Notas à margem do pensamento de Bion
A propósito de uma discussão entre
Renato Mezan e Maria Emília Lino da Silva


Elisa Maria de UIhôa Cintra


Elisa Maria de Ulhôa Cintra aluna do curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP.


Uma primeira versão deste trabalho foi lida por Janete Frochtengarten (Sedes) e Luís Cláudio Figueiredo (PUC-SP),a quem agradeço pelas sugestões e pelo incentivo.


Este trabalho originou-se do meu desejo de continuar um debate iniciado pelas questões formuladas por Renato Mezan e Maria Emília Lino da Silva, ao término da palestra desta última sobre o pensamento de W. Bion(1). Retomarei algumas das questões tais como as recordo, não com o objetivo de dar respostas, já que as questões são bastante amplas e complexas, mas com o fim de ir problematizando guiada por elas.

O conceito de realidade

A primeira que me ocorre é aquela que diz respeito ao conceito de realidade, tão recorrente na obra de Bion. Afinal, o que é esta realidade? Como pode ser ela definida? Que implicações pode ter esta noção para a prática clínica? Não corremos o risco de acabar chegando a uma figura de analista como único detentor do segredo da realidade locus da sabedoria última e definitiva a este respeito? Além disso, que concepção é esta de desenvolvimento infantil que supõe que a criança vá se aproximando cada vez mais da realidade? Isto não conduziria a uma perspectiva adaptativa, normativa, ortopédica, tanto no desenvolvimento normal quanto daquele que ocorre na análise?

Sem dúvida, esta leitura é possível a partir dos escritos de Bion ou de Freud, quando a palavra realidade é entendida como "meio ambiente que circunda um organismo" e ao qual este tem que adaptar-se para sobreviver. Mais do que isto, esta leitura acaba sendo feita, gerando um modelo de análise autoritária e obscurantista, com o analista ocupando a posição do que sabe, diante de aprendizes submissos que acreditam piamente nas fantasias que seu analista nutre a respeito da indiscutível realidade.

O contexto das teorias de evolução do século XIX, que alimentou o pensamento científico de Freud, Bion, e até hoje constitui a tradição dentro da qual compreendemos o conceito de realidade, torna-se em certos momentos um impedimento para a elucidação da idéia, tal como foi desenvolvida pela psicanálise. Embora tendo um forte débito para com esta tradição, o termo realidade em psicanálise não pode ser confundido com a noção de um meio ambiente que circunda o organismo, interagindo com ele.

Nos próximos dois itens "Da realidade ao Princípio de Realidade" e "Realidade Incognoscível" apresentei algumas citações de Bion que pertencem a diferentes momentos de sua teorização, para iniciar a discussão destas idéias no item "Oposição e Imposição".

Da realidade ao Princípio de Realidade

Uma das coisas para a qual a psicanálise desde logo chamou a atenção é que, além dos estímulos do meio ambiente que circunda o organismo, há também um meio interno, gerador de qualidades de prazer e dor, mundo do conflito pulsional. O indivíduo teria então que se defrontar com estas duas fontes de estímulos geradoras de impressões sensoriais, que exigem algum processamento; uma fonte externa e outra interna.

Bion escreve sobre isto em Le arning from Experience (1968). Ele inspira-se no trabalho Os dois Princípios do Funcionamento Mental (1911)(2) de Freud, que é amplamente mencionado no capítulo do qual extrai a citação. A ênfase, como se poderá ver, recai sobre a capacidade de compreensão das impressões sensoriais, independentemente da sua proveniência. A questão da realidade transforma-se em "o que faz o indivíduo com as impressões sensoriais que chegam a ele de fora e de dentro?" A preocupação com a realidade como um espaço ambiental passa a ser preocupação com o princípio que rege o funcionamento da resposta do indivíduo.

