Perguntando-me sobre a relação Psicanálise e Instituição Psiquiátrica me
vejo num redemoinho, me perco e não consigo encontrar o fio da meada. Um nó, emaranhado de fios,
atravessado por múltiplas inscrições que o constituem. Parece ser, num primeiro momento,
algo inatingível, complexo demais para uma principiante, capturante demais para alguém que se
vê completamente implicada com o desejo de decifração. Por uma lado, a Psicanálise
pode se constituir num referencial que me ajude a pensar algumas situações vividas na
Instituição. Por outro lado, penso que seria desastroso, se não impossível, tentar
colocar a Instituição Psiquiátrica no divã, mesmo porque não parece ser esse o
seu desejo. Ao contrário, a intervenção analítica, enquanto espaço para o
surgimento do subjetivo e da verdade, constitui-se numa ameaça ao desejo institucional de se perpetuar e se
reproduzir -
algo da ordem do mito. Além disso, seria deturpador e reducionista pensar que a Psicanálise poderia
dar conta de abarcar a questão institucional em toda a sua complexidade.
E o que, nesse momento, se oferece como possibilidade de análise? Basicamente aquilo que eu não
sei. Aquela coisa que aconteceu e que me assustou e me deixou perplexa, o imprevisto.
Franco da Rocha -
30 de Junho de 1987 -
13:30h -
1ª Colônia Psiquiátrica Feminina -
Hospital Colônia de Reabilitação -
Departamento Psiquiátrico II -
Hospital do Juqueri -
Festa Junina -
Pátio do 3ª Pavilhão -
Música Junina na vitrola -
200 mulheres aproximadamente: pacientes, funcionárias, terapeutas ocupacionais, médica,
enfermeira, psicólogas -
1 psicólogo e a perspectiva da chegada de homens pacientes de outras colônias do Hospital
-
Dança -
Alguns pares -
Uma disparidade: o choro -
A aproximação violenta.
Cada um desses elementos, acima dispostos como que num texto telegráfico, encontram-se carregados de
significações, entrecruzam-se e disparam inúmeras possibilidades de análise. Apontam:
o instituído-manifesto expressa e oculta o instituinte-latente.
A festa está acontecendo. Música, dança. Nada de novo-apatia, desânimo,
angústia, a sensação de estar indo para um ritual mortífero. Meus passos em
direção ao pátio são lentos e pesados -
preciso me carregar até lá.
Talvez algo de novo, sim: amanhã saio de férias e em algum lugar me falo
-
essa é a última, não posso mais continuar, é penoso demais. Vivo essa saída
como a possibilidade de buscar o ar que estava me faltando ali dentro. De outro lugar me falo
-
estou aqui, chegando para mais uma festa.
Um primeiro olhar me mostra Conceição. São muitas mulheres, 200 aproximadamente.
Algumas entretanto se fazem mais presentes. Como Conceição -
eu já vinha procurando vê-la e ela procurava ser vista. Chorava, gritava, corria, ameaçava
quebrar vidros -
que sufoco! Aproximo-me dela, ela corre, vai embora -
que sufoco! Alguns técnicos tentam se aproximar dela, não conseguem. Ela prossegue em sua corrida
desenfreada, angustiada.
Agora é Conceição quem fala: "Isso não é um hospital, é uma
prisão. Eu quero um calmante." Tentativa desesperada de ser reconhecida em sua fala/denúncia
e em sua demanda de cuidados.
Sua fala me angustia ainda mais, eu, como ela, prisioneira, não vejo saída e me afasto numa
brincadeira de faz-de-conta (como se eu, diante da amiga que levou um tombo, tem o joelho esfolado e chora de
dor, propusesse: isso passa, vamos continuar brincando): proponho-lhe um sucedâneo, vamos aproveitar a
festa, Conceição. É tão raro uma festa: música pra dançar, comidas
diferentes... Quem sabe você pode se acalmar, conversando ou dançando.
Conceição sai correndo, chorando, gritando. Estou totalmente paralisada, invadida por uma
sensação de impotência. Ela vai até o aparelho de som e
-
um estouro! -
o derruba. Volta até mim, chorando intensamente. Sinto-me, num crescendo, tomada pelo seu desespero.
Seguro seus braços, abraço-a, choro com ela -
por que você fez isso? Você acabou com a festa de todo mundo. Você está muito triste.
Conceição para de chorar e, assustada, me fala: "Não chora". Vivendo ainda
intensamente a violência desse momento, vejo aproximar-se de mim a terapeuta ocupacional com quem
trabalho. Ela me fala: "Você está psicótica". Sinto-me acuada, assustada, louca.
Conceição se acalma e vai pra junto de sua companheira.
A festa está acontecendo. Música, dança. Pra mim, acabou!
E o que há por trás da cena? Onde está a festa? Onde está o desejo?
