cidade, a primeira a trabalhar com bordados, chegando a empregar até 20 pessoas. “Hoje, nosso principal cliente são as empresas. Agora fazemos mais uniformes”, completa.
Dekassegui - A mãe dela, dona Ichi, também ajuda no que pode. E diz que não sente vontade de voltar para o Japão. “Mudou tudo lá. Os parentes me chamam para voltar, mas eu prefiro ficar aqui”, diz ela. Maria gerou duas mulheres - Flávia, 31, e Kyomi, 21 - e um menino, Rodrigo, 16. A mais velha chegou a trabalhar no Japão durante quatro anos e atualmente mora na Bélgica. Vai dar a primeira neta à mãe no mês que vem.
Kyomi está dividida se vai ou não passar pela experiência de ser uma dekassegui (brasileiros que emigram para o Japão) ou se permanece em sua terra natal para prestar concursos. Já Rodrigo ainda não demonstrou indícios de querer se aventurar no país de seus antepassados. Indagada se já voltou ao Japão alguma vez em todos esses anos, Maria sorri. “Eu nunca fui. Tenho vergonha, porque sou japonesa legítima e não sei falar o idioma.”
