Um Solitário no Palco.
O grupo Parlapatões monta “Vaca
de Nariz Sutil”, de Campos de Carvalho, um romancista
esquecido que vem sendo redescoberto pelo teatro.
Por Walmir Santos“A cortina se levanta e eu decido
improvisar tudo em tom humorístico e sem sentido”,
diz o protagonista do conto O Segundo Sonho, de Walter Campos
de Carvalho (1916-1988). A frase parece premonitória.
O escritor mineiro escreveu seis romances, caiu no esquecimento
e agora vem sendo redescoberto por meio, justamente, do
teatro. Após a bem-sucedida montagem Aberbal Freire-Filho
para o Púcaro Búlgaro (2006), chega aos palcos
no fim deste mês a versão do grupo de comediantes
Parlapatões, Patifes & Paspalhões, de
São Paulo, para o romance Vaca de Nariz Sutil.
Campos de Carvalho era um sujeito ressabiado. Dos seis livros
que publicou, renegou os dois primeiros, Banda Forra (1941)
e Tribo (1954). Escreveu os quatro restantes – A Lua
Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A
Chuva Imóvel (1963), O Púcaro Búlgaro
(1964)- em pouco menos de dez anos. Nos outros 34, até
sua morte, não publicou mais nada. Em que pese a
curta trajetória (e o esquecimento em que sua obra
caiu durante todo tempo), escritor consolidou um estilo,
de assumida filiação surrealista, que tinha
como originalidade a capacidade de trabalhar com os maiores
devaneios numa proposta enxuta, precisa e sem volteios.
Na definição do crítico Wilson Martins,
Campos de Carvalho foi um “poeta maldito”, que
desafiou todas as convenções ,as sociais e
as literárias.
O diretor Hugo Possolo, dos Parlapatões, afirma que
foi atraído pelos potenciais cômico e dramático
nas situações, diálogos e ruminações
do narrador de Vaca de Nariz Sutil . No texto, um homem
retorna da guerra sem glórias e divide um quarto
de pensão com um rapaz surdo-mudo. Gosta de freqüentar
os botecos da cidade e, principalmente, o cemitério,
o “Hotel Términus”, onde se enamora da
filha do zelador do lugar, Valquíria. Mas acaba acusado
injustamente de abusar da adolescente, que sofre de problemas
mentais. Pressionado pela sociedade, toma um trem dali para
nunca mais.
Na concepção de Possolo, o delírio
desse personagem atravessa o espetáculo feito “locomotiva
sem freios”. Imagens projetadas ajudam a dimensionar
o frenesi de tempo e espaço no romance. Entretanto,
o visual não é o único trunfo da montagem.
“O importante é alcançar um interpretação
mais visceral, um desafio e tanto para a gente que trabalha
num registro mais farsesco”, afirma Possolo. Quem
protagoniza o espetáculo é Henrique Stroeter.
Com estilo histriônico, o ator sugere um descontrole
pertinente a um personagem destemperado na fala e na ação
física. Possolo, sempre um espevitado em cena, quem
diria, vive o surdo-mudo Aristides. Raul Barretto e Claudinei
Brandão, do núcleo artístico da companhia,
desdobram-se nos demais papéis ao lado dois jovens
também chamados para compor o elenco.
Certo, a vida não pode ser um poema – como
frisa um dos personagens da peça – , mas pode
render boas piadas. Possolo está no quinto tratamento
da adaptação – seu primeiro contato
com o livro se deu há pelo menos duas décadas.
“ A gente quer juntar o veneno e o perfume”,
afirma. O desejo é alcançar a crítica
à hipocrisia da sociedade contida no texto de Campos
de Carvalho por meio de sarcasmo, da ironia e da provocação.
Nos jogos de linguagem de Vaca de Nariz Sutil , os provérbios
são vitais: “Pago a pensão com a pensão
que o Estado me paga pelo meu estado”, por exemplo.
O primeiro diretor a explorar em cena esse potencial de
crítica e humor foi Aderbal Freire-Filho, na montagem
de O Púcaro Búlgaro. Na peça, um certo
Hilário cisma de fazer uma expedição
para confirmar se a Bulgária existe – afinal,
quantos búlgaros se conhecem andando por aí?
“Tenho certeza que ele teria ficado contente ao ver
o professor Rodamés Stepanovicinsky ao vivo, o personagem
que faz o público delirar”, diz Aderbal, referindo-se
ao “bulgarólogo” da peça.
A obra de Campos de Carvalho era um ponto tão fora
da curva, tão diferente do que produzia no Brasil,
que não foram poucos mal-entendidos. O Púcaro
Búlgaro, por exemplo, publicado no ano-zero da ditadura
militar, foi tachado de alienado “alienado”
pelo cineasta Glauber Rocha em um artigo para O Pasquim.
A favor do jornal, diga-se que acolheu crônica do
escritor quando ele já vivia no recolhimento, em
1972. Os textos dessa fase foram publicados pela José
Olympio no volume Cartas de Viagem e Outras Crônicas,
organizado por Cláudio Figueiredo. A editora, quem
em 1955 reuniu os quatros textos autorizados pelo autor,
deve relançar ainda este ano os romances em volumes
separados.
Quando escreveu o conto O Segundo Sonho, Campos de Carvalho
o entregou ao também escritor Mário Prata,
seu primo conterrâneo de Uberaba , em Minas Gerais.
“Ele jamais podia imaginar que um dia estaria, não
ele, mas sua obra no palco”, diz Prata. Ele visitou
algumas vezes o apartamento em que o apartamento em que
o romancista vivia com a mulher e pintora Lygia Rosa, no
bairro paulistano do Higienópolis. “Ele era
assim, cheio de mistérios e coincidências.
Ateu confesso, morreu numa sexta-feira Santa, e o motorista
do carro funerário se chamava Jesus”, conta.
No cemitério, não havia gente o suficiente
para carregar o caixão, depois conduzido ao crematório.
A condição humana sem retoques, a começar
pela do próprio autor, serviu de matéria-prima
de uma produção literária inigualável.
“Campos de Carvalho se parece um pouco com a figura
arquetípica do palhaço. Mistura as angústias
mais íntimas da vida, o estágio de lirismo
interior ,com a loucura de seus personagens”, diz
Possolo.
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