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| Foto:
Débora Bedin |
COMO É FEITA A CACHAÇA
"Água que passarinho não bebe". "Marvada".
"Tira-vergonha". "Rabo de galo". "Engasga-gato".
E até "parati". Ao longo de dois séculos,
a aguardente, bebida produzida a partir da fermentação
da cana-de-açúcar, recebeu vários nomes - 150
registrados no Dicionário Aurélio - e a fama de ter
movimentado a economia no tempo do Brasil colonial. Mais precisamente,
a economia de Paraty.
Isso mesmo. A "água ardente", que desce pela
garganta provocando o efeito que seu principal nome de batismo
já diz, foi trazida pelos portugueses e fabricada pela
primeira vez no Brasil em um engenho do litoral paulista, no século
16. E virou moeda corrente para a compra de escravos que então
trabalhariam nas fazendas próximas. O próspero comércio
fez surgir mais de 100 engenhos produtores de aguardente na região
durante o séc. 18, afirmam historiadores. A produção
local chegou a atingir mais de 700 mil litros em 1778, produção
que não era apenas trocada por escravos, mas exportada
para Portugal e o resto da Europa.
O nome "parati" servia para diferenciar a bebida produzida
na região, que popularizou-se através dos tempos
e virou até tema de música - o samba Camisa Listrada,
criado por Assis Valente e imortalizado na voz de Carmem Miranda,
em 1937: "Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí/em
vez de tomar chá com torradas/ele bebeu parati".
Hoje restam apenas 5 fabricantes de aguardente, a maioria produzindo
de forma semi-artesanal e utilizando praticamente os mesmos princípios
de séculos atrás, como o envelhecimento em tonéis
de carvalho. Outros, como o Engenho Corisco, mantiveram-se fiéis
às tradições, utilizando a energia gerada
por uma roda d'água para o seu processo de fabricação.
A pinga já não é moeda, mas movimenta outro
tipo de economia em Paraty: a do turismo. No terceiro final de
semana de agosto, hotéis e restaurantes conseguem melhorar
sua ocupação escassa de inverno com os turistas
que visitam a cidade por causa do Festival da Pinga. A idéia
partiu de comerciantes locais em 1983 e deu certo. Barracas enfeitadas
com feixes de cana promovem degustações e comercializam
a bebida, em uma festa ao ar livre que inclui shows de música
e apresentações de rodas de ciranda.
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Débora Bedin |
Dada inicialmente aos escravos, para que estes ficassem levemente
tontos e não sentissem fome, a cachaça ganhou status.
Há quem a compare ao bom uísque escocês, já
que também passa por um processo de envelhecimento que
a deixa com um sabor cada vez mais encorpado. Até incentivo
do Banco do Brasil a cachaça ganhou, para que seja comercializada
no exterior como uma fina iguaria.
Quem diria que um dia, a cachaça faria tanto sucesso quanto
um bom vinho, saindo da marginalidade para ser a marca registrada
brasileira.
Que perdoem os amantes da velha e boa caipirinha, mas uma "purinha"
é fundamental... |