"Descrevendo a instituição do Princípio de Realidade, Freud disse: 'A crescente significação da realidade externa aumentou também os significados dos órgãos sensoriais voltados para o mundo externo, e para a consciência, ligada a eles. Os últimos aprenderam então a compreender as qualidades sensoriais, além das qualidades de prazer e dor que haviam sido até então o seu único interesse'. Eu enfatizo 'os últimos aprenderam a compreender'; por 'os últimos' Freud presumivelmente queria dizer 'a consciência ligada as impressões sensoriais'. A atribuição de compreensão à consciência eu discutirei mais adiante. A função da compreensão em si mesma é a preocupação imediata; compreensão das impressões sensoriais e compreensão das qualidades de prazer e dor são ambas investigadas nesta discussão. Considero impressões sensoriais, prazer e dor, como igualmente reais, portanto descartando a distinção que Freud faz entre o mundo externo e prazer e dor como irrelevante para o tema da compreensão. Irei agora discutir o peso do Princípio do Prazer e do Princípio de Realidade sobre a escolha que um paciente pode fazer entre modificar a frustração ou esquivar-se dela"(3).

Realidade Incognoscível

Bion ocupa-se em vários momentos de sua obra em deixar claro que em sua opinião a realidade última das coisas não pode ser conhecida.

"Em qualquer objeto, material ou imaterial, reside a realidade última incognoscível, a coisa-em-si. Os objetos produzem emanações ou qualidades emergentes ou características em evolução que quase se impõem como fenômenos à personalidade humana. Destas qualidades, a personalidade está sabedora, consciente ou inconscientemente; elas diferem da realidade última"(4).

"É impossível conhecer a realidade pela mesma razão que é impossível cantar batatas; elas podem ser cultivadas, ou arrancadas ou comidas, mas não cantadas. A realidade tem que ser sendo; deveria existir um verbo transitivo ser expressamente para uso com o termo realidade"(5).

Oposição e Imposição

A realidade seria então aquilo que exerce uma oposição. Oposição a quê? À realização imediata do desejo. E o que esta realidade impõe? A realidade seria aquilo que impõe a realização de algum trabalho. Isto faz lembrar a definição de pulsão, como aquilo que faz uma exigência de trabalho ao aparelho psíquico. A pulsão seria a realidade interna.

Se o estado de satisfação plena vem a ser impossível desde o nascimento do indivíduo, sendo interrompido pela experiência de frustração, esta não seria vivida como uma experiência puramente negativa, de falta, mas – devido à angústia – como acréscimo de energia insuportável, ou como corpo estranho, no sentido descrito por Laplanche (1988)(6): corpo estranho que invade, perfura, incomoda e cobra um trabalho.

Por este eixo onde se insere a exigência de trabalho, vem também a noção de tempo enquanto duração, enquanto necessidade de postergação; e também a dor e o limite, como prefiguração da morte.

Mesmo havendo continuidade entre mãe e filho, desde o início esta é uma continuidade descontínua, havendo intervalo entre seio e boca; é neste intervalo que se insere o mundo.

A experiência de frustração como aquilo que exerce o corte

Uma das questões que Mezan levantou após ouvir algumas das idéias de Bion foi: onde estaria nas formulações bionianas o terceiro que faz o corte, o elemento negativo que seria o pai, para Freud, e a metáfora paterna para Lacan? Aqui é preciso indicar a outra fonte de Bion, o trabalho de Melanie Klein, no qual ela desenvolve a idéia de Complexo de Édipo precoce, que se iniciaria na época do desmame. Para ela(7), desde este mais remoto início haveria a fantasia de um terceiro, que estaria usufruindo do seio ansiado enquanto o sujeito experimenta a frustração. De maneira que o elemento negativo – que teria por função exercer o corte na relação simbiótica com a mãe – estaria em uma fantasia que nasce da experiência de frustração a qual não pode ser vivida como falta, pois a criança não simboliza a ausência.

Esquivando-se da frustração

Diante da frustração, o bebê tentaria livrar-se do acréscimo de energia gerado em seu interior, através de uma descarga motora, do choro, do espernear e debater-se, expressando assim seu estado desorganizado com movimentos ineficazes para dar conta do seu mal-estar. Acaba ainda ocorrendo a alucinação, através da qual o bebê imagina-se satisfeito para eludir o desconforto.

Com Melanie Klein aparece o conceito de identificação projetiva, que seria uma forma de livrar-se da perturbadora angústia, projetando para o exterior a fonte do desconforto e passando a perceber o mundo externo como uma fonte de perigo. Estas primitivas formas de reagir podem ser concebidas como tentativas de solucionar rapidamente a situação desprazeirosa com o mínimo de esforço possível, ou seja, livrando-se o mais cedo possível do problema.

