Na Rota do Dakar 2005: O Vírus do Deserto
por Klever Kolberg, da Equipe Petrobras Lubrax - (dakar@parisdakar.com.br)
12/12/2004

Quando há 18 anos informei amigos e parentes que estava de malas prontas para ir ao Rally Paris-Dakar, ouvi frases bastante estimulantes. Um amigo me disse: “Você não tem dinheiro para correr nem na Bahia, como quer ir ao Dakar?”. Meu primo também não pegou leve: “Klever, você tá tomando alguma coisa?”. Houve também quem pensou na total impossibilidade de conseguir qualquer resultado decente: “Brasileiro não tem chance neste negócio, os estrangeiros são muito fortes”. Dos mais otimistas, saiam incentivos como: “Você não tem medo de morrer seco lá no deserto do Saara?”.

Diante de tamanha confiança no meu taco, criei um espelho imaginário para rebater tanta energia negativa. Esta espécie de couraça me ajudou a formar uma imagem de que o Dakar seria apenas uma viagem cruzando o deserto. Minha lógica para chegar a esta simplificada conclusão foi a seguinte: o Dakar seria apenas uma sucessão de enduros, prova que eu estava acostumado a disputar no Brasil. Deduzi, sabe-se lá porquê, que cada etapa do Dakar seria mais simples que um dia inteiro de enduro.

Estava redondamente enganado, claro. Perto das “estradas” saarianas, os caminhos brasileiros são um tapete. As dificuldades se multiplicam exponencialmente quando você entra nas dunas. Atolar, errar o caminho e se perder completamente são problemas comuns. Além do mais, o Dakar é uma prova de velocidade – e não de regularidade. Muitas pessoas têm esta dúvida. Seu percurso é dividido em etapas diárias. Todas as noites, você acampa em um ponto e precisa chegar ao ponto designado pela organização onde está o acampamento seguinte. No Dakar 2005, os 8.956 quilômetros entre Barcelona (Espanha) e Dakar (Senegal) serão divididos em 16 etapas. No final, soma-se o tempo que cada piloto gastou para percorrer o roteiro todo. Quem tiver a menor soma, ou seja, quem tiver andado mais rápido, é o vencedor.

Para quem estava esperando um “viajão” do sonho, o negócio mais pareceu uma engrenagem de moer máquinas e competidores. Para piorar, neste ano da minha estréia (1988), a organização da prova exagerou na dose. Os organizadores pareciam querer fazer uma limpa e ver pouquíssima gente cruzando a linha de chegada no famoso Lago Rosa, em Dakar.

Com uma moto mal preparada e absurdos 60 quilos de bagagem (não tinha nenhuma estrutura de apoio), não fui longe. Voltei praguejando o Dakar e sem o menor desejo de retornar. Doce ilusão. Sem saber, havia sido contaminado pelo “vírus do deserto”. E, até hoje, 18 anos depois, não encontrei a vacina para este bendito vírus.

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Klever Kolberg, 42, é piloto do Mitsubishi da Equipe Petrobras Lubrax

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