De volta à noção de realidade
Para encerrar estes comentários sobre a noção de realidade em psicanálise, gostaria de apresentar algumas idéias que Paul Ricoeur desenvolveu sobre o tema, em seu texto: "Técnica e Não-Técnica na Interpretação" (1978)(14).
Ricoeur fala do trabalho do analista como um manejo analítico que corresponde no analisando ao trabalho de consciência, e sugere que estas duas formas de trabalho revelam todo o psiquismo como um trabalho – trabalho do sonho, trabalho do luto, trabalho da neurose. Por que a análise seria um trabalho? Porque é uma luta contra as resistências, e aquelas resistências que se opõem à análise seriam as mesmas que estariam na origem da neurose. Por isso não basta comunicar ao doente o conteúdo de uma interpretação para curá-lo, já que do lado do analisando a compreensão não passa de um segmento de seu próprio trabalho. Assim, a análise não consistiria em substituir a ignorância pelo conhecimento, mas em provocar um trabalho de consciência mediante um trabalho sobre as resistências. Esta tomada de consciência envolve aquilo que Freud chama de Durcharbeiten, perlaboração.
Desconhecimento e Reconhecimento
Também no âmbito da metapsicologia, que seria a teoria correspondente a esta práxis do manejo analítico, a noção de trabalho é central. Tomando como ponto de partida a interpretação dos sonhos, Ricoeur pondera que se o sonho pode ser considerado como satisfação de um desejo, é porque os pensamentos inconscientes aí estão distorcidos, e esta distorção é interpretada por Freud como um trabalho – o trabalho do sonho. Considera que os procedimentos que para isto concorrem são também formas de trabalho: trabalho de condensação e trabalho de deslocamento. Toda a metapsicologia seria, segundo Ricoeur, a elaboração conceitual que torna possível a compreensão do psiquismo como trabalho de desconhecimento, como técnica de distorção, que suscita o reconhecimento como trabalho. O objeto da psicanálise seria – pois o homem enquanto processo de formação e distorção – aplicado a todos os representantes afetivos e ideativos de seus mais antigos desejos, daqueles desejos indestrutíveis, intemporais e fora do tempo.
Diferenças entre a técnica psicanalítica e técnicas da psicologia
O trabalho analítico seria um trabalho no nível da linguagem. O trabalho psíquico detectado pela análise seria um trabalho no nível do sentido, e seu objeto próprio seriam efeitos de sentido – sintomas, delírios, sonhos, ilusões. Assim, a psicanálise seria uma técnica, mas que só maneja as energias mediante efeitos de sentido.
Ricoeur assinala a diferença entre as técnicas provenientes da psicologia, que são em última instância técnicas adaptativas tendo em vista a dominação, e a técnica analítica, considerando que o que está em jogo na análise não é a dominação, mas o acesso ao discurso verdadeiro. A psicanálise parece estar ligada à vontade de pôr entre parênteses a questão da adaptação. Talvez, pelo fato da psicanálise conceber-se como meio de passagem de Principio de Prazer ao Princípio da Realidade, pudéssemos supor que ela visa a adaptação à realidade. Contudo, a realidade de que se trata em psicanálise distingue-se radicalmente de conceitos como meio ambiente ou estímulo.
O Narcisismo – fonte da resistência à verdade
Ricoeur afirma que devemos atribuir ao narcisismo o valor de um obstáculo epistemológico, por ser em última instância a origem de nossa resistência à verdade. O trabalho contra as resistências seria sempre um trabalho contra o narcisismo; a prova da realidade não se associa a uma técnica de ajustamento, mas é correlativa ao trabalho de liquidação de resistências narcísicas no esforço de autoconhecimento. Isto me recorda as palavras de Coleridge, citadas por Bion, acerca daquele solitário caminhante:
"Como alguém que em um sendeiro solitário caminha temeroso e aterrorizado e, tendo se voltado uma vez, prossegue caminhando sem virar a cabeça para trás novamente, porque sabe que um demônio espantoso caminha atrás dele, muito próximo. Este demônio espantoso representa indistintamente a busca da verdade e as defesas ativas que se lhe opõe, dependendo do vértice".
Na citação de Bion, aparece a mesma busca da "verdade de uma história pessoal" e as resistências que encontra, tal como nas palavras de Ricoeur. Quando Bion fala em aproximar-se mais da realidade, trata-se desta verdade pessoal a ser revelada/constituída mediante o próprio trabalho do pensar.