A desvantagem destas formas de reação é que não dão possibilidade para o exame da situação, para o que seria exigida certa tolerância à frustração.

Modificando a frustração

Na medida em que a situação não chega a ser conhecida pelo sujeito, este não desenvolve um conjunto de experiências a respeito de si e do mundo. Não chega a aprender com a experiência. Para aprender com a experiência é necessário tolerar antes de tudo a própria ignorância, os estados de desorganização e angústia. Inspirados na química, podemos imaginar esses estados como o que se passa em situações de alta temperatura e ebulição, onde vários reagentes são colocados em contato e onde ocorrem transformações. A presença do fogo remete à elevação do potencial de energia livre (em estado de utilização) que é necessária para desencadear os processos de transformação. A idéia seria de que a manutenção destes estados altamente energéticos é contrária à tendência do aparelho psíquico, que é de descarga, resfriamento, retorno ao potencial de cargas mais baixo.

A idéia de Bion, baseada no Freud de Os Dois Princípios do Funcionamento Mental, é a de que o indivíduo pode desenvolver maneiras mais elaboradas e sofisticadas de responder às exigências internas e externas, e é isto que ele chama de aproximar-se da realidade. Aqui, aproximar-se significa poder estar com seus estados desorganizados e caóticos para desenvolver respostas que são elaborações. Estas constituem propriamente um trabalho, em que a percepção do ambiente passa a ser mais sistemática, desenvolvendo-se a atenção como uma função que examina e faz sondagens periódicas no ambiente. Esta atividade vai ao encontro das impressões sensoriais, ao invés de simplesmente esperar por elas. Agora a discriminação das qualidades sensoriais torna-se mais importante que a simples diferenciação entre o prazer e o desprazer. Cresce, portanto, a importância dos órgãos sensoriais e da consciência, instância ligada a estes.

Bion toma de Freud a idéia de que a consciência é uma espécie de órgão sensorial para captar a qualidade psíquica.

Tomar consciência ou admitir a consciência?

Seria interessante confrontar esta concepção de consciência como órgão sensorial para captar a qualidade psíquica com o termo usado por Freud no caso de Elizabeth Von Ritter. O termo é Annahme ou Aufnahme, que tem a ver com a palavra alemã nehmen, que quer dizer tomar, pegar para si, admitir, assimilar, o que implica em uma admissão ou re-admissão à consciência da representação reprimida.

Estou me baseando em um artigo de Monique Schneider (1974)(8), para contrastar o primeiro termo – tomar consciência – com este admitir a consciência. Tomar consciência implica em um movimento de distanciamento, em uma idéia de domínio, de captura, de posse, como nas expressões de guerra tomar uma cidade, que tem como conseqüência passar a governá-la. O sujeito seria assim soberano frente a um objeto que seria por ele domado.

Vou retomar uma idéia de Monique Schneider, no artigo citado:

"Como abordar a noção de tomada de consciência sem assistir a sua anexação por um movimento reflexivo que vê nela (tomada de consciência) um movimento de transcendência, de visão, de distanciamento? Tomar consciência chama, convoca inevitavelmente todas as metáforas do olhar; da captura, da objetivação. A tomada de consciência de uma realidade realizaria um movimento de libertação frente a esta realidade. E não é de certa forma uma libertação deste tipo que se pediria à psicanálise que operasse? Tomar consciência de seu passado, de suas motivações, de suas fantasias, seria não ser mais escravo deles, mantê-los à distancia, a distância que é considerada como sendo a distancia do olhar. A tomada de consciência seria este movimento de ruptura que instaura um espaço capaz de tornar possível o ato de ver".

Tomada de poder ou movimento de admissão?

Neste caso, poder perceber algo exige que haja uma certa distância; assim, pensar a consciência como o órgão sensorial para a qualidade psíquica pode levar a pensá-la como o órgão da visão, o que implica numa certa distância em relação à coisa a ser percebida. Por outro lado, naquelas noções Annahme/Aufnahme há uma conotação mais visceral, de assimilar, trazer para dentro, incorporar. Nesta perspectiva não há mais um sujeito soberano que se apodera de algo, mas um sujeito que se deixa penetrar e modificar por algo que ele admite à sua consciência. Nas palavras de Monique Schneider, "é um movimento que implica o ser ao invés de desimplicá-lo, conforme a metáfora distanciadora do olhar". E ainda:

"Não se trata apenas de constatar o processo, mas de esposá-lo, acolhê-lo em si, fazer surgir um lugar para ele; quando se trata de representações apreendidas inicialmente como insuportáveis, este movimento de readmissão evoca mais a idéia de uma abdicação do que a idéia de uma tomada de poder".