Nesta, como em outras festas, os lugares estão determinados: as terapeutas ocupacionais trabalham para
que a festa aconteça; os psicólogos participam da festa, acompanhando pacientes, sentem-se
cobrados por não fazerem a festa; os médicos, às vezes aparecem, como visitantes, são
cobrados pelas terapeutas ocupacionais por não fazerem a festa e pelos psicólogos por não
estarem presentes, acompanhando pacientes; os funcionários sentem que o trabalho aumenta, estão
ali cumprindo uma tarefa imposta, para além de suas obrigações cotidianas; as pacientes,
algumas aproveitam a música para dançar, esperam pela comida diferente que vai ser servida e a
possibilidade de se encontrarem com os pacientes homens, talvez um namorado; outras, apáticas, distantes
-
onde estarão?
Conceição chora -
tristeza? -
grita, corre e ameaça -
raiva? Nela parecem estar condensadas a tristeza e a raiva de todos, suficientes para acabar com a festa.
A tristeza e a raiva que não podem se manifestar nas relações entre os técnicos da
equipe, vividas como ameaça de destruição. Ela extravasa, transborda, agudiza, denuncia a
contradição -
"Isso não é um hospital, é uma prisão. Eu quero um calmante".
Aqui mesmo quero interromper para trazer questões que foram as primeiras, surgidas ainda quando essa
cena era embrionária, talvez. Aparecia, então, uma tentativa de esboço do que poderia vir
a ser aquela monografia, ou essa: estabelecer as conexões entre a Psicanálise e a prática
institucional. De dentro da Instituição Asilar, que escuta é possível? Onde está
a possibilidade de ajuda?
Jovens profissionais, em sua maioria recém-formados, vão em busca do ideal perdido de unidade
integração, a recomposição de um desejo narcísico, no contra-fluxo da
dissociação, dispersão. A Instituição determina e assegura lugares
-
Arca de Noé -
aos quais esses profissionais se agarram e se protegem da inundação, do movimento das
águas que devassa e transforma. E isso não é só uma imagem romântica.
Franco da Rocha sofreu, recentemente, uma grande inundação. Muitos foram os desabrigados cuja
única possibilidade de abrigo foi o Juqueri que, situado em território finamente escolhido, resistiu
bravamente, confirmando seu destino de último reduto para os desvalidos. Identificados com essa desvalia
somos impotentes, capturados pelo desejo de segurança, pertinência e reconhecimento com que nos
acena a Arca de Noé.
E nesse contexto existe lugar para a loucura? Essa que é sofrimento, mas que também é
uma tentativa desesperada de organização para não sucumbir? Aí vem a
contradição: no território destinado a conter a loucura é terminantemente proibido
enlouquecer.
No discurso da equipe técnica, palavras como humanização, melhoria das
condições de vida das pacientes, a busca de uma alternativa terapêutica. Na prática,
essa mesma equipe técnica se refugia miticamente do contágio com a loucura, alienando-se em
seu próprio discurso. O paciente, como representante da loucura de cada um, é o reprimido na
equipe. Os "cuidados" são muralhas que se erguem, dispositivos de manutenção:
a medicação que esvazia; a escuta que é surdez; a festa que é ritual de
celebração do inanimado, da sujeição, do esvaziamento e da surdez.
No entanto, algo vem para alterar um quadro constante, rompe-se um pequeno orifício no assoalho
da Arca. Irrompe o choro, violento, transbordante, ameaçado e abalando a rigidez da muralha.
Conceição agita -
eu me inquieto. Este é o meu último dia de trabalho, estou saindo de férias e me sinto mais
"livre". Na véspera fui até seu quarto e conversando com ela lhe falei que sairia de
férias. Algo se passa para que entre 76 pacientes (nº total de pacientes do 2º pavilhão, no qual
trabalho) eu tenha escolhido ela e algumas outras pacientes para comunicar as minhas férias. E de fato,
o 2º pavilhão transformou-se nos últimos tempos no pavilhão das agitadas e
Conceição encabeça esse movimento. A equipe (psiquiatra, terapeuta ocupacional e psicóloga) entende nesse momento que a agitação é sinal de vida. Os funcionários (atendentes e auxiliares de terapia ocupacional) sentem-se ameaçados e reclamam da agitação à diretoria. Na cultura institucional a agitação aparece como algo que deve ser contido -
no leito, ou com uma dosagem maior de medicação, ou outro dispositivo que pode ser inclusive a
fala/falo: é proibido agitar. A equipe técnica não consegue sustentar-se e é chamada
a dar um jeito nessa situação. O dispositivo de contenção nos atinge.
Eu agito -
Conceição se inquieta e, em sua fala assustada -
"Não chora" -
faz aquilo que a equipe não pode fazer: cuidar.
O analista dentro do Juqueri? Parece-me que agora, depois desse "parto doloroso", está
aberta a possibilidade de continuar pensando o lugar do analítico: o que rompe, desautomatiza, diferencia.