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Miriam Chnaiderman A herança teórica e política deixada por Lacan
vem se
Em julho do ano passado, no encontro da Causa Freudiana, em Buenos Aires, Jacques Alain Miller, genro de Lacan, pede que a polícia invada uma livraria onde eram vendidas edições "piratas" dos seminários de Lacan. Segundo sua própria justificativa, quer ser fiel a um desejo de Lacan que lhe encarregou de cuidar da edição de todos seus textos. Na França, vários processos estão correndo devido à utilização de textos de Lacan ainda não publicados oficialmente. Ficamos sabendo, aqui no Brasil, que Gérard Pommier, brilhante analista da Causa Freudiana, processa Jacques Alain Miller por falta de ética. Pommier, em lugar de retirar-se da Causa Freudiana, resolve batalhar por seu lugar junto ao herdeiro de Lacan, junto à instituição que o próprio Lacan fundou. Estranha força das instituições psicanalíticas que Lacan mesmo, em relação às sociedades filiadas à Internacional Psicanalítica, comparou com a estrutura da Igreja. G. Haddad, analista da Association Freudienne de Paris, no encontro franco-brasileiro que ocorreu em julho em Paris, indaga-se se Lacan pôde livrar-se do que ele mesmo denunciou: no final da vida, Lacan teria confiado seu ensino a um corpo despedaçado, ou seja, o contrário de uma Igreja. Que esperanças pode nos oferecer um corpo despedaçado? Qual esperança faz com que Eduardo Mascarenhas e o saudoso Helio Pellegrino, após terem sido expulsos da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro devido às denúncias que fizeram no caso Amílcar Lobo (analista que colaborou na tortura nos anos da repressão), lutassem – até conseguirem – pela sua reintegração na instituição que denunciavam? Já sabemos da força das sociedades de psicanálise, isto não nos é estranho. O que sim, estranhamos, é o apelo ao judiciário para lidar com questões que concernem à ética psicanalítica. Claude Dorgeuille em seu livro A segunda morte de Jacques Lacan transcreve a seqüência de cartas que permeou o gesto de Lacan ao dissolver a Escola Freudiana de Paris e os começos da Causa Freudiana. Entre as cartas há uma de Charles Melmann relatando suas dificuldades para ter acesso aos estudos da Causa Freudiana. Carta de 21 de fevereiro de 1980: "...os tutores dos estatutos não tinham o mínimo conhecimento do que traziam e foi preciso que minha mulher fosse requerê-los à chefatura de polícia..." Confia-se nos cuidados da polícia, entidades sem fins lucrativos devem ter seus estatutos depositados na polícia e qualquer um pode ter acesso. É aqui que a história de cada país marca os destinos das instituições psicanalíticas. Nossa experiência de uma ditadura militar nos deixou como marca o medo da polícia. Em Paris, no encontro franco-brasileiro de julho, ouvi analistas brasileiros queixando-se da ausência de lei, da impossibilidade de simbolizar a violência, como se o que vivemos no Brasil tornasse impossível o exercício da psicanálise... Não puderam ainda se dar conta da nossa riqueza de mundos simbólicos, de nosso jogo de cintura que nos leva a descobrir mil formas de viver o desejo. Será que a lei do desejo, de que fala Lacan, é da mesma ordem que a lei jurídica, a lei do Estado? De fato, Lacan falou que o que mantém o homem no desejo é a lei, a lei da castração, a impossibilidade da completude. A lei é a própria possibilidade do desejo que irrompe. O que, em Lacan, não tem nada a ver com a adequação ao estabelecido. Lacan nunca se cansou de denunciar, na psicanálise americana seu papel adaptativo. O desejo tem sempre caráter disruptor. A que lei Lacan obedecia, quando, em uma de suas conferências, em pleno pós-68, em vez de dirigir-se à imensa platéia, falava a um cachorro? Deixar que a psicanálise seja regida pelo Estado é algo que não tem nada a ver com a ética psicanalítica. No Brasil já houve momentos em que se defendeu que a psicanálise se tornasse uma profissão reconhecida pela Constituição brasileira. A psicanálise não é uma profissão e sim uma ética, a ética da fidelidade ao desejo... Pommier, antes de recorrer ao Estado, apelou para todas as instâncias da Causa Freudiana. Quando processa Jacques Alain Miller, o que pretende é tornar público seu poder totalitário. Seu mérito principal é fazer com que possamos discutir
questões tão fundamentais.
Miriam Chnaiderman
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