Penso que este movimento, em que o sujeito não é tanto o agente que apreende uma síntese seu objeto, mas é pelo contrário penetrado, impregnado, transformado por algo que ultrapassa a visada de sua compreensão, é comparável ao modelo continente/contido na obra de Bion.

O Modelo Continente/Contido

Quando Bion analisa a relação da mãe e do bebê, tenta estabelecer um paralelo entre o modelo biológico e o psíquico(9), falando de um seio psicossomático e um conduto alimentar psicossomático infantil que estariam envolvidos no aspecto psicológico deste relacionamento, ou seja, na digestão e metabolização da frustração, da segurança e do amor. Como no início da vida o bebê não estaria aparelhado com este tubo digestivo psicossomático, teria que primeiro constituí-lo através do relacionamento com sua mãe, auxiliado pela capacidade de rêverie desta, a qual forneceria o continente adequado às vivências do bebê. No entanto, é preciso pensar esta relação entre continente/contido de modo dinâmico e dialético, porque o resultado do desenvolvimento seria a constituição da própria continência e do aparelho psíquico do bebê, mediante a introjeção da continência da mãe. O que aproxima estas concepções – continente/contido e Annahme/Aufnahme – são os movimentos de passividade/atividade e a metáfora gestacional que podemos ver em um e em outro modelo.

Como lidar com os estímulos: dois modelos

Inspirada como vimos em Freud e Melanie Klein, na obra de Bion encontramos dois modelos mais ou menos esquemáticos de como o psiquismo lida com os estímulos internos e externos que chegam a ele. O primeiro seria o da descarga, do arco reflexo, da identificação projetiva, que poderíamos chamar de modelo evacuativo, pois tenta dar conta do acréscimo de excitação vendo-se livre dela. Isto seria o processo característico da posição esquizo-paranóide. O outro modelo seria mais gestacional, implicando na conservação do acréscimo de excitação para trasformá-lo, trabalhá-lo, forjá-lo, o que acaba resultando em ser transformado, ser trabalhado, ser forjado para fazer caber e dar espaço. Este movimento caracteriza a posição depressiva.

Modificando a frustração: atenção, memória e pensamento

Retomo a questão da modificação da frustração, que foi intercalada pelos comentários a respeito de duas concepções de consciência presentes na obra de Freud.

Bion inspira-se na idéia de Freud de que a consciência é uma espécie de órgão sensorial para captar a qualidade psíquica. Ou seja, da mesma maneira que os órgãos sensoriais estão voltados para o exterior, desenvolver-se-ia uma função que ele chama de atenção, cujo objetivo seria fazer sondagens sistemáticas do ambiente. Além da atenção, ter-se-ia desenvolvido também um sistema encarregado de anotar os resultados desta atividade periódica da consciência, que em parte chamamos memória. Estas funções, que na formulação freudiana são assimiladas às funções do ego, constituiriam o que Bion vai chamar de aparelho para pensar. Este aparelho não se resume às funções, mas é considerado como o conjunto dinâmico destas funções, operando em correlação com o inconsciente de modo a produzir uma visão binocular da realidade. Como se o psiquismo fosse um conjunto no qual os dois modos de funcionamento estivessem presentes: modo de funcionamento primário e secundário, articulados como na representação de figura e fundo.

Assim, a relação entre os dois modos de funcionamento é que permitiria a visão em perspectiva, que se expressa numa fala com ressonâncias para o ouvinte, o que está ausente no funcionamento psicótico. Bion ressalta a existência deste aparelho para pensar como necessário para a resolução de problemas. Contudo, a progressiva adaptação do analisando e da criança em desenvolvimento não seria a adaptação a uma realidade externa pré-definida, mas ao modo de funcionamento do aparelho psíquico caracterizado no modelo gestacional. Isto implica numa certa capacidade para se expor aos problemas da vida pulsional e às frustrações, o que resultaria em uma atividade de elaboração intensificada.

Adaptar-se ou (ad) aptar-se

Se pensamos que a realidade última do psiquismo é o conflito pulsional a exigir trabalho permanente, aceitar que esta é a lei poderia ser visto como adaptativo. Entretanto, isto seria equivalente a adaptar-se à revolução permanente, pois estas elaborações e re-elaborações contínuas das experiências exigem tolerância a estados de desorganização inesperados e desconhecidos. Aqui seria interessante pensar que adaptar-se passou a ter uma conotação pejorativa na medida em que o associamos à passividade, conformismo e falta de originalidade. Nesta via de associações, aparece a idéia de conformar-se ao que já existe, parecendo não haver lugar para a livre expressão da criatividade. A idéia do trabalho, no entanto, permite resgatar um aspecto mais ativo do processo em questão. Em vez de adaptar-se teríamos aptar-se ad ou capacitar-se a, tornar-se apto a lidar como conflito pulsional e com as infindáveis exigências da realidade.

Bion considera que o hábito do indivíduo dar sempre as mesmas respostas a novas situações seria conseqüência de uma espécie de lei da inércia do psiquismo, comparável à lei da gravidade para os corpos físicos. O desenvolvimento, portanto, seria penoso como é o movimento antigravitacional, e se daria no sentido de sair do estabelecido, do institucionalizado, do conhecido, rumo ao desconhecido. Assim o analista nunca poderia saber de antemão em que direção caminha o seu analisando, nem se ele deveria necessariamente chegar a um certo ponto x que ele chamaria de realidade.

Ódio à realidade

A realidade estando, como vemos, implicada em um certo modo de funcionamento mental (o da realização do trabalho proposta pelo conflito pulsional), coloca-se a questão: o que dificulta e o que ajuda o sujeito a empreender este trabalho? A função do analista seria a de apontar onde e como, movido por memórias do passado, o indivíduo tenta solucionar seus problemas evitando-os, fugindo deles, acusando os outros, em uma palavra, usando todos os meios possíveis para não realizar o seu próprio trabalho, único, intransferível e imprevisível. Por que memórias do passado? A suposição de que o modo mais primitivo de lidar com a frustração seja esquivando-se dela leva a situar no passado do paciente, na sua infância, o momento no qual ele lançou mão com maior freqüência deste tipo de estratégia. Modificar o mundo externo através de um trabalho e modificar-se interiormente (aptar-se) através da elaboração psíquica é a opção mais difícil, contra a qual resistimos, por natureza.

A idéia de ódio à realidade corresponderia a esta resistência a funcionar segundo o Princípio de Realidade, sendo portanto, resistência a sofrer as modificações que as experiências de frustração impõem. Nos casos em que o ódio à realidade é extremo, Bion fala de psicose:

"Neste aspecto se qualifica como um dos critérios de Freud parapsicose – ódio à realidade. Mas a realidade que é odiada é a realidade de um aspecto da personalidade do paciente"(10).

Esta alusão à psicose lembra o conceito de forclusão em Lacan, e da impossibilidade de acesso ao simbólico.

Se aquilo que chamamos torna-se apto implica na capacidade de elaboração psíquica , e o ódio à realidade segundo Bion é ódio a "um aspecto da personalidade do paciente", teríamos que o paciente destruiria através do ódio a sua capacidade de elaboração psíquica, impedindo o seu próprio acesso ao simbólico.

A função do analista: sem memória e sem desejo

A função do analista seria sempre a de restituir a capacidade de elaboração psíquica, através da criação de um espaço interno, no qual as experiências emocionais e as representações possam ser incluídas e simbolizadas.

Ficou conhecida a expressão sem memória e sem desejo de Bion como uma recomendação ao analista, o qual deveria manter-se então tanto quanto possível neste estado de máxima abstinência, que seria uma forma de garantir o estado de atenção flutuante na escuta. Acredito que esta e uma idéia reguladora, ponto de referência para se pensar, e não um estado a ser realmente atingido. Penso que não seria possível atingir um estado psíquico completamente isento de desejos. Na verdade, podemos notar que o emprego do termo desejo por Bion acha-se sempre relacionado a um modo de funcionamento psíquico cujo paradigma seria o ego de prazer purificado, apresentado por Freud em As Pulsões e suas Vicissitudes (1915)(11), ou seja, funcionamento que visa a discriminação entre o agradável e o desagradável. Esta primitiva forma de discriminação desconhece todas as qualidades sensoriais do percebido, captando única e exclusivamente a sua capacidade de causar prazer ou desprazer.

"A asseveração de que se deve conduzir uma análise em uma atmosfera de privação é entendida geralmente no sentido de que o analista deve resistir a qualquer impulso próprio de gratificar os desejos de seus analisandos ou de desejar afanosamente sua própria gratificação. Para limitar a expressão deste enunciado sem circunscrever a área que compreende, nunca devem nem o analista nem o paciente perder o sentido de isolamento dentro de uma relação íntima de analise"(12).

O objetivo desta recomendação é de que a experiência analítica possa ser um momento de audiência ao movimento do desejo e não momento de gratificação deste. Desta não-gratificação partilhada pelo analista e paciente, nasceria o sentido de isolamento de que fala Bion na citação.

Por memória, Bion se refere a todos os registros de experiências anteriores que poderiam funcionar de modo defensivo, reduzindo a possibilidade de exposição ao conflito atual e seus novos desdobramentos. Bion fala da necessidade de que tanto o paciente quanto o analista possam libertar-se de um sentimento de familiaridade de um para como outro, e a cada novo encontro mantenham a suspeita de que já não estão-se encontrando com a mesma pessoa da sessão anterior.

"Não existe razão alguma para que o analisando acredite que o analista é a mesma pessoa que no dia anterior. Tal crença é sintoma de relacionamento conivente que pretende prevenir o aparecimento de um vazio desconhecido, incoerente, informe..."(13).

De volta à noção de realidade

Para encerrar estes comentários sobre a noção de realidade em psicanálise, gostaria de apresentar algumas idéias que Paul Ricoeur desenvolveu sobre o tema, em seu texto: "Técnica e Não-Técnica na Interpretação" (1978)(14).

Ricoeur fala do trabalho do analista como um manejo analítico que corresponde no analisando ao trabalho de consciência, e sugere que estas duas formas de trabalho revelam todo o psiquismo como um trabalho – trabalho do sonho, trabalho do luto, trabalho da neurose. Por que a análise seria um trabalho? Porque é uma luta contra as resistências, e aquelas resistências que se opõem à análise seriam as mesmas que estariam na origem da neurose. Por isso não basta comunicar ao doente o conteúdo de uma interpretação para curá-lo, já que do lado do analisando a compreensão não passa de um segmento de seu próprio trabalho. Assim, a análise não consistiria em substituir a ignorância pelo conhecimento, mas em provocar um trabalho de consciência mediante um trabalho sobre as resistências. Esta tomada de consciência envolve aquilo que Freud chama de Durcharbeiten, perlaboração.

Desconhecimento e Reconhecimento

Também no âmbito da metapsicologia, que seria a teoria correspondente a esta práxis do manejo analítico, a noção de trabalho é central. Tomando como ponto de partida a interpretação dos sonhos, Ricoeur pondera que se o sonho pode ser considerado como satisfação de um desejo, é porque os pensamentos inconscientes aí estão distorcidos, e esta distorção é interpretada por Freud como um trabalho – o trabalho do sonho. Considera que os procedimentos que para isto concorrem são também formas de trabalho: trabalho de condensação e trabalho de deslocamento. Toda a metapsicologia seria, segundo Ricoeur, a elaboração conceitual que torna possível a compreensão do psiquismo como trabalho de desconhecimento, como técnica de distorção, que suscita o reconhecimento como trabalho. O objeto da psicanálise seria – pois o homem enquanto processo de formação e distorção – aplicado a todos os representantes afetivos e ideativos de seus mais antigos desejos, daqueles desejos indestrutíveis, intemporais e fora do tempo.

Diferenças entre a técnica psicanalítica e técnicas da psicologia

O trabalho analítico seria um trabalho no nível da linguagem. O trabalho psíquico detectado pela análise seria um trabalho no nível do sentido, e seu objeto próprio seriam efeitos de sentido – sintomas, delírios, sonhos, ilusões. Assim, a psicanálise seria uma técnica, mas que só maneja as energias mediante efeitos de sentido.

Ricoeur assinala a diferença entre as técnicas provenientes da psicologia, que são em última instância técnicas adaptativas tendo em vista a dominação, e a técnica analítica, considerando que o que está em jogo na análise não é a dominação, mas o acesso ao discurso verdadeiro. A psicanálise parece estar ligada à vontade de pôr entre parênteses a questão da adaptação. Talvez, pelo fato da psicanálise conceber-se como meio de passagem de Principio de Prazer ao Princípio da Realidade, pudéssemos supor que ela visa a adaptação à realidade. Contudo, a realidade de que se trata em psicanálise distingue-se radicalmente de conceitos como meio ambiente ou estímulo.

O Narcisismo – fonte da resistência à verdade

Ricoeur afirma que devemos atribuir ao narcisismo o valor de um obstáculo epistemológico, por ser em última instância a origem de nossa resistência à verdade. O trabalho contra as resistências seria sempre um trabalho contra o narcisismo; a prova da realidade não se associa a uma técnica de ajustamento, mas é correlativa ao trabalho de liquidação de resistências narcísicas no esforço de autoconhecimento. Isto me recorda as palavras de Coleridge, citadas por Bion, acerca daquele solitário caminhante:

"Como alguém que em um sendeiro solitário caminha temeroso e aterrorizado e, tendo se voltado uma vez, prossegue caminhando sem virar a cabeça para trás novamente, porque sabe que um demônio espantoso caminha atrás dele, muito próximo. Este demônio espantoso representa indistintamente a busca da verdade e as defesas ativas que se lhe opõe, dependendo do vértice".

Na citação de Bion, aparece a mesma busca da "verdade de uma história pessoal" e as resistências que encontra, tal como nas palavras de Ricoeur. Quando Bion fala em aproximar-se mais da realidade, trata-se desta verdade pessoal a ser revelada/constituída mediante o próprio trabalho do pensar.









Notas:

  1. A palestra em questão, proferida por Maria Emília Lino da Silva, teve como debatedores Cecília Hirschizon e Renato Mezan. Foi promovida pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, a 13 de abril de 1988. Volta

  2. S. Freud, "Los dos principios del funcionamiento mental" (1911), in Obras Completas II, trad. L. López-Ballestretos y de Torre, Madrid, Biblioteca Nueva, 4º ed., 1981, p. 1638-1641. Volta

  3. W. R. Bion, Learning from Experience (1962), New York, Jason Aronson, 1983, p. 4, (trad. da autora). Volta

  4. W. R. Bion,– Atenção e interpretação: uma aproximação científica à compreensão interna na psicanálise e nos grupos. (Attention and interpretation: a scientific approach to insight in psycho-analysis and groups, 1970), Rio de Janeiro, Imago, 1973, p. 97. Volta

  5. W. R. Bion, Transformações: mudança do aprendizado ao crescimento. (Transformations: change from learning to growth, 1965), Rio de Janeiro, Imago, 1984, p. 174. Volta

  6. J. Laplanche, "É preciso queimar Melanie Klein?", in Teoria da Sedução Generalizada e outros ensaios, Porto Alegre, Artes Médica, 1988, trad. Dóris Vasconcellos, p. 50-59. Volta

  7. M. Klein, "Early Stages of the Oedipus Conflict" (1928), in The Writings of Melanie Klein 1, New York, The Free Press, 1975, p. 186-198. Volta

  8. M. Srhneider, Affect et langage dans les premiers écrits de Freud, Topique, 1974, p. 121. Volta

  9. M. E. Lino da Silva, Pensando o Pensar com W. R. Bion, São Paulo, MG, Editores, 1988. Volta

  10. R. W. Bion, op. cit., (1965), 1984, p. 77. Volta

  11. S. Freud, "Los instintos y sus destinos" (1915), op. cit., p. 2039-2052. Volta

  12. R. W. Bion, Elementos de psicoanálisis (Elements of psycho-analysis, 1963), Buenos Aires, Hormé, 1966, p. 34. Volta

  13. R. W. Bion, op. cit, (1970), 1973, p. 59. Volta

  14. P. Ricoeur, "Técnica e não técnica na interpretação", in O Conflito das Interpretações, Rio de Janeiro, Imago, 1978. Volta